Entre as piores profissões da Humanidade encontra-se a de humorista. Junto com o servente de pedreiro, o enxugador de gelo e o zelador de banheiro de rodoviária disputa o primeiro lugar na preferência do público como a pior carreira a ser seguida.

Nenhum garoto jamais sonha em ser humorista. Qualquer criança normal quer ser, quando crescer, astronauta, bombeiro, jogador de futebol ou médico. Engraçado jamais. Nenhum pai se orgulha de ter um filho “no humor”. Se tem, é a ovelha negra da família. É mandado embora de casa e tem que ir morar na zona. Vai ser deserdado e esquecido. Esquecido não, será lembrado como aquele idiota que não conseguiu nem ser bacharel em direito. Uma besta, enfim.

Também tem uma coisa, a pessoa nasce humorista. Ninguém vira humorista. Não tem escola de humor nem Faculdade de Piadas. E isso é lógico, ninguém ia levar um negocio desses a sério. Imagina só: você estudava anos a fio coisa e tal e depois vinha lá no diploma “Fulano de Tal: Palhaço” ou “Sicrano da Silva: Sacanão”. Imagina só o convite de formatura “A Turma de Formandos em Torta na Cara tem o prazer de convidar V.S. e excelentíssima família para a cerimônia de colação de grau etc. etc.” Ia ter aquela turma sem muito talento que ia preferir enveredar pela “vida acadêmica”, produzindo teses intermináveis sobre anedotas de português, análises semânticas das piadas do papagaio ou então ensaios semiológicos sobre a gargalhada. Não ia dar certo mesmo.

Você nasce humorista e isto é um estigma. É uma força incontrolável em direção à babaquice, não adiante resistir, é mais forte que você. O jovem humorista é muito problemático, tem uma enorme dificuldade em se relacionar com o mundo. Ninguém entende ele, só as suas piadas. Ninguém, muito menos as meninas da escola. O humorista é muito diferente do pessoal que toca rock ou transa MPB cantando “Andança” o dia todo. Ele fica ali na tênue fronteira que separa o crítico do babaca e que, segundo alguns, não existe. Ele não consegue arrumar namorada. Não adianta, as garotas não levam ele a sério. Aliás ninguém leva ele a sério. Só o seu psicanalista.

Todo humorista faz análise. A vida toda. Desde muito cedo. Aí se ele propõe alta a sua terapeuta, ela bota advogado e exige pensão e ele então volta cheio de arrependimento e culpa para mais uns dez anos. Bom, o humorista cresce e passa a exercer a sua profissão. E que profissão.
Não tem dia nem noite, nem sábado nem domingo, nem feriado. Nem o sol, nem a chuva, nem o granizo. Ele tem que ser engraçado. Ele é uma “siderúrgica de piadas”. Não pode desligar a sua “Usina de chalaças”; a sua “aciaria de anedotas”. Ser humorista é pior que ser artista de show erótico: não pode falhar. Nunca. Se o leitor rir, ele o humorista não fez mais que a obrigação. Em qualquer atividade tem aqueles dias que você tá meio sem saco. Aí você falta no consultório, empurra o serviço com barriga, dorme na reunião. Arruma um atestado. Não. Não dá. Ai chega o tal dia. Segunda-feira chuva fria. O humorista brigou com a mulher, está devendo no banco e ele ali, em frente da máquina, tentando bancar o engraçadinho.

É a hora da verdade. Você e a folha de papel. A folha branca, nuazinha ali na sua frente, pergunta ‘E aí? Como é que é?” A sua cabeça está mais deserta que estádio de futebol. Meia dúzia de idéias sem graça assistem àquele “zero a zero” de criatividade. Não dá. Mas você não pode escrever para os leitores “isto nunca me aconteceu antes”. Humorista não pode brochar. Só o Ziraldo.

Aí você vai discutir com o editor que é para ele aumentar a sua mesada. Você sugere um reajuste, um aumentozinho e ele pega logo o “espírito da coisa”: Mas isto é uma piada!!!..” É foda ser engraçado. O estresse da profissão é incrível, pior que médico de CTI. Você não imagina o desgaste de fazer os outros rirem. Isto é, profissionalmente, valendo grana. Do riso dos outros depende o leite das crianças ou as férias em Gstaad. Tudo em questão de segundos. Você tem que fingir que está relaxado, aí constrói a trama e vai conduzindo a anedota até o desfecho. Aí vem o pior, a ansiedade imediatamente antes, na fração de tempo, em que você termina a piada e a audiência ri. Quando ri. É enfarte na certa. Você está numa festa. Se você fosse dentista ninguém pedia para fazer uma obturação ou arrancar um dente, se você é contador ninguém vai te encher o saco para você analisar o último balanço da Mendes Júnior.  Mas se você é humorista, você é o engraçadinho de plantão. Todos querem ouvir a “última” (que últimas), as pessoas já olham para você com risinhos, babando. Aí vão te sugerir “idéias de artigo”, “manchetes ótimas”, “charges hilárias” (você odeia quem fala esta palavra). O humorista é o Banco 24h da Alegria.

No lar o humorista não tem a menor moral. Não manda na empregada, nem no cachorro. Seus filhos dizem pros amigos da escola que o pai toca sax, ou então que está viajando há muitos anos, jamais dizem que o pai é engraçado ou pior, humorista. Você jamais será como o Mário Quintana.
Você só tem um mote. Tem que fazer rir. Você jamais será considerado um “cara sensível”, ao contrário,”é um grosso”, “cruel”, “preconceituoso”, “cínico” ou “doente”. Portanto você jamais vai comer a Bruna Lombardi. No máximo uns apertozinhos na Zezé Macedo.

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