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CONVERSA EM BRASÍLIA

– O que houve contigo, deputado?
– Nada não, tudo certo.
– Não, eu te conheço, você anda cabisbaixo, triste…
– É…
– Pode se abrir comigo, deputado… afinal nós somos amigos de tanto tempo…
– Tá, eu vou falar, eu não ando bem não, senador. Tô muito chateado…
– O que foi? Pode falar!
– Tá, eu vou dizer. É que eu tenho acompanhado essas últimas delações aí, tanta gente daqui metida com propinas, falcatruas, pixulecos…
– Mas você foi citado?
– Não, não fui.
– Então qual é o motivo da sua preocupação?
– Eu não tô preocupado, estou só muito chateado.
– Ainda não entendi.
– É que foram tantos os deputados e senadores meteram a mão. Todo mundo pegou grana. E só falam de milhão!
– Não tô entendendo… Você tá chateado porque roubaram muito?
– É… É um tal de 3 milhões pra cá, cinco milhões pra lá…
– O que houve, virou honesto agora? Pra cima de mim? Fala sério!
– Não! Calma, senador! Não é nada disso não.
– Ah, bom!
– Eu tô chateado porque nunca consegui pegar quase nada! O máximo que consegui foi uns 30 mil…
– Que chato, rapaz!
– Pois é! Eu não sabia o caminho das pedras! Ninguém me deu a dica certa! Pô, todo mundo aqui sabia como fazer, menos eu… Isso é que me deixa puto!
– Que isso, deputado? Não fica chateado não. Veja o lado bom: Um monte de nossos companheiros aqui vai acabar indo pra cadeia e você não corre esse risco. Eu mesmo tô ferrado, já tive que gastar uma baba com advogado…
– Então, se tá todo mundo ferrado, imagina se iam me pegar?
– Não tô entendendo.
– Você acha que iam chegar em mim? Um monte de senador, deputado conhecido sendo pego, a fila tá muito grande. Nunca que iam chegar num deputadozinho de baixo clero como eu!
– É , faz sentido…
– Pois é, e eu não roubei quase nada! Eu sou um otário!
– É verdade, você foi muito otário mesmo. Chato mesmo isso.
– Entendeu agora porque eu tô chateado?

11
ao todo.
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ARMANDINHO DA FIRULA, DEPUTADO ESTADUAL

Urna

– Já tem candidato a deputado? – o sujeito perguntou, entregando um panfleto.
– Não, obrigado.
– Que isso, meu irmão? Não reconhece mais os amigos?
O outro reconheceu.
– Armando?
– Eu mesmo. Armandinho da Firula.
– Armandinho … você jogava pelada comigo. E aí, rapaz, há quanto tempo? Você é candidato?
– Armandinho da Firula, deputado estadual. Vai votar no amigo , não vai?
– Armandinho da Firula – o sujeito leu no panfleto – Firula?
– Tu não lembra da firula?
– Você está falando daquele drible meio diferente…
– Drible, não. Firula.
– Claro, você tinha uma firula, era boa mesmo. Tu fazia uns troços com a perna, uma espécie de pedalada.
= Não era pedalada. Era uma firula minha, ninguém fazia igual.
– Taí, é verdade. Nunca vi ninguém fazer aquela tua firula.
– Passei muito por você fazendo a minha firula…
– Passou mesmo. A tua firula era boa mesmo.
– Então , é por isso que eu estou aí me candidatando.
– Por causa da firula?
– Então! Armandinho da Firula. Deputado estadual.
– Caramba! E você ainda joga bola?
– Claro. Quer dizer, agora tô meio parado. A campanha não tá deixando. Mas a firula eu ainda faço!
– Mas se você não joga bola, como é que faz a firula?
– É a base da minha campanha. Eu levo uma bola sempre comigo. Aí eu chego nos lugares e faço a firula pros eleitores. A galera fica doida.
– Você faz a firula e ganha voto?
– Um monte! Minha candidatura tá crescendo direto!
– Legal… e a tua proposta , qual é?
– Proposta? Cara, eu tô pensando em me eleger… aí eu vou lá na parada umas três vezes por semana, e o resto do tempo eu jogo minhas peladas. A minha proposta é essa.
– Não, eu tô perguntando pela sua plataforma?
– Plataforma? Rapaz, a plataforma… eu ainda estou elaborando… mas deve ser alguma coisa tipo: Firula pra o povo!
– Firula para o povo?
– É boa não é? E aí , vai votar em mim?

62
ao todo.
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VOTO SECRETO

camara

O deputado chegou em casa , extenuado depois de comemorar o resultado de mais uma votação secreta na Câmara. Pegou as chaves de casa, colocou na fechadura e… nada. A porta não abriu. Ele testou outras chaves, mas nenhuma delas abria. Como isso podia estar acontecendo? Ele pegou a chave de novo, colocou na fechadura e fez força, mas a tranca não abriu. Depois de uns quinze minutos forçando, ele resolveu tocar a campainha. Josefa, a empregada, abriu.
– Pois não?
– Ah, até que enfim, Josefa! Minha chave tá dando problema …
Josefa barrou a entrada do deputado.
– O que o senhor deseja?
– Como o que deseja? Eu quero entrar na minha casa!
– O senhor está a procura de alguém?
– Josefa, eu moro aqui.
– Que eu saiba o senhor não mora mais aqui não.
– Deixa comigo Josefa – era a mulher do deputado, chegando à porta.
– O que está acontecendo aqui, mulher?
– Eu vou explicar pra você. Nós trocamos a chave da casa.
– E por que não me deram uma cópia?
– Porque você não mora mais aqui.
– E quem decidiu isso?
– Nós fizemos uma votação.
– Que votação?
– Nós fizemos uma votação para saber se depois do papelão que o senhor fez no Congresso, o senhor mantinha o seu mandato aqui em casa.
– Que absurdo! E qual foi o resultado?
– Você perdeu o mandato.
– Como assim? Mas eu não votei!
– Você se absteve. Você e o Rex, ele também não votou.
– Quem votou nesse negócio?
– Eu, seus filhos, minha mãe, sua mãe , os empregados e o Rex. Quer dizer, o Rex se absteve.
– Eu posso saber pelo menos, quem é que votou contra mim?
– Ah, isso eu não posso dizer, porque a votação foi secreta.
– Caramba! E agora? Pra onde é que eu vou?
– Ué, fala com o deputado que vocês absolveram. Lá onde ele mora deve ter vaga pra deputado.

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ao todo.
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