Ontem, dia 25 de abril, o Brasil perdeu um de seus maiores sambistas: Carlos Roberto de Oliveira, o Dicró. Bem humorado, ele ganhou notoriedade por suas músicas com duplo sentido que davam ênfase ao dia a dia do subúrbio e da Baixada Fluminense. Nós já tivemos o prazer de entrevistá-lo para a revista Casseta e Planeta, em 1995.  Confira agora os melhores momentos dessa conversa.

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C&P – Vem cá, de onde vem esse nome, Dicró? Parece marca de biscoito: (com voz de locutor) “Dicró é mais crocante!”
Dicró – Quando saquei que não ia ter cara de Carlos Roberto de Oliveira – isso é nome de branco, né? – peguei a primeira letra de cada palavra: C-R-O. Sobrou o “de”, botei ele lá na frente. Gostaram?

C&P – Pô, você leva jeito pra numerólogo!
Dicró – 18 anos de primário… a gente aprende alguma coisa, né. Meu nome é um acróstico!

C&P – Como é que você entrou no samba? O porteiro tava de bobeira?
Dicró – Quando garoto eu já era ritmista de escola de samba, mas não era nada de ser artista, é que eu tinha percebido que trabalhar não dava certo. Meu pai trabalhou 30 anos e não teve nem uma bicicleta.

C&P – Você começou como intérprete ou como compositor?
Dicró – Comecei compondo paródias. Pegava a lista de sucessos … uma baixaria danada! Uma noite a gente tava reunido, naquela sacanagem, de repente sumiu todo mundo – vupt! Pensei: “Que porra é essa”? Veio um negão mais forte, cachaça de litro na mão, me segurou pelo pescoço: “Porra, vem cantar palavrão debaixo da minha janela”! Me deu quatro cascudos e ainda um sermão: “Já que tu tem inspiração, seu FDP, por que não aproveita pra compor coisa sadia”? E eu lá sabia o que era inspiração …?

C&P – Crioulo nem quando é santo escapa de levar porrada!
Dicró – Depois saquei que o mundo é dividido em ruas. Posso fazer uma música pra uma rua qualquer que todo mundo vai pensar que é a rua deles. Então fiz um cara metido a sério: “Vou mudar daquela rua / Eu já não agüento mais / Lá tem muito mentiroso / E mulher que passa homem pra trás /Olhaí / Vou mudar de lá, vou mudar de lá / Porque só quem presta sou eu / Que tenho um nome a zelar / Eu vou… vou mudar de lá / Naquela casa amarela / Com a calçada cheia de entulho / A polícia já anda de olho / Porque o dono vende bagulho / E o dono da quitanda / Armou o maior escarcéu / Achou na bolsa da nega / Um sabonete de motel/ Olhaí…” (risos)

C&P – O seu negócio é fazer música gozando a cara dos outros, né?
Dicró – Eu levo a vida na gozação, porque todos nós nascemos de uma gozação. Minhas músicas são sempre prum cara encamar em outro: “Ei cumpadre, você tá ficando barrigudo”…. Uma vez num show eu tava cantando: “Se o bigode falasse / Naturalmente batia sujeira / Tem uma pá de malandro / Que usa bigode fazendo besteira”. Um otário não cismou que eu tava cantando pra ele? “Ô meu irmão, isso é indireta pra mim?!” (risos)

C&P De onde vem esse seu bom humor, de sempre fazer música engraçada?
Dicró – Já imaginou se faço música de fossa e um otário ouve e dá um tiro no ouvido? (risos) Tem que partir pra alegria! Minhas músicas, depois da quarta ou quinta cerveja, fazem sucesso em qualquer reunião. De cara limpa, ninguém acha graça, mas depois de todo mundo colocado ..

C&P- Seu sucesso começou com o Flávio Cavalcante, né?
Dicró – Foi, com a música: “Meu barraco no morro é caprichado / É feito de jacarandá / Tem até ar condicionado / E sinteco por tudo que é lugar / Olha, tem até água encanada / Que vem direto da mina / Eu já contratei engenheiro / Pra fazer minha piscina / Meu barraco tem é coisa / Que até meu Deus duvida / A Jacqueline Onassis / É quem vai fazer a comida / Meu barraco é minha vida”. Mas naquela época eu já havia gravado uma música falando do meu bairro: “No lugar onde moro / Até ladrão tem medo de mim / Êta lugar perigoso / Igual aquele eu nunca vi / Ladrão não anda de noite / Porque tem medo de ser assaltado / Já viraram camburão / bateram no delegado / O cara foi assaltado / Por quatro cara barbudo / Levaram o dinheiro do cara / E o anel com dedo e tudo / Êta lugar!” Isso aconteceu mesmo!


C&P – Esses shows nos presídios são meio devagar, né, a platéia deve ficar muito presa. (risos)

Dicró – Teve um presídio que cheguei que tinha num canto escrito CV em cocaína e no outro CVem maconha! “Quem quiser fumar fuma, quem quiser cheirar, cheira!” Fui logo falando: “Meu negócio é.cachaça”! “Tem aí, tem aí,” Bicho, eles roubam álcool da farmácia, jogam casca de banana lá dentro… tempo pra fermentar eles tem. Me deram uma dose, fiquei legal, subi pra cantar no presídio crente que tava num clube qualquer. Comecei: “Legal, assim que eu gosto de ver! Casa cheia, NE”! (Risos) Eu reparei que tavam me olhando meio espantados, mas…. cantei  “A Rima” e quando terminei falei: “Tô vendo que vocês não aplaudiram muito. Olha, quem não tiver gostando pode ir embora pra casa, ninguém é obrigado a ficar aqui me aturando”! (mais risos) Cantei outra música lá e também não agradei muito. Tentei entusiasmar o pessoal “Vamos gente! Vocês precisam se soltar mais”! (e ainda mais risos) E no final ainda dei outra bobeada: “Foi um prazer estar aqui com vocês, espero ano que vem encontrar todos vocês aqui reunidos numa boa …”(gargalhadas)

 C&P Fala aí sobre essa promiscuidade que tem no samba. Por que samba-enredo tem tanto parceiro?
Dicró – Um ou dois fazem o samba, mas você não ganha o enredo com dois parceiros. Samba-enredo é igual política, tem que ser trabalhado, e vai entrando nêgo na composição. Um patrocina o churrasco, outro patrocina a bebida. Tem um que grita “Simbora gente!”: virou parceiro. Daqui a pouco tá um condomínio.

