Recentemente, todos os grandes jornalistas do país  relembraram o que estavam fazendo no dia 31 de março de 64 e  eu, Agamenon Mendes Pedreira, enquanto velho e caquético homem de imprensa, também tenho o dever de recordar esta data fatídica e cabulosa. Naquela  madrugada de 64 eu estava fazendo um 69, o que prova que eu era homem à frente do meu tempo. E atrás também. Assim que escutei o roncar dos tanques do General Mourão, corri para a redação do Correio da Manhã que ficava no prédio da Última Hora. Imediatamente, ditei  um editorial furioso  para o Cony que gostou tanto que resolveu assiná-lo pessoalmente com o codinome de Adolfo Bloch. Enquanto isso, num canto da redação, o Zuenir Ventura, o Paulo Francis e o Samuel Wainer acompanhavam num radinho de pilha a movimentação das tropas com narração do Jorge Cury e comentários do João Saldanha.

Em seguida fui até o Lamas onde, indignado com a violência dos militares, rachei um Filé Chateaubriand (que era dono dos Diários Associados) com o Otto Maria Carpeaux e o Cabo Anselmo Góes. Depois da sobremesa, peguei um bonde e embiquei para o Ministério do Exército onde procurei o General Costa e Silva para entregar a lista  dos meus amigos comunistas. Naquela época eu era muito ligado à esquerda que era onde se podia comer mais gente de graça. Enquanto eu contava a grana da deduragem junto com o Davi Nasser, o Jean Manzon e o Amaral Neto, percebi que havia um clima de tensão no QG do Exército. Um grave problema institucional impedia o General Castelo Branco de tomar posse: Castelo não tinha pescoço e, portanto, não tinha como pendurar a faixa presidencial.

Na volta, passei pelo prédio da UNE que ardia em chamas.  No meio das labaredas flamejantes, Arnaldo Jabor escrevia uma crônica demolidora contra o regime milico-ditatorial que só seria publicada 40 anos depois no Globo. Logo depois, Jabor entrou para a clandestinidade: foi fazer  cinema brasileiro. Ao perceber que o governo do Jango estava pela bola sete, não tive outra alternativa: me mandei correndo para o Aeroporto do Galeão onde me encontrei com o Brizola disfarçado de freira, o Darcy Ribeiro disfarçado de tirolês e o Ferreira Gullar disfarçado de cowboy. Com a minha roupa de odalisca, me juntei ao grupo e pegamos um avião para um baile à fantasia no Uruguai.

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Perseguido pela Ditadura Militar por causa de seus cheques sem fundo, o combativo jornalista Agamenon Mendes Pedreira acha que, depois do golpe de 64, a vaca foi pro brejo. E ficou lá por 21 anos.
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O governo está fazendo de tudo para evitar a CPI da Petrobrás porque o buraco é mais em baixo. Embaixo do pré-sal.

FIGURAÇA DA SEMANA

brizola[1]

Jango Goulart – Líder gaúcho,curiosamente heterossexual,  Jango Goulart substituiu o presidente Jânio Quadros cujo governo acabou por falta de combustível. Apavorados com a política esquerdista de Jango e o seu parentesco com Brizola, os militares temiam que o Brasil virasse um país comunista ditatorial. Para evitar essa desgraça, os milicos deram um golpe e transformaram o Brasil num país direitista ditatorial. Muito antes do advento do Viagra, os militares decidiram que o Brasil deveria se tornar  uma Grande  Potência  Sexual. E construíram a Ferrovia do Aço, a Transa Amazônica  e o Escândalo da Mandioca entre outras obras de faraônicas de duplo sentido. Deposto e exilado, Jango se mandou pro Uruguai, terra natal do seu cunhado,  Brizola, onde  se dedicou à criação de ovelhas e pedetistas de corte. Hoje, felizmente, o Brasil é um país onde  se  respira a Liberdade e qualquer cidadão pode livremente expressar a sua falta de pensamento nas redes sociais e na imprensa escrita, falada, televisada e distribuída de graça na rua.

 

Agamenon Mendes Pedreira foi contra o regime militar. Preferia a Dieta do Dr. Atkinson.

 

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Quem expressa sua falta de pensamento ajuda muito a formarmos o nosso a respeito deles. Uma menina acabou de me pedir para escrever textos ainda mais curtos na web, decerto porque textos com mais de vinte palavras lhe dão pregui, embora sejam sobre um assunto importantíssimo como o estupro, que deveria importar mais ainda pra ela. E no outro dia discuti com as figurinhas que um petista postava. Devo ter ganhado, porque o cara saiu correndo me xingando e ainda deletou todas as figurinhas.

  2. sempre achei o senhor sensacional.. descobri hoje que está no facebook. teu jornal não se vende mais aqui. uma pena. aqui vai um abração deste teu admirador e fan fanático.

  3. A visão sempre abalizada, mostrando a realidade dos fatos desse período marcante da história brasileira. Agamenon, o Brasil vai ou não vai se tornar uma ditadura de esquerda ? Haverá a classe dominante dos sindicalistas e os puxasacos parasitários e de outo lado os paus-mandados sempre obedecendo.

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