Essa entrevista foi originalmente publicada na edição 23 da revista Casseta & Planeta, em 1995. Aproveite!

C&P – Vocês estão vindo de onde e indo pra onde?
João Barone – A gente tá vindo de umas apresentações no interiorzaço da Venezuela. Tocamos até em Puerto Ordaz, a uns 700 km de Boa Vista. E agora vamos tocar num dos lugares mais históricos do Rock, o Marquee, de Londres. A gente tem feito também muita temporada na Argentina.

C&P – Mas precisa ir tão longe pra dar show pra argentino? Vão tocar na Avenida Atlântica! (risos) Como é que vocês saíram do Circo Voador pro Mercosul?
Barone – Em 85 os argentinos vieram pra cá, viram a gente no Rock in Rio, e pegamos uma carona nessa repercussão. Em 86 teve um festival em Mendonça com a gente, a Blitz e um pessoal local. De lá mesmo arrumamos um show numa quebrada de Buenos Aires, e aí começou. Até a gente tocar no Estádio La Bombonera junto com o UB 40. Os argentinos têm um coisa fiel com a música, são muito anos 60, parece que eles é que inventaram o rock.
Bi – Na época do “Alagados”, 87-88, a gente começou a tocar no Chile. Três anos depois, quando lançamos uma compilação, voltamos lá e o próprio cara da gravadora falou: “O que vocês tão fazendo aqui? Não existe mais rock aqui!” “Mas você não acredita no nosso trabalho?” “Não.” (risos) Tinham cortado total o movimento nacional de rock. As rádios de rock só tocavam agora Julio Iglesias.

C&P – Vocês estão tocando mais no Brasil ou no exterior?
Bi – Meio a meio. Porque a gente faz questão de tocar sempre aqui mesmo.

C&P – Ah é? Então toca uma agora pra gente ver! (risos) Quantos shows vocês jazem por ano?
Barone – Uns 100, 120…

C&P – Leva a patroa ou pra banquete não se leva marmita? (risos)
Barone – Pô, por um momento eu tinha esquecido pra quem a gente tava dando entrevista…

C&P – Todo mundo tem essa fantasia sobre a vida na estrada, que rola altas coisas, mas na verdade é chato pra cacete, né. Fica uma sensação de aeroporto-hotel-palco-hotel-aeroporto..
Bi – É. Por isso a gente só viaja no máximo uns 20 dias direto. O máximo que a gente ficou fora foi no ano passado, quando ficamos três meses gravando um disco em Londres. Cara, deu um banzo…

C&P – E todos vocês têm filhos pequenos, né.
Barone – Não, só eu e o Herbert. O Bi tem um casal de tartarugas e um casal de Rottweiller.

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C&P – Aí quando ele voltou a tartaruga não reconhecia mais ele…
Barone – Roberto Carlos inclusive fez uma música em homenagem às tartarugas trepando: “O Concavo e o Convexo”.

C&P – Mas vem cá, agora falando sério: nunca rolou de querer parar com tudo, ou então fazer uma carreira subsolo?
Barone – Tipo Stevie Wonder e Ray Charles: “Tão aguento mais ver a sua cara”! (risos) São treze anos juntos, cara… Tapa, nunca rolou, mas um boca a boca…

C&P – Cumequié? Boca a Boca? Hummm…
Barone – Agora na Venezuela, por exemplo, a gente era 18, e tudo homem…
Bi – Quando tem muito homem junto vira tudo italiano: fala alto, goza com os outros… (pausa) A gente quando fala “não aguento mais”, não tem nada a ver com os outros caras, é por querer ficar um pouco mais em casa. Só que aí a gente fica em casa e pensa: “Puta, eu queria era estar lá”!

C&P – Qual a pior capital pra fazer show?
Bi – Falam muito em Teresina, mas acho que o pior é Porto Velho. É um faroeste: ouro, drogas e revólver.
Barone – Pô, Teresina tem uma feira nordestina sensacional!

