C&P – O que você fazia antes de ser artista?
DERCY – Nasci artista e nunca deixei de ser. (PAUSA) É engraçado como Deus prepara as coisas. Com 13 anos fiquei noiva.

C&P – Noiva? De um rapaz?
DERCY – Porra, ia ficar noiva de um viado?! (RISOS) Era uns dez anos mais velho do que eu. Foi o único amor que até então eu tinha conhecido, o único carinho que tinha recebido, porque não conheci minha mãe, minha família era muito pobre e eu não tinha nada. Amei, amei muito – talvez pela única vez na minha vida – e depois a família dele mandou ele ir embora, pra não haver esse casamento. Chorei pra caralho, pedindo a Deus pra trazer ele de volta!

C&P – A família dele achava que vocês eram gentinha?
DERCY – Foi por preconceito de cor também, tinham muitos negros na minha família. Abria o portão e saia aquela crioulada! E eu era também muito irreverente. Mas por ignorância. Hoje não, sou porque quero, faço irreverência comercialmente, e sei quando devo e não devo ser. Na época, era minha defesa. Então ele foi afastado, sofri muito, mas foi isso que me fez fugir de Madalena e me deu a oportunidade de ser feliz pra caralho!

C&P – Por que você fugiu de Madalena?
DERCY – Não tinha homem! Os rapazes quando faziam 16 anos iam embora. Eu era virgem como Nossa Senhora e ainda falavam que eu era puta! Um dia, a companhia da Maria Castro passou por Madalena, e tinha um cantor, Eugênio Pascoal, que fez seresta debaixo da minha janela. Depois, quando me ouviu cantando, perguntou se eu não queria ser artista. Então depois que ele partiu, fugi de Madalena pra ser cantora de teatro. (GESTO IMPACIENTE) Ora, e o resto não conta porque vou guardar pra escrever no meu livro!

C&P – Você tá escrevendo uma autobiografia?
DERCY – Eu, Maria Adelaide Amaral e algumas assistentes estamos pesquisando a minha vida pra transformar em livro. Atravessei todo esse deserto, fui vivendo, e agora que tô quase no fim vou colocar tudo em livro. E bom porque essa gente conta muita mentira dos outros. As minhas quem vai contar sou eu.

C&P – Mas termina pelo menos essa história. Você fugiu atrás do Pascoal?
DERCY – Não atrás dele, mas do Teatro. Eu tinha ajudado muito a Maria Castro em Madalena, levei ela em varias casas, passei bilhetes… Com Pascoal então não houve nada, nem mesmo um papo maior, apenas subiu no palco, cantou “A Malandrinha” e dedicou para mim. PQP! Levei uma surra FDP, fiquei mais desmoralizada ainda, mas adorei! Fiz uma rifa de corte casimira – não tinha porra de corte nenhuma – peguei o dinheiro e me mandei. Maria Castro me aceitou na companhia, apesar de levar um esporro do marido dela: “Essa menina é chave de cadeia”!

 

C&P – Foi ai que você começou como comediante?
DERCY – Não, era cantora. O Pascoal fazia dueto com uma velha, achou muito melhor fazer comigo! (LEVANTA E APANHA UMA FOTOGRAFIA DELA FAZENDO POSE COM ELE) Olha como eu era a cara da Giulia Gam! Quer dizer, ela é que parece comigo. A comicidade foi um acaso na minha vida. Eu odiava falar em cena! Uma ocasião, em “Casa de Caboclo”, Durvalina Duarte faltou e fui substituir ela, puta da vida. Era SÓ levantar o telefone e dizer: “Alô? Ah, sim senhor… Sr. Jararaca já vem…” Mesmo assim, encontrei uma maneira de fazer uma molecagem: o telefone era de canequinha e quando atendi dei uma cuspidinha. Tuf! Bateu no publico! (RISOS) Virei e disse:“Ah, desculpe”. (MAIS RISOS) Não tinha nada pra falar, né… Correu todo mundo da coxia pra ver quem era que fazia o publico rir tanto. Ai comecei a cuspir mesmo!

