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TREPAS NA RUA

A situação no Rio de Janeiro vai de Mal a Pior, mas, no meio do caminho, deu uma parada na Catástrofe para encher o tanque, tomar um café e fazer xixi. Por isso mesmo, o governador Luiz Furtando Pezão Frio passou o Carnaval Piraí. Já o prefeito Evangello Crivella não estava nem aí: com medo da violência, se mandou pra Suécia. Também, quem é maluco de ficar no Rio de Janeiro numa hora dessas? Até o malucos do Pinel preferem ficar trancados no manicômio à base de tranquilizantes. O único consolo do carioca é saber que a situação hoje está melhor do que amanhã.

Os arrastões de rua, os blocos de assaltantes mascarados e os milicianos da LIESA (Liga das Escolas de Saque) tomaram conta da cidade no Carnaval trazendo de volta o caos, a desordem e o medo generalizado, coisa que existe por aqui há mais ou menos uns 500 anos. Num gesto de esperteza política, o presidente Michê Temer se aproveitou do vácuo no poder para decretar a intervenção militar no Rio de Janeiro a cargo do general Walter Prega Netto. Mas não adiantou nada: os bandidos assaltaram também o general, que voltou correndo pra Brasília.

Imediatamente, os militares anunciaram as medidas intervencionistas para acabar com a falta de segurança na cidade: o Cristo Redentor vai ter que bater continência e cantar o hino nacional todo dia assim que amanhecer, os militares vão pintar de branco até a metade todos os troncos das árvores da cidade, a Marinha, com seus navios, vai subir os morros para perseguir os marginais, e a Esquadrilha da Fumaça vai assumir pessoalmente a venda de maconha na Cidade Calamitosa.

Os otimistas, sempre ingênuos, acham que essas medidas não vão adiantar nada. Já os pessimistas se mudaram para Lisboa há muito tempo. Mas também não adiantou nada, a bandidagem, assustada com a criminalidade, também se mandou pra Portugal, onde já está tocando o terror. E eu que pensava que, com a prisão do Sérgio Cabral Filho (não me pergunte de quem) e do Picciani, o problema da criminalidade no Rio de Janeiro iria melhorar. Mas não deu certo: os dois já fundaram mais uma facção na cadeia, o PCC – Primeiro Comando do Caviar.

Mas o crime organizado é a única coisa organizada na cidade que funciona. Agora, os milicianos, os traficantes, as facções e a bunda podre da polícia se uniram numa estratégia para extorquir, assaltar, sequestrar e barbarizar ainda mais o pobre cidadão carioca. Ainda bem que sou um desempregado crônico e, caso bata de frente com um assaltante na rua, talvez o criminoso, compadecido com a minha penúria, me dê até um troco pra inteirar a passagem. Desta pra melhor.

Uma blitz da PM carioca quase apreendeu os blindados do Exército que estavam com o IPVA atrasado. Com medo dos tanques serem depenados no depósito de DETRAN, o comandante da tropa pagou uma “cervejinha” pros canas.

Uma blitz da PM carioca quase apreendeu os blindados do Exército que estavam com o IPVA atrasado. Com medo dos tanques serem depenados no depósito de DETRAN, o comandante da tropa pagou uma “cervejinha” pros canas.

Agamenon Mendes Pedreira quer ir pra cadeia pra não ser assaltado.

 

 

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OBRA DE FACÇÃO

Eis que surge uma luz no fim do túnel! Uma réstia de luz no buraco escuro da desesperança em que estou vivendo! Chega de viver neste miserê sem fim! A solução para os desempregados no Brasil é todo mundo ir para a cadeia! Só assim o cidadão garante 5 mil e oitocentos por mês, sem contar a bolsa presidiário, visita íntima, banho de sol e outros side benefits da atividade prisional. Sempre fui um sujeito empreendedor, adepto da livre iniciativa capitalista e da destruição criadora schumpeteriana, e por isso mesmo já resolvi: vou ser preso e fundar a minha própria facção.

Nada de abrir franquia do Habib’s, inaugurar igreja evangélica, fundar partido político e outras contravenções de “miserinha”. Tem que pensar grande! O negócio mais lucrativo no momento é fundar uma facção na cadeia. E desde já conto com os meus 17 leitores e meio como fiéis seguidores em regime fechado (não se esqueçam do anão, que vai cuidar da filial da FEBEM). Está formado o bonde da CAGADA, Comando dos Amigos Gatunos do Agamenon.

Isaura, a minha patroa, vai ficar encarregada da logística. A incansável criatura é especialista em entrar em presídios de segurança máxima portando objetos dos mais diferentes tamanhos, comprimentos e calibres, devidamente malocados em partes remotas de sua anatomia íntima.

Preocupado com a violência nos presídios, o governo já avisou que vai regulamentar a atividade de facção criminosa no país. Já tem facção demais funcionando e nem todas são capazes de atuar de maneira adequada no ambiente prisional. Já está começando a virar bagunça.

Tem muita facção aí que não sabe nem diferenciar o que é um esquartejamento de um empalamento ou uma degola de uma decapitação. O “presidialismo de coalização” não suporta mais tantas facções de aluguel, que não representam a criminalidade de nossa sociedade. É preciso urgentemente criar uma cláusula de barreira! A partir de agora, as facções vão ter que ter alvará de funcionamento e autorização do Corpo de Bombeiros para botar fogo nos colchões. Os membros das facções vão ter que usar crachá de identificação e pagar o Sindicato do Crime, o SindiCrime, filiado à CUT. Uma vez regularizadas, as facções vão poder ter acesso às verbas públicas, com direito de captar recursos pela Lei Rouanet. A Tramontina das facas e a Taurus dos revólveres já se mostraram interessadas em apoiar projetos nos presídios brasileiros desde que possam descontar do imposto de renda.

