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Uma constante construção

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Amigo chama o outro pra conversar. Depois de falar de futebol, família, tempo e esses papos iniciais, ele começa a falar dele:

– Sabe como é, eu sou um sujeito que esta em constante construção, entende? Eu sou uma pessoa em obras, saca?
– Bacana isso. Eu também me sinto um pouco assim. Também acho que na vida a gente tá sempre aprendendo.
– Não, você não entendeu. É que eu sou brasileiro e sabe como é obra no Brasil… o orçamento estourou. Tu tem aí uma verba de suplementação?

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Um desabafo natalino

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Às vezes, nessa época do ano os ânimos se exacerbam e as pessoas começam a dar opiniões radicais. Pior, acham que as suas opiniões representam a da maioria das pessoas. A gente vai fingindo que não escuta, vai fugindo do assunto para não precisar discutir, mas tem uma hora que não dá mais para aguentar e a gente tem que se posicionar.

Essa hora chegou pra mim.

Então eu quero deixar bem claro uma coisa: Eu gosto de arroz com passas! Eu amo arroz com passas! E tem muita gente além de mim que gosta! Aposto que é a maioria.

Portanto se você é desses caras que não gostam de arroz com passas não tente fazer todo mundo acreditar que você represente a maioria, cate as suas passas, coloque-as no canto do prato e permaneça calado!

É isso aí! Falei! Me sinto aliviado.

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Pavê

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Cinco humoristas almoçam. Todos se divertem contando piadas uns aos outros. Então chega a hora da sobremesa e um dos humoristas, o anfitrião, vai até a cozinha, de onde traz um prato com um doce. Ele coloca a sobremesa no centro da mesa.

– O que é isso? – pergunta um dos humoristas.
– Um pavê.
– Ahhh. É pavê!

Os humoristas olham uns para os outros. O clima fica pesado, ninguém mais abre a boca. Não sabem o que fazer, silêncio total. Um dos humoristas de repente toma uma atitude.

– Preciso ir ao banheiro.

Ele sai e se tranca no banheiro.

– Eu tenho que fazer uma ligação – sacando o seu celular do bolso, outro humorista sai da sala e tranca-se num quarto.

Sobram 3 humoristas. Ninguém se serve, o ambiente é tenso. Um deles rompe o silêncio:

– É pavê ou… – Ele abre a boca, parece que vai falar mais alguma coisa, mas antes de o fazer, segue até a porta da rua, e vai embora correndo.

Estão em frente a sobremesa agora apenas o anfitrião e um humorista.

– Você não vai se servir? – Pergunta o anfitrião.

O outro humorista começa a suar… não sabe mais o que fazer, até que … sem aguentar mais grita:

– É pavê… – ele estanca a frase no meio, começa a suar frio. Logo toma coragem e continua – ou pra… – O humorista começa a tremer e então cai desmaiado no chão.

O anfitrião serve-se de um pedaço do doce, come com prazer e fala:

– É pra comer.

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A FILA ANDA

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Cheguei no banco e me desesperei, a fila do caixa era enorme. Mas eu tinha que pagar umas contas, então resolvi encarar. Assim que assumi o meu lugar no fim da fila, ela andou um pouco, mas o sujeito que estava na minha frente lendo um jornal e não se mexeu.
– Meu amigo, a fila andou. – Eu o avisei.
– Eu vi. – o cara falou.
– E por que o senhor não andou?
– Pra quê?
– Ué, porque é assim que funciona. Quando a fila anda, a gente anda com ela.
– Eu não acho. Eu prefiro ficar parado e andar só quando valer a pena.
– E quando vai valer a pena?
– Quando tiver pelo menos uns 3 metros para andar.
– E se alguém aproveitar o espaço vazio e entrar na fila?
– Não vai acontecer, eu tô de olho.
A fila andou mais um pouco, mas o sujeito permaneceu parado.
– O senhor não vai andar mesmo?
– Ainda não.
– Não é assim que funciona, meu amigo, a gente tem que andar, nem que seja um centímetro! É psicológico, entende?
– Psicológico?
– É… assim a gente tem a sensação que tá andando. Mesmo devagar, pelo menos tá indo pra frente.
– Eu não tenho problemas psicológicos.
– Nem eu! Mas é que se a fila tá parada, a gente acha que nunca vai ser atendido!
– Mas a fila não tá parada!
– Ela tá parada sim. A partir do senhor ela não anda.
– Mas quando eu andar, vou andar muito e a sensação vai ser boa!
– Mas agora a sensação é ruim!
– Ruim pro senhor, não para mim.
Vi que não adiantava argumentar e achei melhor mudar de fila. Fui para a fila ao lado que, por não ter ninguém emperrando, estava bem na frente.
Foi de lá que eu vi o babaca ser atendido muito antes de mim!

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NOVOS SUPERPODERES PARA OS SUPER-HERÓIS.

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O que tem de super-herói por aí não é brincadeira. Nunca tantos assolaram tanto os nossos cinemas. Agora eles lutam até entre eles. Mas os jovens de hoje, acostumados a seus heróis em 3D não tem ideia de como eram os desenhos e filmes de super-heróis há 40 anos. O Capitão América mal se mexia, o Batman usava uma roupa ridícula (acho que isso não mudou tanto), as teias do Homem-Aranha eram cordinhas presas ao seu punho. Se hoje todos os filmes de super-heróis tem efeitos especiais incríveis, naquele tempo os desenhos não eram nem em 1,5D! E mesmo assim a gente acreditava nos super-heróis e em seus superpoderes.

