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CARTA CAPITAL

Em mais um furo de reportagem, eu, Agamenon Mendes Pedreira, o único jornalista investigativo heterossexual e impotente da América Latina, tive acesso exclusivo (e inclusivo) à verdadeira carta que a quase ex-presidenta em exercício, Zica Roskoff, enviou ao Senado Federal. Disfarçado de lagosta ao Thermidor, consegui circular tranquilamente pelo Palácio da Alvorada sem ser incomodado pelos ocupantes que preferem bife à parmegiana, picanha na brasa ou macarronada, culinária mais ao gosto de um governo popular.

Como todos sabem, a presidanta se recusou a comparecer à Comissão de Impeachment. A princípio pensou em arrumar um atestado médico falsificado do SUS, mas desistiu depois de ficar mais de quatro horas na fila e ser avisada que o posto estava fechado por falta de papel higiênico.

Depois de botar a culpa no Temer, embicou na direção de uma papelaria, onde comprou um papel de carta bem bonito da Hello Kitty, no qual escreveu a seguinte missiva para os senadores, que depois foi copidescada por seu adevogado José Eduardo Pomposo e por seu marqueteiro preso João Sacanna.

“Prezados Senadores e Senadoras, e por que não também saudar os parlamentares transgêneros e também aqueles que ainda não se identificam com nenhuma forma de sexualidade, uma vez que a nossa espécie não se resume ao Homo e a Mulher Sapiens sem esquecer, é claro, da Criança Sapiens que, por sinal, representa o futuro, muito embora o passado tenha muito a nos ensinar no que se refere ao tempo que passou e aos nossos ancestrais, como os macacos, os orangotangos e os gorilas dos tempos da Ditadura Militar. Portanto, em resumo, para não ferir nenhuma das minorias que compõem a diversidade da raça brasiliana, saúdo a Mandioca.

Não irei ao Senado única e exclusivamente por dois motivos: falta de grana. Assim sendo, não poderei requisitar uma aeronave a jato da FAB com o propósito no que se refere ao meu comparecimento a esta comissão de 20 por cento, que, desde já, esclareço, não recebi, uma vez que sou uma mulher proba e honesta. E mesmo porque, se recebi, aproveito para garantir que sobre este ou qualquer outro assunto nada sabia nem saberei, uma vez que me ocupava da Presidência da República inaugurando unidades do Minha Casa Minha Vida e frequentando as aulas do Pronatec. Como milhões de brasileiros, acho que vou ficar desempregada em breve e, assim sendo, tenho que economizar muito. Tenho economizado até o vento, muito embora, como já disse, a tecnologia humana não descobriu uma forma de armazenar o vento que não seja o intestino grosso.

Uma vez que o Senado Federal não possui um local adequado para o estacionamento de bicicletas oficiais, não vou comparecer a esta comissão de 30 por cento, comissão esta, desde já esclareço, mais uma vez, não recebi. No que se refere ao meu transporte, poderia ser questionada por que não vou  a cavalo ou mesmo no lombo de um burro, mesmo porque,  mais uma vez esclareço, o ex-presidente Lula se encontra em São Bernardo.”

agamenon_0707

Eduardo Cunha sai da Câmara para entrar na cadeia, mas presos protestam.

Agamenon Mendes Pedreira e jornalista investigativo e investigado.

 

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SENHORA “PRESIDANTA”

“Ergo sunt, bagus plenus”

Não sei Latim e a senhora não sabe Português, por isso me sinto à vontade de enviar-lhe esta carta, porque ambos compartilhamos a mesma ignorância. Esta é uma carta de Cunha pessoal. É um desabufa que já deveria ter soltado há muito tempo, um flato consumado. E mal cheiroso.

Ao contrário da imprensa golpista, sempre critiquei o seu governo. O seu governo, o seu look de vilã da Disney, os seus discursos incompreensíveis, o seu penteado, suas roupas vermelhas, e o que recebi em troco, presidanta? Nem um troco, nem um “cala-boca”, nem uma sinecura, nem uma assessoria de imprensa ou emprego em blog chapa-branca!

Se a senhora é tão amiga dos pobres como alardeia, por que não faz alguma coisa por mim, que, desde que fui demitido da grande imprensa golpista, sou obrigado a me humilhar e exercer a mais vil das profissões: a de blogueiro. Se não fosse pela ajuda caridosa dos meus 17 seguidores e meio (não esqueçam do anão internauta), estaria na Rua da Amargura. Estaria não, estou! Nos fundos desse logradouro sombrio, estacionei a minha residência móvel, o meu Dodge Dart 73, enferrujado, e vivo da coleta de frutos e impostos silvestres. Ao lado da Isaura, minha patroa, que, com a crise, foi obrigada a costurar pra fora. E pra dentro também.

Vamos aos fartos. Exemplifico alguns deles.

  1. Passei os quatro primeiros anos do seu mandato como jornalista decorativo. O próprio Lula, ao me ver em seu gabinete, pendurou em mim o seu blazer.
  2. Na condição de jornalista-humorista, nunca fui consultado para escrever seus discursos sem pé nem cabeça e, talvez por causa disso, eles tenham sido motivo de tantas galhofas e pilhérias no Brasil inteiro.
  3. A senhora expulsou do Ministério da Pesca a garota de programa Kendrya, indicada por mim e que vinha exercendo o cargo de piranha-social, um trabalho belíssimo, muito elogiado pelos gringos durante a Copa do Mundo.
  4. Quando a senhora me fez um apelo para que a ex-presidenta da Petrobras Desgraça Foster nunca mais fosse à empresa, eu não titubeei e furei os pneus da vassoura com a qual ela ia ao trabalho diariamente.
  5. Recordo-me também que, quando recebeu a visita do Errei Roberto Carlos – com quem mantenho laços estreitos de ódio e amizade –, não me convidou, e olha que eu queria que ele autografasse a minha cópia pirata da biografia do Paulo César de Araújo que o maior censor romântico do Brasil proibiu.

            Portanto, não me resta outra saída a não ser declarar alto e bom som que, a partir de agora, estou fora. A presidanta não contará mais com as minhas críticas, piadas, trocadilhos e duplos sentidos. Enchi o saco. Lamento, mas é essa a minha convicção. Desrespeitosamente.

Agamenon Mendes Pedreira

 

11-12 agamenon

Analfabeto funcionário, Agamenon Mendes Pedreira teve que pedir ajuda aos universitários para escrever a sua carta pessoal e confidencial à presidanta Dilma Youssef. Ele também pediu para botar umas figuras bem bonitas para ver se a Dilma entende a mensagem.

 

 

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