GREVE GENERAL

O movimento grevista atormentou os brasileiros de norte a sul e de cabo a rabo. Principalmente, o rabo. Uma imensa fila de machos gulosos se formou na porta de minha residência, o Dodge Dart 73, enferrujado, atualmente estacionado na Rua da Amargura, s/n. Todos com a mangueira na mão.

Esse bando de caminhoneiros revoltados resolveu fazer um piquete impedindo o acesso à Isaura, a minha patroa. Justamente a Isaura, minha patroa, que, com seu trabalho estafante, não deixa faltar nada em casa nestes tempos difíceis em que ando desempregado.

Mas a freguesia insaciável não queria nem saber. Resolveu que ia entrar de qualquer maneira na criatura enquanto os grevistas impediam o direito constitucional do cidadão de ir e vir, em movimentos frenéticos, ritmados e constantes.

O pau comeu, quer dizer, não comeu coisa nenhuma. Um tumulto se formou na porta dos fundos: caminhoneiros, na falta de pneus, queimavam a própria rosca tentando barrar a entrada dos consumidores. Enquanto isso, na porta da frente, manifestantes enfiavam a borracha, quer dizer, pelo menos tentavam. A situação ficou preta mesmo quando militantes dos MTST, Movimento dos Travestis Sem Teta, resolveram bloquear o acesso aos seios flácidos da dadivosa criatura. Justamente os seios! Como todo mundo sabe, até peito tem ideologia: tem peito de direita e tem peito de esquerda. Não teve jeito: tal e qual um militante boçalnarista, tive que pedir a intervenção das Forças Armadas, já!

Em poucos minutos, chegou um contingente do 8 RecMec – Regimento Mecanizado de Canhões Autopropulsados. Só mesmo o Exército para dar um jeito nessa confusão em que se transformou o Brasil! Neste ponto, estou com os seguidores do Capitão Jair Messias Bolsonazi! Só mesmo os militares viris, másculos e varonis, com as suas bazucas, morteiros, obuses, foguetes rombudos e outros armamentos de duplo sentido, são capazes de reestabelecer a paz e a ordem social. Só de ouvir o rufar dos tambores e a cadência firme dos coturnos, fico todo arrepiado e tomado por uma comichão num lugar remoto de minha anatomia. Um frêmito voluptuoso percorre meu corpo antevendo a volta da ditadura.

Na verdade, o boçalnarismo é uma espécie de ditadura enrustida, que não ousa dizer seu nome. Jair Boçalnato, mesmo sendo um homofóbico, careta e retrógrado (não necessariamente nesta ordem), acaba despertando em seus fiéis seguidores a bicha clandestina que existe dentro de cada homem brasileiro que prega (com duplo sentindo, por favor) a volta dos militares ao phoder!

 

O problema é que o brasileiro não aguenta mais tanta corrupção! Principalmente quando ele não é convidado para participar da negociata.

 

Agamenon Mendes Pedreira é jornalista que não ousa dizer seu nome.

 

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