Mas se houve tanta evolução no mundo dos super-heróis, tanta novidade surgiu nos seus filmes, por que os super-poderes continuam os mesmos? Super força, super teia de aranha, capacidade de voar… Os mesmos superpoderes de 40 anos atrás, só que em 3D! O Capitão América tem um escudo, o Homem-Aranha joga teias e o Superman é forte pra cacete!

Então vão aí algumas ideias de superpoderes mais moderninhos, mais adaptados ao mundo de hoje:

Super-Photoshop – O herói tem a habilidade de fazer Photoshops em tempo recorde e suas modificações se tornam reais. Num segundo ele usa o seu Super-Photoshop e faz o vilão perder um braço ou cria seios gigantes que atrapalham os movimentos da vilã.
Raio de WhatsApp – Um raio que envia milhares de mensagens de WhatsApp ao mesmo tempo obrigando os vilões a parar de fazer as suas maldades e responder as mensagens.
Poder das Selfies infinitas – Com o seu Ultra-Smartphone, o super-herói tira selfies o tempo todo e é capaz de, olhando as suas infinitas selfies, perceber a aproximação de qualquer inimigo que o ataque por trás.
Super-Textão – O super-herói produz sem parar textões no Facebook, paralisando o adversário que fica tonto querendo responder a todos eles, sem saber qual dos textões vai contrapor primeiro.

E aí Marvel? Gostou? Pode usar esses poderes incríveis num novo super-herói, que eu deixo. É só me dar 1% da bilheteria!

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O DIÁRIO DO VOVÔ JANUÁRIO

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4ª Feira – 6 de abril de 2016
Ontem eu fiz 90 anos e teve uma festa aqui em casa. Acho que era pra mim. Não consigo pensar em outro motivo. Ninguém conversou comigo, mas me obrigaram a soprar 90 velinhas em um bolo. Achei aquilo completamente ridículo. Aproveitei para soprar as velas e mandar junto um monte de cuspe. Um garoto puxou conversa comigo, mas eu não tenho mais paciência para falar com seres humanos. Prefiro os papagaios. Pelo menos eles repetem o que eu falo. Esse tal garoto me perguntou por que eu não escrevia sobre minha vida. Nem respondi. Um livro de memórias é inconcebível para mim. Seria obrigado a falar sobre essa cambada de energúmenos que eu consegui juntar à minha volta. Ia acabar mudando tudo e casando com a Grace Kelly, depois de ganhar ela num jogo de pôker do Príncipe Rainer, com um Royal Street Flush em cima de um four de ases. Ninguém ia acreditar. Iam perguntar como príncipe tinha conseguido o 5º ás. Resolvi fazer um diário.

5ª Feira – 7 de abril de 2016
Sempre achei milha filha uma imbecil. O marido dela não. Ele está mais para idiota. Mas pelo menos o idiota teve o bom senso de se separar da minha filha. E ela, imbecil, voltou para a casa dos pais, ou seja, para a minha casa! E veio acrescida de uma imbecilzinha que ela insiste em chamar de filha, que ainda trouxe mais dois seres junto com ela. Dizem que são meus bisnetos. Um deles passa o dia com uma prancha de surfe da qual deve ser amante. Ele fala coisas ininteligíveis em uma língua ininteligível, acho que conversa com a prancha. O outro imbecil todos chamam de Mundinho. Que família é essa minha que chama Raimundo de Mundinho (arghhh!)? Eu me recuso a trocar palavras com esse rapaz. Aos 90 anos me dou ao direito de não falar com ninguém que atenda por Mundinho. Não acredito que algum Raimundo cujo apelido é Mundinho (blergh!) possa acrescentar algo à historia da civilização ocidental.

6ª feira – 8 de abril de 2016
Estou tentando pesquisar o dialeto do menino surfista. Hoje de manhã ele passou por mim e falou alguma coisa que não entendi. Pedi para o rapaz repetir e a coisa piorou, porque da segunda vez eu só entendi a palavra “brother”, que não me pareceu fazer muito sentido, já que não tenho idade para ser seu irmão e o outro imbecil, o Mundinho (arghh! e blergh!), não se encontrava na sala.

Sábado – 9 de abril de 2016
Resolvi mostrar meu diário para a Tonica, a empregada. Ela leu e disse que não compreendeu nada. O proletariado não entende o meu diário, o que é muito positivo. Estou indo bem. Depois ela voltou ao meu quarto e me perguntou o que eu tinha contra o Mundinho. Perguntei que mundinho, esse que nos cerca ou o idiota do meu bisneto? Ela disse que eu não devia tratar o meu bisneto desse jeito. Que decepção! Resolvi parar de falar com a Tonica também. Um papagaio é minha última esperança.

Domingo – 10 de abril de 2016
Minha filha não quer comprar um papagaio para mim. Não converso com ninguém nessa casa e nem quero conversar. Não consigo penetrar nos segredos da linguagem de meu bisneto surfista. Não quero mais ouvir os pedidos de minha filha para tratar melhor o tal do Mundin… (Arghh!).
Por esses motivos, decidi largar de vez o aparelho de surdez. O mundo é muito melhor sem som. E não vou mais escrever diário nenhum. De que adianta? Os papagaios não sabem ler!

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