C&P – Qual é o cú do mundo?
Barone – Hermosílio, no México.
Bi – (concorda) Na fronteira com o Arizona. Temperatura: 51 graus. Às nove ela manhã fazia 42 graus!
Barone – Se não é o cu do mundo certamente é o buraco mais quente. (risos) O lado interessante disso foi a gente chegar lá no aeroporto, um vôo charter posando no meio elo deserto.
Bi – Era um festival chamado Rock Latino 93, com gente da Espanha, ela Venezuela, da Argentina… O pessoal servia tequila dentro do avião e a gente chegou lá bêbados!
Barone – E o pessoal ela organização botou um monte de meninas, estudantes, das escolas lá, todas de camiseta amarela, e quando a gente saiu do avião gritavam: “ROLA! ROLA”(risos)

C&P – Aí o Herbert tirou o boné e mostrou logo o careca…. (mais risos) Mas que porra de Rola era essa?
Bi – Era o nome elo festival: Rock Latino.

C&P- Por falarem careca, o Herbert continua complexado ?
Barone – Não, teve uns fios que meio que ressuscitaram dos mortos, como Lázaro…

C&P – Foi o que? Minoxidil? Titica de galinha? (como se fosse uma deixa de Teatro, entra justo o Herbert) Pô cara, chegou bem na hora! A gente ia começar a contar nossas piadas de careca!
Barone – Você falou que não era pra gente contar que você tinha feito implante, mas não teve jeito…

C&P – Bicho, tu virou flamenguista nos shows só pra poder amarrar aquela camisa rubro-negra na cabeça! (risos)
Herbert – Vem cá, vocês foram ao Metropolitan ver nosso show com o Barão Vermelho? Foi legal, né?

C&P – Foi ótimo! Inclusive a gente comentou antes: “Vamos ver de quem é a platéia. Se tiver um monte de gatinha, é do Paralamas. Se tiver um monte de punheteiro de camisa preta, é do Barão”. (risos) E tinha mais gatinha… (pausa) Mas todas punheteiras, porque aquela calça do Frejat… (mais risos). Mas a gente tava fala nado dos piores lugares pra se fazer show.
Herbert – Os subúrbios de Buenos Aires, não pelos lugares, mas porque os shows começam às cinco da manhã! As discotecas só abrem às duas! Aliás, as pessoas não imaginam o desgaste físico fudido que a gente tem. É foda! Meu caseiro, por exemplo, achava que eu era um bosta nágua, que dorme pra caramba, tá sempre cansado, então levei ele num show pra ele ver o que .é trabalho. Quem tem filho então… Tem dias em que chego, mal to dormindo, minha mulher acorda e fala: “Toma, tá contigo”. Tenho que entrar no ritmo da família.
Barone – Praticamente todo fim de semana tem dois ou três shows.

C&P – Por outro lado, vocês são a alegria do Ricardão.
Herbert – É, fizemos até uma versão em homenagem ao Ricardão (leia a letra no box ao lado). Mas nossas grande musas inspiradoras são o Savalla e o João Fera (canta a “Homenagem ao João Fera”], Agente canta muito essas músicas no ônibus da turnê. Imagina, todo mundo cantando junto, gritando, o ônibus vem abaixo!

C&P – E qual foi o lugar mais do caralho pra fazer show ?
Barone – Festival de Montreux, onde a gente tocou três vezes.
Herbert –E na Argentina. Eles cantam todas as nossas músicas!
Barone – Lá a gente é considerado local total. As pessoas me reconhecem na rua: “Maestro!Maestro”!