C&P – Dercy Gonçalves, a precursora dos punks!
DERCY – Maria Helena Matarazzo pedia pra eu cuspir nela! As pessoas gostam é de sacanagem! E sacanagem eu falo mesmo! Quem vai ao meu show é pra ouvir palavrão! E não mudo nada. Uma vez me chamaram pra fazer um espetáculo num convento em Recife e foi tanta buceta e caralho que nunca mais me chamaram de volta! (RISOS)

C&P – Não te incomoda isso de ser conhecida como “a mulher que fala palavrão”?
DERCY – Pra caralho! Porque eu sou séria. Isso me dei. O pessoal me para na rua: Dercy! Fala uma sacanagem ai”! Tenho vontade de meter a mão na cara! Outro dia, chegou um cara: “E ai, Dercy”? (DA UM TAPÃO NO BETO SILVA QUE QUASE JOGA ELE NO CHÃO) E eu não faço questão de tratar bem as pessoas… Eu não sou uma pessoa boa. Sou, sim, uma pessoa justa! Mas bondade em excesso… até a Vida de Cristo eu não suporto!

C&P – Mas continuando a história que você vai contar no seu livro: como foi que você atingiu O estrelato?
DERCY – Persistência. Sempre fui desmoralizada, puxada pra trás, promovida como a “desbocada”, a “boca maldita”, a “Língua de trapo”, porra, eu tava vendo outro dia uns títulos de artigos sobre mim e nenhum falava bem. Mas teve um engraçado: “Dercy teve uma tuberculose e quatro maridos e se livrou de todos os cinco”.

C&P – Que historia é essa de tuberculose?
DERCY – Foi em 1930, 32. A gente já estava no Rio, encenando “Casa de Caboclo” nos escombros do incêndio do Teatro São José e eram cinco sessões por dia. E em toda sessão pediam bis! Um horror! Fui direto pro sanatório! Foi nessa época que conheci o pai da minha filha, um mineiro que assistiu à peça e me convidou pra almoçar. Vou mostrar pra vocês como eu era magrinha! (TIRA OUTRA FOTOGRAFIA DA PAREDE) 42 quilos! Fomos num botequim da Rua da Carioca. No meio do almoço, eu tossi e… (GESTO DE OLHAR PRUM LENÇO COM SANGUE). Ele então me levou pra tirar radiografias. Pascoal, que vivia comigo, já tava tuberculose.

C&P – Ah, quer dizer que em Madalena não rolou nada, mas depois…
DERCY – É uma historia… Ele pensava que eu era mulher e quis dormir comigo. Eu não sabia se eu era, se não era… falavam que eu era uma puta! Nos estávamos em Leopoldina. Ou foi em Itaperuna? Fui pro quarto com ele. Me lembro da minha camisa de dormir: tinha escrito na frente “Arroz Agulha. Arroz de primeira”. (risos) Vesti a camisa de dormir, me lavei numa bacia, deitei e fiquei esperando. E tal. Ele foi fazendo e eu fui deixando. “Tira”. Tirava. “Abre”. Abria. “Fecha”. Fechava. Eu aflita, esperando o resultado daquele movimento. (RISOS)

C&P – Pô, eu tô aqui ouvindo, já tô aflito!
DERCY – Tô deixando… não tô pondo a mão em nada… tipo “mãos ao alto” (LEVANTA OS BRAÇOS). Ai ele: (UMA CRAVADA PRA FRENTE). Me violentou. Estuprou mesmo. O sangue foi longe! Quando me vi com sangue escorrendo pelas pernas, sentei o pé nele e sai correndo e gritando pela porta do hotel. Em Itaperuna! (RISOS) Vivi com esse cara por cinco anos sem ter mais nada com ele, dormindo como irmãos e companheiros, cada um com sua vida.

C&P – Ficou com trauma de sexo?
DERCY – Por muitos anos. “Por que vou fazer isso, pra me sujar toda?”

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C&P – E quem tirou o trauma?
DERCY – Quem me despertou para o prazer? Ah, meu filho, ai já é meu livro! (RISOS) Quando apareceu esse cara, gostei pra caralho! (SATISFEITA) “Podia estar vivendo há muito tempo assim!” Mesmo hoje, muitas mulheres não sabem o que é o prazer. Mas muitas! Minhas irmãs mesmo, que casaram com 13, 14 anos…

C&P – Da pelo menos uma pista desse garanhao.
DERCY – É um artista famoso… mas não de Teatro. Nem era brasileiro. Fazia dupla com o irmão: dois verdadeiros atletas.

C&P – Você dormiu com os dois? (RISOS) Tem muita diferença entre a sacanagem de antigamente e a sacanagem de hoje em dia?
DERCY – Quer saber de uma coisa? Sacanagem não existe, existem os sacanas. O sexo é divino. Se Deus não tivesse a esperteza de botar o sexo, ninguém fazia filhos. O quarto em si, a vida sexual, é maravilhosa, aquela loucura, sem cabimento, sem ordem, sem esquema! Isso não é sacanagem.

C&P – Mas naquela época não tinha anticoncepcional. Isso não limitava as pessoas?
DERCY – Nem precisava: se faziam abortos. Eu fiz oito. Trepava e tirava. Comia e vomitava.

C&P – E sua filha, você teve porque quis?
DERCY – Não, porque trepei. Quando sai do sanatório, o futuro pai da minha filha, aquele mineiro, ele me disse: “Agora você segue a sua vida”. Me alugou um quarto… mas não por querer que eu fosse mulher dele, era por caridade mesmo. Eu não era mais inocente, já sabia como é que se dava, então fui eu que dei pra ele. Ofereci, deixei ele à vontade, ele quis, e trepamos. Fiquei gravida. Na primeira trepada. E agora? Não queria filho de jeito nenhum! Ele falou: “Mas você acabou de sair do sanatório”… Tive que deixar. Dei tanto soco na minha barriga! PQP! Enfiei talo de couve, disseram que era bom, quebrou o talo lá dentro… mas não saiu a criança.

C&P – Casamento é como o Banco do Brasil: uma instituição falida?
DERCY – Sou a favor do casamento, mas não como agora. Antigamente a coisa era bem feita: você namorava, noivava e depois de muito tempo casava. Hoje se come logo a semente e nem se sabe o que se esta comendo.

C&P – Você é contra sexo antes do casamento?
DERCY – Eu acho que devia haver uma certa reserva, pra não jogar fora a semente em lugar errado.

C&P – As meninas hoje tão dando muito fácil?
DERCY – Não, a orientação tá sendo errada. Mas estamos no ano 2000, o século passando, as coisas estão viradas e a gente não sabe se é pra bem ou pra mal. Agora, eu não quero entrar nesse esquema.

C&P – Mas antigamente, enquanto a mulher ficava em casa boazinha, o homem ia pra sacanagem na rua.
DERCY – Eles dizem que é machismo, mas o homem sempre esteve mais superior do que a mulher. Ele é que semeia a semente. Não existe mal em semear. Agora, nos mulheres não sabemos o valor que temos. A mulher é frágil, é repeli e não imagina a sua qualidade. Eu sempre me valorizei.

C&P – E no mundo teatral, como era antigamente? Era igual a hoje ou tinha mais romance?
DERCY – Olha, eu não sei… (LONGA PAUSA) Eu não amei, fiz negócios. Lutei pra sobreviver. Eu respeito a mim. Não quero ser a segunda, quero ser eu. Quero seguir, atravessar vida e chegar com força. Não queria nem sofrer nem fazer ninguém sofrer. Dos homens que tive na vida, só casei no uma vez, com um jornalista. Ele queria trepar mas eu só dava se ele casasse.

C&P – Que maldade!
DERCY – “Então caso com você.” ‘“Fechado.” Casamos num 31 de dezembro. Nem eu nem ele tínhamos dinheiro. Só tínhamos uma aliança. Fomos morar num quartinho na Rua Senado que quando a cama abria, a porta ficava fechada. Casamos, fui fazer matinê mais duas sessões à noite, e ai dormir. No dia seguinte é que trepamos. Ali eu já conhecia um bocadinho a historia e gostei um pouquinho. Ele também era esperto, sabia das coisas, como tratar uma mulher, e fique 20 anos casada. E fiel. Não gosto de traição. Trair um homem é estar traindo você mesma. A mão de obra de uma traição muito grande!

