O DIÁRIO DO VOVÔ JANUÁRIO

4ª Feira – 6 de abril de 2016
Ontem eu fiz 90 anos e teve uma festa aqui em casa. Acho que era pra mim. Não consigo pensar em outro motivo. Ninguém conversou comigo, mas me obrigaram a soprar 90 velinhas em um bolo. Achei aquilo completamente ridículo. Aproveitei para soprar as velas e mandar junto um monte de cuspe. Um garoto puxou conversa comigo, mas eu não tenho mais paciência para falar com seres humanos. Prefiro os papagaios. Pelo menos eles repetem o que eu falo. Esse tal garoto me perguntou por que eu não escrevia sobre minha vida. Nem respondi. Um livro de memórias é inconcebível para mim. Seria obrigado a falar sobre essa cambada de energúmenos que eu consegui juntar à minha volta. Ia acabar mudando tudo e casando com a Grace Kelly, depois de ganhar ela num jogo de pôker do Príncipe Rainer, com um Royal Street Flush em cima de um four de ases. Ninguém ia acreditar. Iam perguntar como príncipe tinha conseguido o 5º ás. Resolvi fazer um diário.

5ª Feira – 7 de abril de 2016
Sempre achei milha filha uma imbecil. O marido dela não. Ele está mais para idiota. Mas pelo menos o idiota teve o bom senso de se separar da minha filha. E ela, imbecil, voltou para a casa dos pais, ou seja, para a minha casa! E veio acrescida de uma imbecilzinha que ela insiste em chamar de filha, que ainda trouxe mais dois seres junto com ela. Dizem que são meus bisnetos. Um deles passa o dia com uma prancha de surfe da qual deve ser amante. Ele fala coisas ininteligíveis em uma língua ininteligível, acho que conversa com a prancha. O outro imbecil todos chamam de Mundinho. Que família é essa minha que chama Raimundo de Mundinho (arghhh!)? Eu me recuso a trocar palavras com esse rapaz. Aos 90 anos me dou ao direito de não falar com ninguém que atenda por Mundinho. Não acredito que algum Raimundo cujo apelido é Mundinho (blergh!) possa acrescentar algo à historia da civilização ocidental.

6ª feira – 8 de abril de 2016
Estou tentando pesquisar o dialeto do menino surfista. Hoje de manhã ele passou por mim e falou alguma coisa que não entendi. Pedi para o rapaz repetir e a coisa piorou, porque da segunda vez eu só entendi a palavra “brother”, que não me pareceu fazer muito sentido, já que não tenho idade para ser seu irmão e o outro imbecil, o Mundinho (arghh! e blergh!), não se encontrava na sala.

Sábado – 9 de abril de 2016
Resolvi mostrar meu diário para a Tonica, a empregada. Ela leu e disse que não compreendeu nada. O proletariado não entende o meu diário, o que é muito positivo. Estou indo bem. Depois ela voltou ao meu quarto e me perguntou o que eu tinha contra o Mundinho. Perguntei que mundinho, esse que nos cerca ou o idiota do meu bisneto? Ela disse que eu não devia tratar o meu bisneto desse jeito. Que decepção! Resolvi parar de falar com a Tonica também. Um papagaio é minha última esperança.

Domingo – 10 de abril de 2016
Minha filha não quer comprar um papagaio para mim. Não converso com ninguém nessa casa e nem quero conversar. Não consigo penetrar nos segredos da linguagem de meu bisneto surfista. Não quero mais ouvir os pedidos de minha filha para tratar melhor o tal do Mundin… (Arghh!).
Por esses motivos, decidi largar de vez o aparelho de surdez. O mundo é muito melhor sem som. E não vou mais escrever diário nenhum. De que adianta? Os papagaios não sabem ler!

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