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MALHAÇÃO PARA ESCRITORES

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O personal trainer resolveu abrir uma turma especializada, apenas para escritores. Logo recebeu alguns alunos, escritores que resolveram tirar a barriga da frente do computador e se matricular. O professor começou sua aula:
– Aqui não vai ter moleza não! Vamos começar com um exercício simples. Eu vou colocar um laptop aqui. Eu quero ver todo mundo correndo em círculo. O primeiro que chegar no laptop, senta e digita uma frase. Levanta e volta a correr e o seguinte senta e continua a história. É só uma frase cada um, depois levanta e corre de novo. Se eu ler o texto final e não gostar tem que fazer tudo de novo!
– Mas…
– Não tem “mas”. Vamos lá!
– Agora é agachamento. Vai agachando com um livro na mão até ler um conto inteiro. Não adianta enrolar, fingir que leu que depois tem que resumir fazendo abdominal.
– Vamos lá! Fazendo polichinelo até sair uma poesia convincente. Não vale rimar em “ão”! Não vale hai-kai!
– Bora cambada de preguiçosos! O exercício agora é diálogo e flexão de braço. Escreve uma linha de diálogo e faz uma flexão. Escreve outra linha, mais uma flexão. Vamos lá: quero cinco páginas de diálogos pra cada um!
– Mas…
– Bora cambada! Quero bons diálogos ! Não quero reclamação! E não quero ver erros de português também!
A turma é um sucesso. O livro com os textos produzidos nas aulas sai no mês que vem e a divulgação vai ser bastante intensa. Uma verdadeira maratona. Literalmente

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ao todo.
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AMIGOS DE INFÂNCIA

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Os dois moravam na mesma rua quando adolescentes, não eram exatamente amigos, mas se conheciam. Depois a vida os separou e não mais se viram. Até que um deles ficou famoso, de vez em quando era citado nos jornais e aparecia na televisão. O outro acompanhava de alguma maneira a carreira do conhecido. Então, muitos anos depois eles se reencontraram, malhavam por acaso na mesma academia. O “não famoso” viu o “famoso” levantando uns pesos, passou em sua frente e disse um tímido “oi”, que não foi correspondido. Alguns momentos depois tentou se aproximar de novo , mas não conseguiu cruzar os olhos em instante nenhum. O “não famoso” ficou chateado, chegou em casa e tuitou:
“Eu era o único que defendia o bunda-mole no bairro quando a gente era criança. Agora ficou famoso, e na academia finge que não me conhece”
No dia seguinte o “famoso” estava de novo na academia. Assim que viu o “não famoso”foi correndo em sua direção:
– Por que você tuitou aquilo?
– Aquilo o quê?
– Falando mal de mim.
– Peraí, como é que você sabe que era sobre você?
– Só pode ser sobre mim. Eu sou conhecido, você me conhece e a gente malha na mesma academia.
– Mas então você tinha me visto mesmo. E por que não falou comigo?
– Eu não te vi.
– E como você sabia que era essa a academia se você não tinha me visto aqui?
– Eu te vi agora.
– Mas não tinha me visto até a hora que leu a minha tuitada.
– Não enrola, tu falou mal de mim?
– Falei mesmo. Você fingiu que não me viu. Tem medo de quê? De que saibam que você era sacaneado por todo mundo no bairro?
– Não, eu não tenho medo de nada. Eu não me envergonho de nada que fiz!
– Então porque ficou nervosinho por causa da minha tuitada?
– Tá bom, tá bom. Eu falo com você. – e o famoso gritou pra todos na academia – Alô, galera, tão vendo esse cara aqui? É meu amigo de infância. Eu era o bunda mole do bairro e o único cara que me defendia era ele!
– Porra, por que você fez isso?
– Não era isso que você queria?
– Não! Agora todo mundo acha que você deu a volta por cima e que eu sou um merda, que te defendia , mas não virei ninguém na vida. Desdiz isso!
– Tá bom. Alô galera. Era mentira, eu não conheço esse cara não. Nunca vi esse sujeito na minha vida. E aí, melhor assim?
– Melhor.
Os dois foram cada um para um lado e nunca mais se falaram na academia.

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ao todo.
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