As facções legalizadas vão poder se apresentar no Esquenta da Regina Casé e no Caldeirão do Huck como legítimas manifestações culturais brasileiras. O antropólogo do funk, Hermano Vianna, vai escrever um livro e o fotógrafo Sebastião Salgado vai fazer uma exposição na Tate Modern de Londres.

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O Brasil é o país das oportunidades. É só pintar uma oportunidade que o preso foge da cadeia.

Agamenon Mendes Pedreira é membro esquartejado de uma facção penitenciária.

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Só dói quando eu Rio!

Eu achava que o problema da violência urbana crônica do Rio de Janeiro tinha sido resolvido quando o governador Sérgio Cobal Jr. criou as UPPs, Unidades Pacificadoras de Pobre. Mas não! Agora o pessoal da BAND, Bandidagem, que não pode mais exercer o seu comércio ilegal nas favelas, está redirecionando as suas atividades ilícitas para outras esferas da criminalidade, como a caxanga, o assalto e o esfaqueamento generalizado.
Mas a responsabilidade não é apenas do atual governador, que começou o seu mandato com o Pezão frio. O prefeito Eduardo RaPaes também tem culpa no cartório, afinal de contas foi ele que criou essas ciclovias todas só para incentivar o assassinato de bikers na Cidade Calamitosa. E o que é pior: esses crimes hediondos estão sendo praticados à luz do dia em cartões bostais da cidade, como a Lagoa Jazíguo de Freitas, a Avenida Niemorre e o Assalto da Boa Vista.
Eu mesmo, Agamenon Mendes Pedreira, idoso, combalido e desempregado, fui vítima de um pivete assassino que me ameaçou com uma faca afiada. E olha que eu estava na rua tentando honestamente defender algum qualquer aplicando o golpe do paco em velhinhas inocentes. Ao ver minha carteira vazia, onde o dinheiro não aparece há muito tempo, o facínora mirim se apiedou da minha penúria, me deu uma nota de 10 reais e ainda fez questão que eu o esfaqueasse.
Como diria o deputado Jair Boçalnauro, a culpa de tudo é da maioridade penal. Os bandidos, sempre à frente do seu tempo, estão preocupados com a aprovação da lei que diminui a idade dos criminosos infantis e, assim como o Barcelona e o Real Madrid, já começaram a recrutar seus novos delinquentes nas maternidades da cidade. Já existem casos de bebês assassinos que estão utilizando perigosos alfinetes de fralda para roubar a chupeta dos seus coleguinhas de berçário. A que estado do Rio nós chegamos…

21-05

Para os turistas que chegaram há pouco de fora se acostumarem com o clima de violência no Rio de Janeiro, os hotéis da cidade já estão colocando cadáveres nas piscinas.

Agamenon Mendes Pedreira é a favor da “melhor idade” penal.

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ROLEXINHO NO SHOPPING

O bom de quando tudo está ruim é que sempre existe a esperança de que tudo ainda pode piorar. Desde que fui demitido sumariamente de O Globo vivo da caridade alheia que, no caso, é a caridade da Isaura, a minha patroa. Isaura, criatura empreendedora, por qualquer trocado franqueia o acesso a partes remotas de sua anatomia para batizados, aniversários, bodas e surubas de firma. Mesmo assim não tem sido fácil mastigar o pão nosso de cada dia que o diabo amassou.

Felizmente apareceram os rolézinhos de shopping, esta nova modalidade de recreação urbana, muita mais agradável que os arrastões da praia. Nos shopping centers tem ar condicionado e não tem areia grudando no corpo. Os rolézinhos são ótimos para conhecer pessoas e aprender novas coreografias de “passinho”. Esta semana fiz um rolézinho com os meus amigos Regina Casé, Caetano Velloso e o Waltinho Moreira Salles pelo Shopping Leblon.

Para tirar uma onda com a rapaziada e correr dos seguranças, coloquei o meu tênis Mizuno de oito molas que ganhei de um diretor de novelas em troca de favores sexuais. Para ficar nos conformes não se pode ir vestido de mané. Tem que usar roupa de grife: boné do MST, camiseta da CUT e bermuda Vilebrequin. Para completar o visual, óculos escuros Ray-ban das Óticas do Povo (morô?), um brinco de diamante do Neymar e um colar de ouro maciço que um amigo meu, bicheiro, emprestou.

Assim que chegamos na praça de alimentação começou a zoação, Waltinho e Caetano Velloso (mascarado do Black Block) organizaram um bonde na escada rolante. Enquanto isso a Regina Casé, sozinha, lotava um elevador para 15 pessoas. Peruas em pânico se trancaram na H Stern, único lugar em que poderiam sobreviver algumas semanas à base de solitários e cartão de crédito. Os seguranças, atarantados, não sabiam em quem bater primeiro, tinha muita gente e era difícil escolher. Aquela arrasadora liquidação de verão estava ficando animada quando sugeri: Aí rapaziada vamos dar um rolézinho na Agência do Unibanco! Mas o Waltinho Moreira Salles peidou.

 – Pô Agamenon, peraí, no meu banco, não. É sacanagem! Vão cortar a minha mesada…

Contrariado com a negativa do Walter, resolvi ir até a Praça de Alimentação para descolar um combo do Mac Donalds, mas aí a chapa esquentou. Alguém avisou que a PM estava chegando cheia de disposição sabendo que o shopping estava fazendo promoção: prenda um e bata em cinco em até dez vezes no cartão!

 Mas eu não me abalei, saí de esguelha, no sapatinho, e me escondi na Livraria da Travessa. PM carioca não entra em livraria, de jeito nenhum.

 

Agamenon Mendes Pedreira é desempregado da periferia, mas periferia estar trabalhando.

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