C&P – Maestro?! Que tu tá fazendo aqui, cara? Vai pra lá que tu é o Tom Jobim!( risos) Quem é mais conhecido na Argentina: vocês ou a Xuxa ?
Herbert – A Xuxa é grande pra caralho. A Daniela Mercury é grande Iá e sem cantar nada em espanhol. Nêgo veio aqui no verão, adorou e transplantou pra lá: a filha do Menem vai ver, Maradona é louco por ela… A música só cruza fronteira quando tem raízes nacionais. O Barão é uma puta banda, mas tem as referências dos Rolling Stones, e no Equador, na Bolivia, cada lugar tem seus Stones locais. Os Titãs nos últimos discos são uma banda como outras estrangeiras.

C&P – E os caras que tão pintando agora?
Herbert – Carlinhos Brown vai ser a maior estrela internacional do Brasil. O Brown é foda! É uma usina total. A sofisticação das letras dele é um absurdo! Nunca tive a impressão tão clara de estar diante de um gênio como diante do Brown.

C&P – Mas você sempre gostou dessas coisas de baiano, né? A gente tava lá num carnaval que Gilberto Gil saiu no Olodum, e ele gritava: “É a melhor bateria do Brasil! Não sou eu quem digo, é Herbert Vianna” Caralho, você tá dizendo pra cacete! Quero ver você dizer isso em Padre Miguel.
Herbert – Caetano tem uma frase: “A capacidade da Bahia de produzir coisas geniais só é igualada pela capacidade da própria Bahia de produzir imitações medíocres dessas coisas geniais”.

C&P – E é fácil baiano ser intelectual. Por exemplo, numa discussão sobre .física quântica, ele diz: ”Ah, isso tudo é muito relativo, porque na Bahia … ” Na Bahia tudo é diferente.
Herbert – Antes da Daníela Mercury ser conhecida eu tinha dado música pra ela gravar. Ela queria que eu produzisse “O Canto da Cidade” e não pude. Então ela procurou o Liminha, que não atendia ela, nem sabia quem era. Liguei e falei: “Liminha, você vai ganhar muito dinheiro com essa menina”!

C&P – E o Skank, que chamam de sub-Paralarnas?
Herbert – Qualquer banda de reggae alegrinho vai ser identificado com o Paralamas, mas a gente já deu alguns passos fora desse estilo de ficar pulando, satisfeitos, de bermuda. E o Samuel (do Skank) é muito bom. Ao vivo são bons pra caralho.

C&P – Vocês sempre tiveram esse problema de não se encaixar em rótulos. No início, vocês foram rejeitados pela galera do rock & roll…
Herbert – Pô, era a gente, o Kid Abelha, e o resto. Todo mundo com cara de mau, cabelão, Di Castro, aquela galera, e a gente parecendo o conheciam, eram uma espécie de clube, enquanto a gente era universitário, vinha de outra coisa… Bi-Mas ficamos ombro a ombro com eles, tocando no Circo Voador…

C&P – Se comia gente pra burro ali no Circo Voador, né?
Herbert – (cara de espantado) Se comia? Então pra mim escapou…
Bi – Ele usava óculos.

C&P – E aquelas porradas que rolavam no cenário do Rock-Brasil? Lobão que ladra não morde?
Barone – Cara, nunca mais ouvi falar do Lobão… não, outro dia ouvi ele falando do Lulu Santos. E falando bem! Herbert – Isso começou em julho de 83, depois que a gente lançou o compacto de “Vital e sua Moto”, quando a gente foi pra Canela.

C&P – Mas vocês foram logo pra canela? Já pegaram pesado! (risos)
Herbert – Enquanto isso saiu o disco com “Cinema Mudo”. Lobão então saiu falando que tinha mostrado pra gente uma música do Guto chamada “Rastaman in the Army” e que a gente tinha plagiado isso pro “Cinema Mudo”. Acontece que “Cinema Mudo”, mesmo saindo depois, foi gravada junto com “Vital”, ou seja, antes dele mostrar qualquer música. Quando o Lobão também foi pra Canela, todo mundo achou que ia ficar o maior clima, mas nada, ele tocou bateria pra gente… Lobão é assim: despiroca de um momento pro outro. Uma vez, no Circo Voador, mostrou “Me Chama” pra gente, e ainda falou: “Essa aqui é a parte paralameada da música”. (canta): “Nem sempre se vê…” (e entra uma batida mais reggae). De repente tava dizendo que “Cinema Mudo” era porque o disco dele chamava “Cena de Cinema”.

