O PEQUENO NOTÁVEL

O ano de 2014 não começou nada bom para a minha pessoa. Diminuiu o número dos meus fiéis leitores. Todos sabem que 17 pessoas e meio acompanham a minha coluna, quer dizer, acompanhavam. Agora são só 17 leitores pois, o “e meio”, o anão, bateu as botas. Foi desta para melhor, vestiu o paletó de madeira, foi-se, bateu a caçoleta. Sim, é verdade. Perdi o meu maior e menor amigo: Nelson Ned.

Conhecia o querido Nelson desde pequeno, ou seja, a vida toda. Acompanhei a sua fulgurante carreira, com duplo sentido, fazendo o favor. Nelson Ned era o gigante da canção romântica, uma amostra grátis de Frank Sinatra, só que muito melhor. Nelson teve uma pneumonia porque sempre fez questão de dar uma força para o papai Noel nesta época do ano. A diferença de temperatura entre a frígida Lapônia e o senegalesco Rio de Janeiro foram demais para o salva-vidas de aquário. Agora Nelson canta suas canções e boleros enquanto dá uma mão de tinta nos rodapés do Paraíso.

Nelson Ned começou de baixo e assim foi ao longo de toda a sua trajetória. Visionário, Nelson resolveu virar anão muito antes da política de cotas. Conheci Nelson quando trabalhava de segurança de baile infantil, uma vez pediu se poderia dar uma canja, mas tudo o que conseguiu foi um Danoninho (que vale por um bifinho…). Todos viram que estavam diante de um fenômeno, principalmente, quando ele arriou as calças. Nelson sempre foi um sucesso entre as mulheres e os veadinhos do papai Noel. Modesto, Nelson explicava que tratava-se apenas de uma questão genética. Dizia que tinha um “pé na África”. Pé de mesa, é claro. Nelson Ned tentou fazer carreira nos Estados Unidos e logo que chegou trabalhou num filme do Walt Disney, no papel de Dunga, pois não sabia falar inglês e não entendia nada de futebol. Depois tornou-se um ídolo do público hispânico dos EUA. Era o preferido das FARC e de Fidel Castro.

Como melhor amigo do Ned fui incumbido da amarga tarefa de organizar os seus funerais. O primeiro problema foi achar um caixão para o defunto. O Nelson, assim como Roberto Carlos, tinha muitas manias. Detestava a cor branca. Tive então que improvisar. Preenchi o espaço vazio do ataúde com várias cabeças de bacalhau. Não me perguntem como consegui esta parte remota da anatomia do gadus morhua, mas, durante o velório muita gente reclamou que o falecido já estava fedendo e fui obrigado a adiantar a hora do enterro. Pelo menos, enquanto descansa em paz, o meu amigo Nelson Ned vai sentir o cheiro daquilo que mais gostava quando em vida. Nelson Ned deixa um pequeno vazio na canção popular do povão.

Em tempo, estou procurando um anão que saiba ler.

Agamenon Mendes Pedreira é meio jornalista.

banner_arte_02

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *