C&P –  Por que você entrou pra Academia Brasileira de Letras? Tava passando pela porta e te chamaram?

JOÃO UBALDO – Estava saindo com minha mulher pra jantar quando toca o telefone e fala o Mestre Afrânio Coutinho, da forma mais autoritária possível: “Pegue urna caneta aí!” Começou a ditar: “Exmo. Sr. Presidente da Academia Brasileira de Letras, comunico-lhe que lanço minha candidatura… Amanhã você datilografa esse negócio e manda pro Austregésilo! Depois passa um telegrama para cada acadêmico!” E eu falei: “Mas, Mestre…” No dia seguinte, até procurei algumas pessoas pra explicar que eu não tinha jeito pra esse tipo de campanha – sabia que isso vinha de um movimento contra a candidatura do Álvaro Pacheco-, mas não imaginei que as pessoas fossem ficar tão putas com a minha recusa. “Então você nunca vai entrar pra Academia! Um escritor do seu nível! Você é um covarde!” Um ou dois dias mais tarde, toca o telefone e outra voz igualmente imperiosa diz: “Alô? João Ubaldo? É o Cândido Mendes! Você pode receber uma comissão de acadêmicos em sua casa, amanhã, às sete horas?” O que eu ia dizer? “Não apareçam aqui!”? Pontualmente, chegaram Cândido Mendes, Nélida Pifíon, Eduardo Portella e Alberto Venâncio Filho. Fiquei querendo sair fora: “Não quero! Não quero!”

C&P – “Prefiro morrer, não quero ser imortal

JOÃO UBALDO – Aí alguém disse: “Vocês ficam esculhambando a Academia mas não querem entrar lá pra melhorar o nível! Vocês só querem falar!” Fiquei sem graça: “Não…” “Então você aceita!” Tiraram uma carta já pronta do bolso! Acabei aceitando, na certeza de que não seria eleito, o Álvaro fazia campanha há muito tempo… Mas aí minha vida mudou completamente! A campanha foi uma coisa horrorosa! Jorge Amado assumiu o almirantado…

C&P Jorge Amado foi o seu PC Farias?

JOÃO UBALDO – Não… mas me infernizou! Recebia uns oito ou dez fax dele por dia! Dando ordens, esporros: “Seu incompetente!” Mandava instruções: “Telefone pro general Lyra Tavares!” Eu adiava… vinha um fax do Jorge Amado: “Incompetente! Telefonou pro Lyra Tavares? Que vergonha!” Uma guerra de nervos!

C&P – Explica pra nós, que somos homens de poucas letras: o que se faz na Academia?

JOÃO UBALDO – A Academia, como eles mesmos dizem – aliás, como nós mesmos dizemos -, é uma espécie de clube.

C&P – Vocês jogam squash? Fazem literatura de baixo impacto?

JOÃO UBALDO (RI) – A maior parte já não tá mais pra fazer aeróbica… Não tem nada fora do comum: é uma mesa um pouco maior do que esta, onde os acadêmicos se reúnem pra conversar sobre literatura. Claro, nem todos ao mesmo tempo, porque são mais de quarenta acadêmicos.

C&P – E você já comeu alguém na Academia? (JOÃO UBALDO RI E BALANÇA A CABEÇA NEGATIVAMENTE.) E vai comer quando? Daqui a pouco, vai receber um fax do Jorge Amado: “Seu incompetente!Mas sobre o que vocês conversam? Se Capitu era fiel? Saem na porrada? 

JOÃO UBALDO – Às vezes tem polêmica. No outro dia, teve um arranca-rabo, mas eu não estava presente. Ninguém acredita, mas a Academia é divertida. Nada de caretice, são uns velhos curtidores, irônicos, que sabem das coisas. Todo mundo é puta velha, conhece todos os macetes da profissão. A Academia não é uma entidade oficial, logo não tem obrigação de fazer nada.

C&P – É por isso que tem baiano pra burro lá! É verdade que ACM forneceu o seu fardão?

JOÃO UBALDO – No dia em que fui eleito recebi um telefonema do Palácio de Ondina: “O governador está lhe mandando um telegrama, assegurando que seu fardão será pago pela Bahia.” Ouvi a voz dele: “Tá falando com o Ubaldo? Deixa eu falar.” Aí: “Alouuu, ilustre representante da esquerda democrática!” O homem é de lascar, né?

C&P – Enquanto baiano você é carlista, antonista ou magalhista?

JOÃO UBALDO – Pelo contrário, sempre escrevi contra ele. Quando ele era ministro das Telecomunicações, escrevi um artigo na Folha, irritado com a esquerda baiana querendo provar que ACM era burro. Escrevi que burro ele não era, mas não fiz isso pra elogiar. Só que o artigo apareceu publicado em A Tarde como propaganda dele. Fiquei furibundo! Nisso, toca o telefone e dizem: “Espere um pouco que o ministro vai falar.” Eu, com aquele brio sergipano, me preparei pra brigar: (COM VOZ DURA) “Alô!” (COM VOZ DOCE E DENGOSA) “Alô, João Ubaldo… aqui é Antônio Carlos… quero dizer pra você que não fui eu que mandei publicar aquele artigo sem mencionar seu nome. Como eu iria publicar um artigo seu, a meu respeito, sem lhe pôr a coisa mais valiosa que é o seu nome? Jamais faria uma burrice dessas! Você mesmo disse que não sou burro…” Ele é bom, viu!

C&P – Baiano quando envelhece fica tudo com a mesma cara, né? Você também vai ficar igual ao ACM, ao Jorge Amado, ao Dorival Caymmi?

JOÃO UBALDO – Igual ao Dorival impossível! Uma vez fui à casa de Caymmi, quando morava na Bahia, e ele estava lá sem camisa, com aquelas contas que usa, aquela barrigona, e sua maleta inseparável do lado. Aquela maleta tem tudo: estetosc6pio, chave de fenda, peça de reI6gio… Ele tava tristíssimo. Brigado com Stella. (FAZ UMA TROMBA COM O BEIÇO). “Senta aí, João Ubaldo…” Sentei. “Você veja, João Ubaldo, o Jorge Amado, casado com a Zélia, uma mulher daquelas…” A Stella estava na sala ao lado, mas de onde dava pra ouvir tudo. “A Zélia, uma companheira, mulher que defende o marido… uma mulher que tem classe… e eu? O que eu arranjo?” E apontou lá pra dentro. A Stella saiu lá de dentro com as mãos na cintura: “Dá, João Ubaldo, um nego desses querendo se comparar com Jorge Amado?!?”

 C&P – Isso é o verdadeiro dengo dos baianos.

JOÃO UBALDO – Lúcio Rangel tinha queixas profundas da Bahia. Contava que foi recebido pra almoço na casa de Jorge Amado, aquela baianada toda, Carybé, Caymmi… “De repente olho e não vejo mais nem o Caymmi, nem o Jorge, nem o Carybé. Fiquei lá comendo aquelas coisas amarelosas… e nada deles aparecerem! Quando levantei pra ir ao banheiro, olhei por trás de um biombo e tavam lá os três FDPs comendo um rosbife suculento com batata frita! Eu fiquei puto!” Jorge Amado logo falou: “Ora, n6s estamos acostumados com essa comida, daí resolvemos variar, não sei o quê…” Então ele aguentou. Depois do almoço levaram ele pra passear, Rampa dos Mercados, o cais, um passeio de saveiro… Ele subiu a bordo, o saveiro começou a sair, aí ele percebeu que os três – Caymmi, Carybé e Jorge – tinham ficado em terra. E eles lá (LEVANTA E ABANA A MÃO) “Bom passeio!” “E eu ali, naquela merda!”

 C&P – Caetano Veloso estudou com Genebaldo Correia. Você, enquanto baiano, estudou com que ladrão? I

JOÃO UBALDO – Não estudei, mas trabalhei com Genebaldo no Jornal da Bahia, onde fui chefe de reportagem. Nunca tive intimidade, mas sempre gostei dele, era boa gente, de fala mansa.

C&P – E por falar em ladrão, você que está no Rio há uns três anos, já foi assaltado?.

JOÃO UBALDO – Quase. Eu acordo cedo, antes de seis horas, e saio pra comprar o jornal. Um dia eu tava chegando em casa e um cara fez: “Psiu! Venha cá!” Achei aquilo uma ousadia: “Não vou, não!” “Venha cá, seu porra!”, e marchou pra cima de mim. Aí gritei: “Severino!” ,porque quase todo porteiro é Severino, e as chances de aparecer algum eram maiores. Realmente apareceu um, dei uma carreira pro portão do prédio e entrei. Quando cheguei em casa começou essa frescura de macho nordestino: me senti humilhado. “Que merda’ Vou descer pra encarar esse FDP!” Peguei uma faca de cozinha, que não corta nem um bife, e desci, mas o cara já tinha sumido.

C&P – Nordestino é macho mesmo?

JOÃO UBALDO – Agora melhorou um pouco, mas no meu tempo de criança havia questões de honra ridículas. Tive colegas que ficaram com os braços marcados pra sempre, porque os mais velhos torciam ou beliscavam e diziam: “Pede a bênção!” E tinha uns que não pediam de jeito nenhum. Passar a mão na bunda de um sergipano era morte certa! Chamar de como também. Mas hoje, com esse negócio de tevê…

C&P – Então já tem sergipano viado?

JOÃO UBALDO (MACHO PRA CARAMBA) – Não! Isso não! Mas tem muito humorista viado, viu?

C&P (MUDANDO DE ASSUNTO) – Você morou também na Alemanha, né? O que é pior: ser escritor num país de analfabeto ou analfabeto num país de escritor?

JOÃO UBALDO (RI BASTANTE) – Me dei muito bem na Alemanha, mas é melhor ser escritor aqui… O que acontecia lá é que eu não saía muito, fazia um frio horroroso, eu ficava vendo televisão… Mas não sou mesmo muito de fazer a noite.

C&P – E o que é pior: morar no Rio ou em Salvador?

JOÃO UBALDO – Apesar de toda a tensão, eu gosto de morar no Rio. Tenho mais amigos no Rio do que na Bahia. Perdi o contato com Salvador, a intimidade com a cidade. É verdade que morei sete anos em ltaparica, mas só ia a Salvador com extrema relutância, pra consertar óculos, essas coisas. Virei um velho caturro, quero chamar as coisas pelo nome antigo, quero que o restaurante tal ainda exista.

C&P Como era morar em Itaparica?

JOÃO UBALDO – Uma das coisas mais interessantes é o dialeto – no sentido inglês – das pessoas. Tem gente que nasceu em ltaparica e nunca esteve no continente. Ainda hoje tem gente que não entendo. A sintaxe é diferente, a ordem das palavras é diferente. Aliás, na Bahia inteira. O tio da minha mulher, paulista do interior, nunca se esqueceu de um baiano que perguntou: “Você quer, Maria, doce?” Os nordestinos em geral não pronunciam as proparoxítonas, daí “Padim Ciço”. Além dos defeitos de articulação comuns ao Recôncavo.Por exemplo: o sujeito chegou prum menino que tava com uma gaiola no trem. “Que passarinho é esse?” “Um “urió.” “E o que ele come?” “‘orne de tudo.” O sujeito foi achando engraçado e provocou: “Mas tudo o quê?” ” ‘orne arroz, ‘orne feijão, ‘orne alpiste…” O cara chamou um monte de gente e continuou: “Que mais ele come?” “orne jaca, orne trigo, ‘orne abóbora…” “É mesmo? Que mais? Que mais?” “Ah, ‘orne o ‘u da tua mãe!”

C&P – É verdade que você saiu de ltaparica porque não conseguia mais escrever?

JOÃO UBALDO – É, era uma aporrinhação, mas aqui é pior, é solicitação demais, no último ano não consegui escrever. Este ano vou me esconder pra poder trabalhar. Toda hora tem um negócio, coisas sociais, textinho em benefício do não-sei-o-quê, minha opinião sobre baile funk...

C&P – Você não é da escola baiana de dar opinião sobre tudo?

JOÃO UBALDO – Não. As pessoas acham que os intelectuais têm opinião formada sobre as coisas mais loucas! Não sei nada sobre baile funk, sobre bloco afro, nem música baiana! É chato eu confessar isso, mas só escuto os clássicos.

C&P Clássico tipo o quê? Sarajane?

JOÃO UBALDO – Não. Caymmi ainda escuto, mas a sério mesmo só os clássicos. Tô cada vez mais impaciente com o resto das coisas. Já tentei me tomar um folião… não consigo, começo a ficar triste.

C&P – Aquelas letras de carnaval baiano dão uma tristeza mesmo...

JOÃO UBALDO – Nessas tentativas compus até um samba enredo: Exaltação a Luxemburgo! Composto numa sessão de porre na casa de Jorge Amado: “Tuas morena faceira / tuas praia tão fagueira / são o orgulho maior I de toda Ásia Menor I Ai Luxemburgo / a terra dos maiores dramaturgo!”

C&P – E nunca escreveu poesia de sacanagem?

JOÃO UBALDO – Já, mas perdi. Tenho um amigo que nega, mas acho que ele guardou pra publicar algum dia, depois que eu morrer… Nunca escrevi muita poesia. Os poucos poemas que cometo ponho nos meus livros, como se os personagens tivessem feito, porque aí, qualquer coisa, uso eles como desculpa. Mas teve um poema que fiz, psicografado aos prantos, que me dá muita emoção. Éum poema do Nego Leléu, em Viva o Povo Brasileiro, uma homenagem a Santa Marta. Saiu de repente, como se eu mesmo não tivesse feito. Aliás, ficou um decassílabo tão perfeito que tive que quebrar os pés dos versos, senão ninguém ia acreditar que o Nego Leléu tivesse feito.

C&P – Do jeito que o Brasil vai, não tá na hora de escrever Foda-se o Povo Brasileiro? (JOÃO UBALDO DA GARGAIHADAS.) Numa entrevista você falou que o povo brasileiro é de direita.

JOÃO UBALDO – Não me lembro disso… mas pode ser. Ninguém sabe mais o que é esquerda ou direita. Muito cedo aprendi que existe FDP em todo espectro do pensamento político.

 

C&P- Você já foi comunista?

JOÃO UBALDO – Tentei ser, como tentei ser folião, mas…

 

C&P – Jorge Amado não te passou um fax: “Seu incompetente! Pegue uma caneta! Exmo. Sr. Presidente do Partido Comunista... ” ?

JOÃO UBALDO – Ele não era mais do Partido. Mas eu li até Marx. Sou o único cara que conheço que leu mais da metade de O Capital. Cheguei a ir numa reunião! Primeiro, tomamos uma cervejinha num boteco. Era tudo secreto, clandestino, tinha codinomes, senhas… e o dono do boteco comentando (BEM ALTO): “Depois que esses comunistas começaram a se reunir aqui, o movimento melhorou muito!” Eram todos meus amigos, porra, colegas de jornal, mas na reunião ficavam sérios, se dirigindo a todos como “camaradas”. Tive aquelas crises de risada que s6 acontecem em lugares onde você não pode rir. De repente disseram uma coisa e a plateia irrompeu nisso: (ESTALANDO OS DEDOS) Não sabia o que era e virei pro colega do lado: “Ô cumpadre, que porra é essa?” E ele (SUSSURRANDO): “São os aplausos. Não dá pra bater palma, pô.” Aí não aguentei (SE DOBRANDO DE RIR). Todo mundo sabia que eram os comunistas se reunindo naquele sobrado! Devo ter inimigos até hoje por causa disso.

C&P – Você já foi preso?

JOÃO UBALDO – Tem um grande cartunista na Bahia, chamado Lage, que ia lançar um suplemento de humor na Tribuna da Bahia, onde eu era editor-chefe. Um/dia, eu tava lá olhando o fechamento da primeira página e tinha um buraco escrito “reservado para publicidade”. Armamos então, do lado, a notícia: “Presidente Geisel falará à Nação.” No outro dia, estou em casa, de madrugada, e jogam o jornal por baixo da porta: aquele espaço era pra anunciar o suplemento do Lage, que ia se chamar A Coisa, e o FDP tinha posto uma latrina rodando, com o título “A Coisa Vem Aí!” E do lado: “Geisel falará à Nação!” Isso me deu uma aporrinhação! Até hoje não acreditam na minha explicação! Me deram o qualificativo de “subversão insidiosa”! (PAUSA) Lembra aquele cara do James Bond, um oriental que tinha um chapéu de ferro?

C&P – Sei, do Goldfinger.

JOÃO UBALDO – Uma vez me botaram horas numa cela da Polícia Federal com um cara igual àquele! Sentei, tentei sorrir pra ele, e o cara todo fechado e com o beiço tremendo. Mas nunca passei noite na cadeia. Fui processado, IPM, essas coisas.

 

C&P – Você jogou futebol?

JOÃO UBALDO – Em time de várzea: no Flamenguinho, de Rio Vermelho, e no São Lourenço, de Itaparica. Comecei como ponta-direita, mas com o peso dos anos passei a recuar, encerrando a carreira na zaga direita.

C&P – Você de zagueiro baiano passou a acadêmico. Júnior Baiano tem chance de entrar na Academia?

JOÃO UBALDO (RI MUITO) – Dependendo das circunstâncias… Como jogador é irregular.

C&P – Por falar em cultura, você é bom de língua, né? Faz sexo oral em quantas línguas?

JOÃO UBALDO (RI) – Inglês, francês… e leio as línguas latinas em geral, até mesmo romeno. Meu portunhol impressiona. (COM SOTAQUE): Impressionei ao próprio Fidel!

 

C&P – O papo com Fidel foi sobre Lucélia Santos?

JOÃO UBALDO – Não, foi antes, no tempo em que era proibido ir a Cuba, quem viajasse pra lá podia ser preso. Uma aventura. Fui ser membro do júri da Casa de Ias Américas. Em Cuba também se fala assim, que nem o garoto do passarinho: ” ‘uba”! No Caribe inteiro ônibus é guagua, mas em Cuba é “‘ua’ua”. Fidel falou comigo umas seis horas! (IMITANDO O F1DEL:) “O Pró-Álcool, Ubaldo… déjame explicá-lo…” Falava sobre tudo! Me lembro que enrolei um exemplar do Granma – o jornal de lá – pra anotar o que ele iria dizer – nunca falava pra imprensa ocidental-, mas não tinha margem de jornal que chegasse! Inclusive, cheguei com o jornal enrolado, parecendo um tubo, e os seguranças me deram uma encarada! Tinham certeza de que eu tava chegando com um punhal dentro pra gritar: “Semper tiranis!(IMITA UMA PUNHALADA)

C&P – E ele ia falar: ” Aé ‘u, Ubaldo!O que você lê por lazer? Ou leitura pra você é trabalho?

JOÃO UBALDO – Eu leio mesmo é por prazer. Leio muita poesia: Jorge de Lima e Cecília Meireles. E leio os clássicos: Montaigne, Rabelais, Shakespeare. Choro…! Não acompanho a literatura atual.

C&P – E cinema, você só vê filmes do século XVII? Tem uma fita aí muito boa, o Encouraçado Potenkin, você viu?

JOÃO UBALDO – Não, mas ouvi falar… é de um tal de Einsenstein, não é? Sou muito John Ford. Não vou muito ao cinema e, em termos de vídeo, sou voto vencido em casa: tenho um filho de doze anos que gosta de ver Van Damme, essas porras….

C&P – Como amigo, você era obrigado a assistir aos filmes do Glauber? Ele era mesmo um cara difícil de lidar?

JOÃO UBALDO – Até que não… era normal. A não ser pelo hábito de andar nu, coçar os “quimba” e depois passar a mão na gente… Glauber é difícil de descrever, s6 tendo convivido com ele… Faz uma falta enorme porque era provocador, um agitador, não importava se você concordasse com ele ou não. Glauber era gong6rico, era delirante! Me lembro uma vez em que ele chegou numa noite de aut6grafos parecendo D. João VI, com toda uma corte atrás. Subiu num caixote, falou pra cacete, aos gritos, e depois foi embora. Fazia muito isso. E se considerava tímido. Uma vez, saí com ele do Cinema Tupi, na Baixa do Sapateiro, e passamos por um pintor de rua expondo quadros. Umas coisas horrorosas: cisnes, montanhas! Veio uma mulher e passou o dedo num quadro. Glauber se levantou (EMPINA O PEITO): “Não toque no trabalho de um artista!” Fez um esporro enorme, e fiquei morto de vergonha.

C&P – Você ficou (APONTANDO PRO LADO): Foi ele! Foi ele! Não falei nada!

JOÃO UBALDO – Tudo virava comício. E, cada vez que ia à Bahia, queria que tudo estivesse o mesmo. “Cadê a Martha Rocha?!” O Hotel da Babia tava praticamente fechado, não tinha nenhum outro hóspede, e ele fazia questão de ficar lá. Um colega nosso da Faculdade de Direito, que apesar de ser da nossa turma enveredou por outro caminho – virou advogado célebre, casou com uma moça de posses, subiu na vida -, resolveu fazer uma recepção pra Glauber no seu apartamento de alta burguesia. Estavam lá todos os amigos recém-adquiridos pelo anfitrião, com suas respectivas senhoras. E Glauber, a estrela da festa, tava felicíssimo porque estavam ali também os seus amigos: eu. Joca, Bananeira… Ninguém percebeu como, mas Glauber tirou uma paranga de fumo do bolso e começou a enrolar um baseado. Algumas senhoras estranharam, mas ninguém notou direito, até ali ele foi de extrema discrição. Mas em seguida acendeu, encheu a sala daquele cheiro de maconha, e começou a perguntar pras pessoas: “Chuif! Chuif! Quer um tapinha?” Pras senhoras! “Uma maconhazinha?” Que rendo ser educado… Como ninguém aceitava começou a gritar pro dono da festa: “Ô Fulano, ninguém quer maconha aqui não, porra?”

C&P – Você fala muito em Glauber, mas não foi influenciado também por João Gilberto?

JOÃO UBALDO – Não conheço ele, sou mais da turma do Joca, do Bananeira… Esse rapaz ganhou o apelido por causa de um hábito muito infundido no Nordeste. Vocês tem uma bananeira no seu quintal? Abre-se um orifício circular no caule da bananeira, num diâmetro adequado, de acordo com o calibre ou o gosto do freguês. Esse orifício já é lubrificado naturalmente. Diz que em dia de ventania é uma beleza, porque a bananeira mexe…. O Bananeira ganhou o apelido porque ele tinha todo um bananeiral à disposição dele!

 

C&P – Um harém de bananeiras! Você experimentou?

JOÃO UBALDO – Acho que sou o único baiano da minha geração que nunca experimentou bananeira nem jega.

C&P – Mas por quê? Os bichinhos não queriam nada com você?

JOÃO UBALDO (TRISTE) – É, nunca achei a jega da minha vida…

C&P – Dizem que você é um bom imitador, né? Quem você imita melhor: Gore Vidal, Truman Capote ou Oscar Wilde?

JOÃO UBALDO – Já que você me provocou… Encontrei um poeta na casa de um amigo que disse várias vezes que me admirava, sentou do meu lado, disse: “Eu sou poeta”, e tal. Respondi: “Ah sim, que bom.” Aí ele: (ANIMADO) “Já que você me provocou…” , e disparou a recitar! Então, já que me provocou, vou contar uma história trágica nordestina. Uma família do Sul do país resolveu visitar o Nordeste, ir correndo aquelas áreas do interior, romanticamente, no seu fusquinha. Chegaram por uma estrada secundária a um lugar lindo, uma lagoa cristalina, azul, com lavadeiras na beira. Um oásis naquele lugar seco. A mulher do casal falou: “Ah, vou dar uma nadada.” Caiu na água e, quando chegou no meio da lagoa, começou a se afogar. O marido saiu afobadíssimo pra puxar a mulher. Isso sob a plateia de lavadeiras. A mulher veio com a barriga dessa altura, cheia d’ água, e o cara começou a aplicar uma respiração boca a boca. Não deu nem tempo de tirar ela toda da lagoa, assim que botou a cabeça pra fora começou… (IMITA RESPIRAÇÃO BOCAABOCA). De vez em quando, parava e cuspia a água pra fora E… (RECOMEÇA A TÉCNICA). O pessoal olhando e ninguém entendendo. Aí, o menino diz (COM SOTAQUE ARRETADO): “Moço, pelo amor de Deus, tira o eu da mulher de dentro da lagoa que vai esgotar a água!” É o drama da seca…

 

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ao todo.

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