C&P – Ficou falando em Chico Boboca de Holanda.
Herbert – E aí ele vem com um papo de “só falo mal de quem eu gosto”, “não chuto cachorro morto”… Depois vieram outras porradas, quando a gente lançou “Alagados” e saíram matérias onde a gente dizia que o futuro da música era negro. Pô, nunca dissemos isso! Mas todo mundo falou mal da gente – os Titãs, o Barão – acho que se sentiram ameaçados, porque o disco vendeu 800.000 cópias, algo que ninguém do rock brasileiro – tirando RPM – tinha feito. A gente sempre foi um bom alvo. Cazuza, muito no começo, falava mal da gente, depois ficamos super amigos.
Barone – O problema é que a gente nunca foi muito dessa turma do rock. A gente sempre teve essa vontade de ouvir música sem preconceito. A gente – gosta de bolero, de tango, de salsa – pra caralho – crescemos ouvindo rock & roll, e isso tudo fica meio numa feijoada.
Herbert – A gente é considerado rock & roll pela atitude, pelos shows ao vivo, pelo peso da coisa, e isso coloca a gente numa raia interessante no rock latino, junto com três outras bandas: uma mexicana chamada Café Tacuba, um punk folclórico, considerado o melhor disco latino do ano passado.
Barone – Punk folclórico vem de Atahualpa y los Panquis.
Herbert – As outras duas são argentinas: Los Fabulosos Cadillacs, cujo “El Matador” foi o maior hit latino do ano, a outra banda é Los Pericos, com um reggae tradicional. Essas quatro bandas, incluindo a gente, tão no top do rock na América Latina.

C&P – A idéia de vocês é se cristalizarem como ídolos dos cucarachas ou vão fazer como naquele jogo, o War, e conquistar territórios até chegar nos EUA e na Europa?
Herbert – A gente fez uma excursão americana no final do ano passado que foi muito boa: três dos quatro shows tavam sold out (lotação esgotada com antecedência).

C&P – Quem é que faz sucesso de verdade com os americanos? Aqueles que não enchem os shows só com brasileiros?
Bi –Milton Nascimento, Djavan e Ivan Lins.
Barone – Mas é um pessoal do circuito de quem lê Downbeat.

C&P – Vocês não fizeram a jogada comercial errada, traduzindo suas letras pro espanhol, ao invés de ir direto pro inglês? O Sepultura, por exemplo, funcionou lá fora porque canta em inglês. Já o espanhol, mesmo a gente tem preconceito. O Mano Negra (banda de rock espanhola) é legal, mas tem umas horas que o cara começa “me gusta, me gusta” que você já começa a achar…
Herbert – O Brasil é tão dominado culturalmente pelos Estados Unidos que no momento em que eles precisaram conter a revolução cubana saíram implantando esse preconceito na gente. Música chinesa? É estranha mas tá ali. Música indiana? Tá ali. Música Latina? Não, tá abaixo, é brega, de mau gosto. Mas antes não era, perguntem pros seus pais, que ouviam boleros e dançavam tangos.

C&P – Vocês fizeram as pazes com o Cazuza, esqueceram o Lobão, tocam juntos com o Barão, mas quem é o pentelho do rode, aquele que não dá pra engolir?
Herbert – Olha, não falo mal de ninguém, mas Marcelo Nova é um imbecil de última categoria.
Barone – Até hoje tá segurando no cadáver do Raul Seixas.
Herbert – Acho bonito o que ele fez pelo Raul, foi idealista, mas é extremamente mal educado. Detesto gente mal educada, gente que vive atacando os outros. Eu sei que cada pessoa que tá num palco tá fazendo urn puta esforço, tá trabalhando e merece respeito como profissional, sacou? Ponto final. Tenho admiração pelo Lobão, mas Marcelo Nova, não consigo…

C&P – Por que todo mundo gosta de falar mal de vocês? É alguma maldição? Essas críticas negativas te arrasam?
Herbert – Não, nem as críticas do Giron [jornalista da Folha de São Paulo).

C&P – Já faz três anos que o Giron decretou o fim do humor do Casseta & Planeta. Falou esse ano que Rita Lee tava na menopausa artística e ela Arrebentou no shopw do Rolling Stones.
Herbert – Ele já decretou a nossa morte também. Me lembro que a primeira vez que o “Programa Legal” foi ao ar ele disse que aquilo não ia agradar. É um especialista em errar previsões.

C&P  – Por falar em Stones, quais foram os shows marcantes do sua vida?
Herbert – Olha, quando vi Tina Tumor na turnê “Private Dancer” eu pirei. Depois vi o Aswnd em Londres, num show celebrando o fato de serem a primeira banda ele reggae a chegar no primeiro lugar da parada pop inglesa. Foi tão devastador que tivemos vontade de passar um ano ensaiando antes ele subir num palco outra vez.

C&P – Você é Keith Richards ou Mick Jagger?
Herbert – Cara, gosto pra caralho do Keith Richards, mas acho sensacional um cara como Jagger que é um puta executivo, sabe o nome das 300 pessoas que trabalham no projeto, pra onde cada centavo vai, isso é bacana. Os Stones tem um network internacional comparável ao FBI. A chegada deles num aeroporto PE uma operação complicada. Inclusive porque Kaith nunca pode ser revistado. Às vezes eles chegam num avião e ele é ate revistado para que do outro lado possa chegar outro avião que vem com heroína.

C&P – É o avião do avião. E na verdade existem seus Keith Richards. Pegaram uns sujeitos, amassaram a cara deles (risos) ai cada um entra por um lado do aeroporto. Você é que nem o Mick Jagger que fica malhando antes de entrar no palco.
Herbert – Ando ele bicicleta todo dia, faço abdominal quando acho que tô pesando mais, faço uma dieta, mas pra mim o maior exercício é o próprio show. Se mexer no palco não é tanto o problema, mas cantar é foda. O ar vai embora. A vantagem é que minha voz é uma merda mesma e não faz diferença. Posso ta rouco que não faz diferença.

C&P – Você acha sua voz uma merda porque ainda não ouviu a gente… (risos) E o Nirvana?
Bi – Adoro o Unplugged deles.
Herbert – Na época eu não conhecia, mas agora gosto pra caralho.

C&P – A gente também. Depois que o Kurt morreu ele tá compondo demais!
Herbert – Não, já me chamou a atenção quando eles tocaram no Brasil. Muito bom! Quando eu ia esquiar só ouvia Nirvana, tinha tudo a ver enquanto eu tava me cagando ali.

C&P – Naquele show do Brasil ele e a maluca daquela mulher dele viraram duas garrafas de vodca direto antes de entrar no palco. Tavam doidavaços!
Barone – Cara, fiquei impressionado quando vi Raul Seixas pessoalmente. Ele tomava rabo de galo – vodca com groselha – no café da manhã!

C&P – Pô, Raul Seixas bebia benzina! Tem gente que cheira, mas ele bebia benzina.
Herbert – O mais esquisito que a gente já passou foi quando o nosso campeão aqui (Bi) foi nocauteado na Inglaterra pelos poppers, vulgo TNT, que eles vendem em sex shops. Você cheira e dá lima dor de cabeça instantânea. Depois você ri pra caralho. Parece lança. O Bi ficou, “ah, isso não é nada”, comprou e cheirou numa praça lá de Londres e caiu duro! O guarda veio ver o que tava acontecendo com ele.

C&P – Como era essa vida em Londres? Vocês todos morando no mesmo apartamento, um lavando, outro cozinhando de avental com a bunda de fora…
Bi – Ah, era aquele clima… um lavando a bunda do outro…
Herbert – A partir de um certo momento a gente passou a guardar as garrafas que a gente bebia e chegou num ponto que não dava pra entrar mais na cozinha. A gente bebeu pra caralho!

C&P – Mas pra que passar três meses enfurnados em Londres? Era aquilo que a crítica cansou de repetir: “Eles tiveram que ir a Londres pra gravar o seu disco mais brasileiro”?
Herbert – Fomos porque era legal ir pra Londres de graça. Nosso produtor, Phil Manzanera, ex-guitarrista do Roxy Music, era de lá. A gente fez 15 shows pela Europa abrindo pro Brian May, do Queen, e o empresário do Manzariera ouviu a gente. Fui na festa de lançamento do disco da Nina Hagen, produzido por ele, fomos apresentados, e ele se ofereceu pra produzir duas músicas do novo disco. Ele tava saindo de férias – comjack Bruce, Mick Taylor e Simon Philips – e levou fitas nossas pra ouvir. Quando voltou, disse que tinha adorado e quis produzir o disco inteiro.

C&P – E essa história de ir pra Europa abrir pro Brian May? Ele botou dentro? Ou o negócio dele era o Fred Mercury?
Bi – Quando o Queen veio ao Rock in Rio, em 85, ele conheceu a gente, que era da mesma gravadora. Depois, fomos num festival de rock em Montevidéu e tocamos no mesmo dia que ele.
Barone – A gente voltou juntos no avião e demos um CD pra ele. Ele ouviu e chamou a gente. Pô, o cara é um ícone, tá entre os cinco maiores guitarristas em termos de sonoridade.

C&P – Mas o público de vocês é totalmente diferente!
Herbert – Ele mesmo tinha problema de público porque todo mundo ia pra ouvir o Queen e as coisas dele são bem diferentes.
Bi – Na verdade, o show dele é tão chato que só vi uma vez inteiro. E fizemos 15 shows juntos!
Herbert – E foi foda, fizemos shows na PQP da Inglaterra onde nosso nome não tava no cartaz, onde nego não entendia português, não queria saber de nada que não fosse Queen, e a gente tinha 10 minutos pra passar o som. A platéia tava lá: “QUEEN! QUEEEN”! Apagava a luz, todo mundo: “UAAAH”! Acendia a luz, tava lá a gente no palco… (risos) Surpresa! Com 45 minutos pra provar que o cara tava certo de ter trazido a gente do Brasil pra tocar ali.

C&P – E ele tava certo?
Herbert – Tava, foi incrível! Até hoje a gente recebe cartas de fãs. Tem uma menina de Sheffield que escreve direto. Uma só. Mas tem!

C&P – Bi, qual era o lance daquela barba? Foi promessa mesmo? E quem foi o misericordioso que finalmente cortou fora aquela porra?
Barone – Ele só tirou quando um amigo nosso convenceu ele de que podia fumar a barba. (risos)
Herbert -Aquela barba tinha de tudo! A gente tomando café da manhã num restaurante super elegante, e o Bi naquela fase severino, camisa abotoada até em cima, manga comprida, igual um cortador de cana., Então a gente conversando ali e ele: “Ôpa! Perai”. PÁ! Puxou um carrapato estrela desse tamanho! (risos) O carrapato tava tão gordo que não andava, a barriga era maior do que as patas…

C&P – Vocês dois tocaram no disco solo do Herbert?
Bi e Barone – Não, ele tocou sozinho, fez todos os instrumentos.