C&P – Você escuta alguma coisa desse pessoal novo?
Dicró – Casseta & Planeta (risos). Gosto de tudo, funk, rap, pagode, tem haver renovação. O samba tem é uma velharia que não quer desocupar o espaço, e quando chega alguém novo, ficam na bronca. A música americana – como o rap e o rock – foi a melhor coisa pra música brasileira. Graças a esses importados o pessoal começou a botar dinheiro na música, entendeu a parada?  Com isso abre espaço até prum Raça Negra que tá trazendo o samba de volta. Aí esses “mauricinhos do pagode”, quando sobem lá de terno, tão é botando moral.

C&P – Dá um plá aí de uma música inédita, aquela que você tá fazendo agora.
Dicró – “Otário é a imagem do cão! mas o otário é a imagem do cão! Presta atenção no detalhe! e vê se não tenho razão/ o malandro pegou a mulher do otário / E saiu pra passear / E depois espalhou pra vizinhança / Só pra desmoralizar / O otário ficou na dele, marcou já um plano para se vingar / O otário fingiu que estava com AIDS / fez regime pra emagrecer / pagou bebida pra rapaziada / dizendo que ia morrer / Chamou o malandro no canto e disse / essa nega eu dou pra você / Que confusão, que confusão / (chorando) Foi essa nega . que me deixou nessa situação / Que bafafá, que bafafá / o malandro até já assaltou um banco / Pra arrumar dinheiro para se tratar / Que confusão, que bafafá /A pior coisa do mundo / É quando o otário parar pra pensar.” O malandro se suicida no final e o otário tá morando tranqüilamente em Duque de Caxias.

C&P – É incrível: um samba-exaltação ao otário! É verdade que a malandragem tá acabando?
Dicró – Malandro nunca existiu. O que tinha era o bon-vivant. Hoje misturaram a malandragem com drogas. Antigamente, pô, quando vagabundo acendia um cigarro de maconha, mandava as crianças sair da sala. Hoje chama as crianças! (pausa) Esse negócio de droga não acaba nunca, mas eu saquei um treco: o IML tá cheio de cadáver sem dono. Tu pega um médico-legista e um fotógrafo, leva dois cadáveres pra Ipanema, dois pra Copacabana, dois pro Centro, por aí vai. “Causa mortis: cocaína envenenada!” Sai a manchete: “Uma tonelada de cocaína envenenada na cidade”! Quero ver se nêgo não vai pensar duas vezes!

C&P – É verdade que você levou pau na escolinha do Prof Raimundo?
Dicró – Chico Anísio mandou que eu escrevesse um personagem. Pô, já tinha de tudo, carioca, gaúcho, viado, preto, mas finalmente consegui descobrir uma coisa nova: um preso. Carlinhos Xilindró. Eu ficava lá no meio com uma roupa listrada. Chegava o professor: “O que o senhor tá fazendo aí? O senhor está no lugar errado”! “Calma, professor, calma. Eu tôaqui pra me formar em Direito pra poder ter o direito de continuar preso.” “O senhor está maluco? Todo preso quer é fugir.” “Maluco nada, vou perder uma boca dessas? Casa, comida, roupa lavada, segurança, tudo à custa desses otários aí.” Quando chamo os alunos de otário eles partem pra me dar um pau. Pego o meu celular e falo: “Peraí! Vou ligar pro meu padrinho. Alô Brasília! Aqui é o Xilindró, chama meu padrinho aí. (Pausa) Alô, tudo bem, dá um papo nesse professor pra ele saber nosso grau de amizade.” Passo o telefone pro Chico; que ouve e arregala os olhos: “Excelência! Quanta honra! (pausa) O senhor quer que eu lhe dê logo o diploma? O senhor manda”! Já começo a ser visto de outro ângulo. No segundo dia eu chegava atrasado, porque não podia perder a comida maravilhosa da prisão. No terceiro dia, chegava armado: “Não leva a mal, mas aqui fora é um perigo”! Escrevi textos também pro Seu Boneco e pra Dona Mabel. Aí a porra da Escola acabou e mais uma vez me fudi na vida.

C&P – Pô, uma propagandapoliticamente correta!
Dicró – Nada, é um golpe: o guarda e o crioulo tão mancomunados!

5
ao todo.

3 COMENTÁRIOS

  1. É parceiro, tanto bandido prá morrer, inclusive aqueles de Brasília, ladrões do povo, ai vai o Dicro, cara maneiro, divertido e que fazia parte do nosso cotidiano. É uma perda sentida, mas, fazer o que, o homem lá em cima é que manda.

    • Dicró foi um cara evoluido ao ponto de satirizar até a mãe de sua mulher numa bôa.
      um Brasileiro que precisa ser mais lembrado em diversos programas .

  2. Adorei a entrevista com o Dicró.

    Mas tem uma entrevista que, ao meu ver, foi A MELHOR DE TODAS nas Revistas Casseta & Planeta da Toviassú: a com o Renato Gaúcho e o Gaúcho, que cuja capa da revista era “Bote no Rei!”

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