C&P – Tem que ter um armário enorme!
DERCY Não dá, é preferível não ter medo de abrir a porta.Ele foi um companheiro ótimo, me ensinou muito, me tirou da Praça Tiradentes pra uma vida social melhor, me deu outra categoria como artista, já entrei pro Teatro Recreio como estrela… muito inteligente, aprendi muito com ele.

C&P – Vocês não tiveram filhos?
DERCY Oito! Tirei todos! E mais tivesse, mais tirava. Matei tudo. Eu não tinha condições de ter uma porrada de filhos.

C&P – Então você viveu sua vida toda pra seu trabalho?
DERCY – Vivi pra mim mesma! Por isso tenho 87 anos, uma cabeça ótima, e sou uma mulher esperta ainda.

C&P – Você não sente a solidão?
DERCY – Não, sempre vivi sozinha. Aqui, não conheço a vizinha do lado. Mas não sou infeliz: à noite, me apronto e vou pra rua. A madrugada é que é minha vida. Odeio sol! Não gosto do dia, incomoda minha pele. Meus olhos têm vida porque eu não pego sol.

C&P – Você ganhou muito dinheiro como artista?
DERCY – Não fiquei rica, ganhei dinheiro pra viver. Minha vida é que foi rica. Sabe com quem eu conversava na noite? Juracy Camargo, Custodio Mesquita, Luis Peixoto… Convivi com gente que me orientou muito. Viajo muito, conheço mais da metade do mundo.

C&P – Qual foi sua última viagem?
DERCY – Singapura, Bangcoc e Bali, com minha filha e minha neta.

C&P – Foi fazer o que em Bali? Pegar onda?
DERCY – Não, mas já fui duas vezes ao Havaí ver aquelas ondas de 40 metros. Singapura tem muita mocidade, muito movimento, muita coisa bonita, mas Bangcoc foi mais importante pra mim. Vocês sabem que já mandei construir meu túmulo, né? Todo mundo ficou: “Por que isso? Você tá com ideia de morrer”?

C&P – É que a Dercy só pensa em ser enterrada! (risos)
DERCY – Não, houve uma grande espiritualidade nisso. Eu tenho uns presságios. Um dos grandes passeios de Bangcoc é no cemitério, onde os grandes mestres estão enterrados. Tem um deus lá de 120 metros, em ouro. Engraçado é que ele deita exatamente como eu deito (RECLINADA, APOIANDO A CABEÇA NA PALMA DA MÃO). As vezes fico o dia inteiro assim. Eu tava no cemitério… ai ouço dentro de mim… não sei se ouvi, se não ouvi, que porra é essa, não precisa levar em consideração aquilo que vou contar. Mas escutei: “O túmulo não é pra você. É pra mim. Eu me chamo Melarrel”. Ele tinha sido assassinado por motivos religiosos e não teve túmulo. E eu teria vindo pra fazer um túmulo pra ele. Por que eu tinha que fazer uma pirâmide oriental? Não tenho nada com o Oriente! Mas construi um monumento assim em Madalena e botei: “Força, Luz e Energia”. Mais nada. Todo de mármore e dentro das linhas orientais. Um túmulo de casal.

C&P – Pra você e pro Melarrel?
DERCY – Quando terminei, deu um alivio dentro de mim! Porque enquanto tava construindo o túmulo descobriram que eu tava com um câncer no estômago e tinha que operar ontem. E o túmulo que eu tinha que acabar? E o espetáculo que eu fazia no Teatro Bandeirantes? Casa lotada! Eu tava exatamente levantando dinheiro pra terminar o túmulo. “Se a senhora insistir em não se operar, pode arrebentar essa porra ai e ai não tem conserto”. Telefonei pro Boni e ele me arranjou uma UTI ambulante pra ficar na porta do teatro. Se eu piorasse, acabava com O espetáculo e eu ia pra UTI. Consegui fazer os três espetáculos certinhos que faltavam para eu ter o dinheiro! Fiz o primeiro, animada. No segundo, fui broxando. O terceiro, quando terminou… não me lembro de nada. Desacordei. Me levaram pra UTI, me levaram pro hospital – isso era domingo – começaram a me operar na terça às quatro horas da tarde, a operação durou oito horas, e não me lembro de nada! Tirei o estômago todo! No dia seguinte, acordei, tava num quarto com um canudo daqueles na boca, mas fiquei numa paz e numa tranquilidade!

C&P – Você passou por barras de saúde como câncer e tuberculose, mas hoje taí com 87 anos e esbanjando vitalidade. Qual é o segredo para chegar nos 87 com esse corpinho de 86?
DERCY – Não tem segredo. É ter saúde. Não bebo, não fumo, não faço dieta, como qualquer comida e não tenho hora para nada.

C&P – Nada de álcool?
DERCY – Nunca gostei. (PAUSA) Eu adoro é uma cachaça! (RISOS) Mas tenho medo dela como o diabo da Cruz ! (MAIS RISOS) Vi o que aconteceu com um primo meu que bebia. Mas cada um tem sua vida, o seu traço marcado, você tem o        seu livre arbítrio e vive como quer. Ninguém escolhe o tempo pra viver. Não escolhi ter 87 anos. Nunca sonhei com isso. Alias, não sou de fantasiar. Sou de determinar. Uma vez, eu tava na maior merda, a Globo me pôs na rua, fui processada, tomaram meu carro e meu telefone, fiquei devendo… falei: “Vou ganhar na Loteria”. Botei todas aquelas colunas do meio e tal: 13 pontos. Paguei tudo e ainda comprei um apartamento aqui em Copacabana.

C&P – Quem te processou ?
DERCY – Imposto de Renda. Meu contador era muito relaxado.

C&P – Por que a Globo te pôs na fia? Foi o Boni?
DERCY – Até hoje eu queria saber, nunca perguntei. Não foi o Boni: ele só trouxe o recado. “Boni, o que tá havendo? Dou 9O de Ibope!” “Olha, Dercy, a ordem é: nem que dê 100.” A Globo na época era uma estação popular, tinha “O Homem do Sapato Branco”, “Casamento na TV”, “Telecatch”, o meu “Dercy de Verdade”… Eu fazia de tudo, num programa de três ou quatro horas, e ao vivo! Eu era a Hebe da época, fazia entrevistas, cantava, recebia atrações… E a Globo era mais simples: vinha o Boni e o Oswaldo Loureiro na minha casa e a gente ficava até de madrugada escrevendo e discutindo o programa. Hoje ficou sofisticada! Não entendo. O programa de vocês: não consigo entender!

C&P – Nem a gente! E quem te botou na Globo?
DERCY – A mim, ninguém. Fui uma das primeiras a entrar na Globo. Walter Clark entrou muito depois de mim!

C&P – Foi você que chamou o Roberto Marinho? (risos)
DERCY – As personalidades da Globo eram eu, Walter Clark, Mario Wilson, Osvaldo Loureiro e Haroldo Costa. Ninguém tinha nada, ninguém sabia nada, ninguém tinha dinheiro! Que luta pra fazer um programa! Era uma câmera SO! Segurei essa merda muito tempo e hoje vejo o desprezo que eles têm por mim. Fico muito triste. Não me consideram como cast da Globo, não me chamam pra nada!

C&P – Você gostaria de fazer o que? Novela?
DERCY – Não é o que eu gostaria, é que eles não poderiam me perder! Pois se vou nas outras estações e faço um sucesso danado, por que na Globo não faço nem entrevista? Vão ser burros na PQP! Eu sou uma personalidade! Podia ser só pra ficar ali dizendo “Vá pra puta que o pariu!“, mas tinham que me botar.

C&P – Mas nem pra Escolinha do Professor Raimundo?
DERCY – Você acha que vou pro necrotério?! (GARGALHADAS) Pra fazer “beijinho beijinho pau Pau”?! Vá tomar no CU! Chico, vá pra PQP que eu não vou! (RISOS) Ficam lá 12 pessoas pra dizer duas frases e dois palavrões.

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C&P – O que você tá achando dessa geração nova que tá aparecendo agora na televisão: Clodovil, Hebe Camargo…? (RISOS)
DERCY – Hebe é muito simpática e sincera. Uma pessoa séria. Pra mim só tem uma coisa: elogia demais, fica meio falso. Clodovil é um estilo que odeio! Não admito que defeitos sexuais sejam apresentados em público. Ele não tem o direito de passar para meus netos o que ele tem vontade de fazer na cama.

C&P – Você não gosta de viado?
DERCY – Não é que não goste, mas eu não caso com viado (RISOS). Clodovil é inteligente e não precisa ser tão radical nas ideias. E um exagero. (PAUSA) Gosto de Jô Soares. Assisto todas as noites. Mas eu ouço mais rádio. Gosto da CBN, de noticias, de política.

C&P -Você já namorou algum político? Quantas avenidas você levou pra cama? Viginia Lane, por exemplo, revelou que era amante oficiai de Getúlio Vargas.
DERCY – Bom, eu também posso dizer que fui amante de Jesus Cristo! (GARGALHADAS) Nunca fui muito namoradeira. Lutava muito pela minha subsistência e minha independência.

C&P – Sim, mas devia haver um assédio ferrenho, né. Você, bonita, atriz, com fama de atrevida… O caminho do sucesso naquela época não passava por entrar no Catete?
DERCY – Tive alguns namorados mas nenhum político. (PAUSA) Trepei tão pouco, sabe, não sou muito chegada. Sempre foi assim, desde menina. Eu era muito ativa, muito saliente, mas sempre brochíssima.

C&P – Mas a imagem da Dercy Gonçalves não é essa! A Censura, por exemplo, achava que você era o Capeta em pessoa.
DERCY – Olha, não fui tão censurada assim. Naquela época não se falava palavrão pra poder ser censurado. O que censuravam, o que achavam imoral, era minha mão. Quando eu aparecia na televisão só pegavam isso aqui (DO PESCOÇO PRA CIMA). Eu nem tentava colocar palavrão porque sabia que não deixavam mesmo. Eu mesmo censurava minhas peças. Agora, depois que abriu, pô! Falo mesmo! Não vejo moral no país pra me censurar agora!

C&P – Mas quando você saiu da Globo não foi por pressão da Censura?
DERCY – Não sei. Como eu disse, não quis nem perguntar, queria era ir logo pra outra emissora. Eu dava 90 de Ibope, tinha o Brasil na mão, e achava que todas iam me chamar. Pelo contrario: me escorraçaram! Quando cheguei no programa do Flavio Cavalcanti, por exemplo, “Um Instante Maestro”, ele: (puxando ela para um canto e cochichando) “Dercy… Dercy… recebi um recado do DOPS que eu não podia te contratar…” Meu coração veio na boca, né. Olha, o programa começou e fiquei dando 10 até pra quem não entrava! O medo era tao grande… aquele choque que ele me deu… veio um pavor… “ Daqui a pouco vou presa!” No dia seguinte, recebi um buquê de rosas do Flavio dizendo que tinha sido obrigado a me demitir. Aquilo me doeu muito. Eu fui no DOPS: “Ou me prende ou me diz por que não posso aparecer na televisão! Agora quem vai jogar merda no ventilador sou eu! “ Entrei lá pra brigar mesmo! Queria saber quem tinha me proibido de trabalhar. Eles la ficaram: “Calma Dona Dercy, não fomos nós… Gostamos muito da senhora…” Pô! Liguei de volta pro Flavio Cavalcanti e ele disse que não foi ele, foi o Boni, que também negou… ficou um CU de boi que acabei dizendo: “Quer saber de uma coisa? Não foi ninguém”! (RI) Fui-me embora para Portugal.

C&P – Você posaria nua para uma revista?
DERCY – Vou te contar, a Playboy uma vez me convidou pra fazer uma entrevista. “Vocês pagam ?” “Não, é de graça”.“Então vamos fazer o seguinte: eu poso pra vocês e vocês fazem a entrevista”. Eu, já com 80  anos, propus isso. O homem levou um susto! Tenho uns truques lindos, eu sei como ficar bem, mas ele não aceitou. E não fez a entrevista. Foi burro! Podia ter blefado, botava tudo escondido nas fotos, eles iam fechar a playboy.

C&P – Na época do teatro de revista tinha muita viadagem ou isso também é invenção da Globo?
DERCY – Tinha muito mas era discreto, né. Os bailarinos todos eram viados, mas tinha muito homem, como Antonio Moreno, Mario Lago…

C&P – Como foi a sensação de desfilar com os peitos de fora?
DERCY – Aquilo ali, eu tinha pedido pra fazerem uma roupa semi-nua. Meio peito de fora, pra não ficar escandalosa. Uma roupa de filo.Tinha uma merda presa aqui que toda hora caia (ABAIXO DOS PEITOS). Eu suspendia. Caia. Eu suspendia. Caia. Tirei. Não foi nada premeditado. Inclusive, eu tava afim de esculhambar o pessoal daquela roupa, mas depois fez tanto sucesso que não falei nada.

C&P – E muita gente ficou com inveja.
DERCY – Não tenho os peitos feios. Além disso, eu tava em pé, e ainda ficava assim – (OMBROS LEVANTADOS, SAMBANDO) – mais bonito ficaram. Sempre tive um corpo bom, não sou estragada, mas nunca fiz ginástica: é natural. Tomo pouco banho, não sou de tomar banho todo dia. Não fui criada com esse habito. Eu raspava o braço com caca de vidro…

C&P – A perereca da vizinha finalmente ta presa na gaiola?
DERCY – Sabe que essa musica tem a ver com a Psicanálise? Eu tava em cena e lembrei da minha terra. Eu roubava linguiça da vovô, enfiava dentro da calça e pulava a cerca pra comer a linguiça com minha amiga, uma vizinha, no quintal dela. Quando vou pulando a cerca, uma pererequinha verde me pula dentro da blusa.

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C&P – Era a linguiça. Perereca gosta muito de linguiça.
DERCY – Vovô tá lá tocando as galinhas: “XÔ! XÔ”! Eu tinha acabado de passar numa arapuca que a gente usava pra pegar passarinho. Uma confusão! Então eu tava em cena e pensei numa musica assim: “A perereca da vizinha tá presa na gaiola / xô, perereca”! Não tinha gaiola, não tinha vizinha, não tinha perereca… saltando… só aquela coisa do pensamento

C&P – Livre associação.
DERCY – A melodia era um ponto de macumba que aprendi em Madalena. Quando essa mistifica estourou provocou uma loucura tão grande, mas ela não é nada.

C&P – Parece letra de musica de Jorge Benjor (RISOS). E a Regina Casé, ela é sua sucessora ?
DERCY – É uma grande atriz, mas não acho ela engraçada. Ela se perde, se encabula. Ela não quis fazer o “Rock da Aranha” e então me recomendou. Acho que ela não gosta de ser cômica.

C&P – Depois que você largou o caralho eu soube que você adotou o baralho. Você ganha dinheiro com isso ou continua se fudendo ? (RISOS)
DERCY – Toda noite eu jogo! Tranca, pifpaf… eu quero é matar a noite! Mas eu gosto do jogo e não é pelo dinheiro. Ja fui a Las Vegas, Atlantic City, adoro as maquininhas! É tao bom, né?

C&P – Você devia viajar de navio que além de ter cassino, ainda pode arranjar um noivo. De preferência um milionário texano.
DERCY – Que nada… ninguém quer nada comigo. (confidencia) Sou ruim de cama… Sou muito preguiçosa. Ainda mais agora: se ficarem aqueles estertores na minha cabeça, posso até ter um derrame!

C&P – E sapato? Alguma perereca ja quis cantar na tua gaiola?
DERCY – Uma menina, em Porto Alegre. Eu estava no Hotel City e quando a moça entrou pra servir o café, ela aproveitou e entrou também. Roupinha de colégio. “Quê isso, menina?!” “Eu gosto muito de você.” “Eu também, muito obrigada. Mas de manhã assim é ruim.” (RISOS) Ela então sentou na cama e já me cercou assim (PONDO O BRAÇO NA FRENTE). Pensei: “Ai, vai ter briga aqui”!

C&P – Briga de aranha!
DERCY – “Você vá embora, menina, não gosto disso, nem sei o que é isso, não quero saber, não quero aprender…” “Mas Dercy…” Uma menina esperta! Olha, foi preciso gritar, chamar o dono do hotel, pra botar a menina pra fora. Ela ficou fazendo escândalo do lado de fora do hotel: (GRITA) “Dercy! Eu te amo”! (RISOS)

C&P – Você então é virgem de sapata?
DERCY – (COM CARA DE SACANA) Eu acho o seguinte: se eu tivesse dado, eu não ia te contar! (GARGALHADAS)

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ao todo.

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