C&P – Por quê, Herbert, você não tinha grana pra contratar ninguém?
Herbert – Esse disco foi uma grande demo. Comecei a passar pra fita, em oito canais, as músicas que eu tava compondo, e foi ficando legal… Todo disco de banda é uma negociação entre todo mundo, é um mínimo multiplo comum, e tive a curiosidade de saber como seria um disco sem meio-termo.
Bi – Já eu nunca pensei em fazer disco solo. Só componho eventualmente … Barone – A -gente contribui com o que consegue. O Herbert escreve pra cara lho, tem mais capacidade pra compor, enquanto a gente dá mais palpites em arranjos.
Herbert – Eu sou mais disciplinado em relação ao meu ofício. Saio de casa todo dia e sento e trabalho. Desde meu primeiro gravador de 4 canais tenho muito amor por essas maquinetas.

C&P – Vocês se conheceram em Brasília, né. Ainda voltam lá, gostam daquela cidade?
Herbert – Adoro Brasília. Toda vez que vou lá fico emocionado.

C&P- Eu também. Toda vez que vou a Brasília fico emocionado quando tô de volta ao Rio. (risos) Aquilo é meio stalinista…
Herbert – Quem nasceu no Rio nunca vai entender Brasília. Nasci em João -Pessoa fui pra Brasília com dois anos e meio. Cresci lá, a minha visão da cidade é diferente.

C&P – Aí tudo bem, é como morar num playground, mas pra adulto é fada.
Bi – (concorda) Eu adoro Brasília, mas não voltaria a morar lá.

C&P – Qual a cidade de maior tédio do Brasil?
Herbert – Uma cidade que nunca entendi a vibração é Recife.
Bi – Fortaleza é legal. Natal é legal. Herbert – Porto Alegre tem uma onda super-legal.
Barone – A gente custou a gostar de Belo Horizonte, mas é legal. É o povo que mais bebe no Brasil! Mas o lugar mais esquisito é São Paulo.
Herbert – A melhor definição foi a frase que o Bussunda bolou pro Viva Rio: “Podia ser pior. Podia ser São Paulo”. Tem aquela outra também: “Pior do que um dia de chuva em São Paulo, só um dia de sol em São Paulo. Eu gosto de São Paulo, mas deu urna piorada… No começo, era o máximo pra gente ir fazer show em São Paulo.

C&P – Mas chega de falar mal de outras cidades. Pra terminar: o disco novo, esse gravado ao vivo. Vai entrar o “Rumo ao Planeta Ovo” Aquela homenagem à sua careca?
Herbert – Não, sabe o que foi isso? A primeira vez que fomos pra Argentina, a gente se esbaldou de carne, e teve um dia que eu soltei um peido no hotel. A janela não abria – pra nêgo não se suicidar no hotel – e o Maurício Valadares se pendurou na cortina, gritando: puta que o pariu! Eu tô no Planeta Ovo”! (risos)

 

C&P – Puxa, que decepção … pensei que fosse um hino dos carecas: (com voz filosófica) “Todos nós estamos inexoravelmente indo ao Planeta Ovo”…Já tinha me identificado com a força da mensagem! (puxando Herbert prum canto) Porque nós, carecas, precisamos nos unir, sabe…
Herbert – Pô, mas fizemos essa entrevista toda sem pronunciar a palavra buceta..

C&P- Você que é um especialista no assunto pode emitir a sua opinião.
Herbert – Sabe qual a definição da mulher? É aquela parte da buceta que você não usa.

C&P- A gente nem botou esse assunto na pauta porque vocês não fazem muito o gênero de roqueiros punheteiros.
Herbert – (levanta as mãos) ninguém aqui comeu a Monique Evans!

C&P- E como é a amante argentina?
Herbert – Na Argentina, se quer pedir uma menina pra fazer uma chupeta, é “saca-me Ia goma”. Tirar a borracha, né. Tem também “entregar el marron’.
Barone – Por falar em cu, a gente não falou em carros nem em culinária, assuntos que gostamos muito de comentar.

