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ROLEXINHO NO SHOPPING

O bom de quando tudo está ruim é que sempre existe a esperança de que tudo ainda pode piorar. Desde que fui demitido sumariamente de O Globo vivo da caridade alheia que, no caso, é a caridade da Isaura, a minha patroa. Isaura, criatura empreendedora, por qualquer trocado franqueia o acesso a partes remotas de sua anatomia para batizados, aniversários, bodas e surubas de firma. Mesmo assim não tem sido fácil mastigar o pão nosso de cada dia que o diabo amassou.

Felizmente apareceram os rolézinhos de shopping, esta nova modalidade de recreação urbana, muita mais agradável que os arrastões da praia. Nos shopping centers tem ar condicionado e não tem areia grudando no corpo. Os rolézinhos são ótimos para conhecer pessoas e aprender novas coreografias de “passinho”. Esta semana fiz um rolézinho com os meus amigos Regina Casé, Caetano Velloso e o Waltinho Moreira Salles pelo Shopping Leblon.

Para tirar uma onda com a rapaziada e correr dos seguranças, coloquei o meu tênis Mizuno de oito molas que ganhei de um diretor de novelas em troca de favores sexuais. Para ficar nos conformes não se pode ir vestido de mané. Tem que usar roupa de grife: boné do MST, camiseta da CUT e bermuda Vilebrequin. Para completar o visual, óculos escuros Ray-ban das Óticas do Povo (morô?), um brinco de diamante do Neymar e um colar de ouro maciço que um amigo meu, bicheiro, emprestou.

Assim que chegamos na praça de alimentação começou a zoação, Waltinho e Caetano Velloso (mascarado do Black Block) organizaram um bonde na escada rolante. Enquanto isso a Regina Casé, sozinha, lotava um elevador para 15 pessoas. Peruas em pânico se trancaram na H Stern, único lugar em que poderiam sobreviver algumas semanas à base de solitários e cartão de crédito. Os seguranças, atarantados, não sabiam em quem bater primeiro, tinha muita gente e era difícil escolher. Aquela arrasadora liquidação de verão estava ficando animada quando sugeri: Aí rapaziada vamos dar um rolézinho na Agência do Unibanco! Mas o Waltinho Moreira Salles peidou.

 – Pô Agamenon, peraí, no meu banco, não. É sacanagem! Vão cortar a minha mesada…

Contrariado com a negativa do Walter, resolvi ir até a Praça de Alimentação para descolar um combo do Mac Donalds, mas aí a chapa esquentou. Alguém avisou que a PM estava chegando cheia de disposição sabendo que o shopping estava fazendo promoção: prenda um e bata em cinco em até dez vezes no cartão!

 Mas eu não me abalei, saí de esguelha, no sapatinho, e me escondi na Livraria da Travessa. PM carioca não entra em livraria, de jeito nenhum.

 

Agamenon Mendes Pedreira é desempregado da periferia, mas periferia estar trabalhando.

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