C&P- Pois é, eu soube que você vendeu a Toyota?
Barone – Não, mas quando eu passei você tava atrás de um Cadete pretão.
Herbert – Nada disso, ele tava era sentado numa 020. Aliás, 020 centímetros.

C&P- Que isso gente, eu tenho é um Tipo zero.
Bi – Pô, troca de carro. Se você quiser, eu tenho um Parati vermelho.
Herbert – Mas quando você ganhou no consórcio, levou Uno zerinho, né?

C&P- (apelando) Você viu aquele programa “Gente que faz”? Quer ver o que faz gente? E de manhã, você vê o “Colosso”? Quer ver agora? Sem falar no Fantástico”Já viu o “Pequenas Empresas” ? Quer ver o “Grande Negócio” ? Gosta de cinema? Prefere curta ou longa? (os entrevistados gritam “Chega! Chega!”)
Herbert – (quando a situação acalma) A menina morava na favela mas arrumou um emprego de arrumadeira numa casa superbacana. Um dia tava limpando lá o corredor e espiou pra dentro do quarto da patroa: tava a patroa lá fazendo um 69 com o amante dela. Ela correu e cutucou a cozinheira: “Que merda é essa que eles tão fazendo lá dentro”? “Você nunca fez isso? Pois isso é o 69! Pô, tem que experimentar isso, é sensacional! “Ela voltou pra casa com aquilo na cabeça. Aí chegou o negão, vindo da obra, com a marmita debaixo do braço. “Tião, tenho uma novidade, a geme tem que experimentar! Vem cá.” Tiraram a roupa e partiram logo pro 69 o meio da coisa o Tíão ouve aquela voz: “Tíão, você sabia que Mao Tsé-Tung morreu” ? Ele para: “Que porra é essa?” A mulher responde: “Eu tô lendo num pedaço de jornal que tá agarrado aqui na tua bunda”. (gargalhadas)

C&P- 69 é que nem morar na Vieira Souto, fundos: a localização é boa mas a vista é péssima. (mais risos). Bom gente, chega né, vamo nessa que vocês estão com a vida ganha…
Barone – Vocês não tão a fim de jantar aí não? Tem lombo recheado com salsichão e fios de ovos.
Bi –Tá vindo o maior broto afim de você. Quer que eu bote na sua?
Barone – Jacaré no seco anda? Pau na bunda sua?
Herbert – O calor que tá la fora, sente-se aqui.

C&P- (pedindo trégua) A gente é para-raio desse tipo de coisa. Outro dia veio um cara: “Aí, meu irmão, conhece o Mirosbra?” Não resisti: “Que Mirosbra?” “Aquele que te carcou atrás do Box blindex da Cesosbra”(risos)
Herbert – O Barone te entregou um cartão pra você me dar? (e mais risos)

C&P- A pergunta que mais fazem pra gente é ‘Já comeu alguém”? Saindo de Belo Horizonte, sete horas da manhã, o avião sacudindo, eu ali com pavor sentado do meu lado um Mauricio, de terninho, mala executiva ele vira (com voz grossa): “Eaí Casseta, já comeu alguém”? “Não, mas já enfiei o dedo no cu de um curioso. “(risos)
Herbert – Na Argentina é que tem as melhores bundas do mundo! A bunda brasileira não se compara! Elas são tão obcecadas com a bunda que a Argentina tem um alto índice de lordose, de tanto elas carcarem a calça até o talo. E se você não jogar uma piadinha elas ficam ofendidas!

C&P – Já foram a Cuba? Diz que lá é onde as mulheres são mais cuzeiras. E dá pra comer o cu de uma família inteira com um sabonete!  Por isso tem aquela ciência: vinho, branco e tinto, agora cu, só rosê. E dito isso, só nos resta levantar e ir embora. (todo mundo levanta outra vez)
Barone – Não, vem cá, senta aqui mais um pouquinho .. Vocês chegaram há pouco de fora … (e começa tudo de novo)

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1.8mil
ao todo.

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