A redação do Casseta e Planeta, numa luta incessante por resgatar a história de um dos maiores (é o maior, mas pediram pra sermos humildes) grupos de humor do Brasil, publica agora uma reportagem feita pela revista Mundo Estranho no longínquo ano de 2005 contando como foi a criação do tabloide O Planeta Diário, por Reinaldo, Hubert e Claudio Paiva. Pra não ficar algo gigante e megalomaníaco, optamos por fazer esse post dividido em algumas partes que irão ao ar toda terça. Deliciem-se.


Falar com os humoristas Hubert e Reinaldo sobre a história do Planeta Diário é como fazer uma grande viagem no tempo – de volta aos anos 1980.

Por Leila Magalhães, do Rio de Janeiro

Hubert e Reinaldo sabem muito bem que foram protagonistas de uma época muito especial, um período marcado por transformações – sociais, políticas, comportamentais. À frente do jornal, eles eram os verdadeiros homens de imprensa, título dado ao fictício Perry White, “diretor” da publicação. Hubert foi o primeiro a dar entrevista, no Projac, a central de produção da Globo, de chinelo, bermuda e com o livro Mercadores de Arte, de Daniel Wildenstein, embaixo do braço. Reinaldo apareceu em seguida, vestido de meleca. “Me desculpe se estou meio verde, acho que comi algo que não me fez bem”, disse, rindo. No dia seguinte, sem figurino, soltou o verbo. Depois, me procurou várias vezes para acrescentar coisas. Dá para ver que o que ambos alcançaram foi com muito suor.

  • Como foi o começo do Planeta Diário?

Hubert: Tudo era artesanal. Eu e Reinaldo ainda morávamos com os pais e a gente fazia o jornal na casa do Cláudio Paiva. Só mais tarde passamos a ter redação. O engraçado é que a gente era cartunista, mas não desenhava nada para o Planeta. Só textos e fotos. Era como renegar o passado e partir para algo mais moderno. Nós três escrevíamos, datilografávamos e diagramávamos, sem computador. Minha mulher, professora de português, fazia a revisão. A gente mesmo levava o material para imprimir e, na gráfica, virava a noite corrigindo fotolito – tudo à mão. Foi uma fase muito legal porque acabou sendo um embrião do trabalho de hoje, no Casseta & Planeta, em que os sete fazem tudo junto.

Reinaldo: Nós íamos a sebos do centro do Rio de Janeiro e comprávamos revistas estrangeiras dos anos 1930 e 1940. Elas vinham em pacotes enormes, que a pagávamos por quilo. Depois, cortávamos as fotos e remontávamos com notícias falsas baseadas em fatos reais. Era tudo na cola e tesoura, essas coisas obsoletas. Mas a gente já tinha o know-how desse trabalho manual graças ao trabalho de muitos anos no Pasquim. Na verdade, nossa saída para o Planeta Diário ajudou a enterrar o Pasquim, que já estava numa fase meio declinante. A parte ruim é que os salários atrasavam. A boa é que tínhamos muita liberdade para experimentar. Foi por isso que sentimos que havia espaço para um novo jornal, com uma proposta menos política e partidária que a do Pasquim.

  • Que proposta era essa?

Hubert: Um novo jeito de fazer humor. Até então era tudo muito politizado, de esquerda demais. Queríamos uma coisa mais boba, mais engraçada e mais maluca mesmo. Nunca vou me esquecer da imagem do primeiro jornal que saiu da impressora. Foi uma coisa muito emocionante, que vai ficar na memória. Todos os momentos de criação, junto com o Reinaldo e o Cláudio, também eram muito emocionantes. A gente inventava aquelas coisas que depois viravam moda. O jornal era bem novo e já estava saindo da marginalidade.

  • De onde veio o nome?

Hubert: Planeta Diário é o nome do jornal do Superman. Acho que a ideia foi do Cláudio Paiva e todos achamos legal. O espírito era exatamente esse: fazer um jornal de mentira, inventado, falando dos acontecimentos da atualidade. E, assim como o Superman, nosso jornal não existia, só trazia notícias de ficção.

  • Como as pessoas reagiram esse novo tipo de humor?

Reinaldo: Muito bem. A reação foi ótima, sensacional. Lançamos O Planeta Diário e o sucesso foi quase instantâneo. Parecia que estava todo mundo querendo aquilo. Em pouquíssimo tempo a tiragem saltou para 100 mil exemplares por mês.

Hubert: No terceiro número já tinha virado febre. A gente virou famoso, falavam à beça do jornal. Graças a esse sucesso de vendas a gente arrumou uma editora, a Núcleo 3, que um ano mais tarde passaria a editar também a revista Casseta Popular, que até então era só um jornalzinho, feito no mimeógrafo. Foi assim que a gente conheceu os caras. A gente fazia o Planeta e eles, a Casseta.

Reinaldo: Desde o início formamos uma boa parceria. A gente fazia um jornal tablóide e eles, uma revista, o que aumentava o universo de leitores.

  • E vocês acabaram inaugurando uma nova era de humor…

Hubert: Exatamente. Mas é preciso lembrar que nos anos 1980 havia um movimento para mudar o país. Era uma época de muita efervescência, com o nascimento do rock brasileiro, Paralamas, Titãs, Kid Abelha, o teatro besteirol no Rio, o sucesso dos cartunistas Angeli e Laerte em São Paulo. Pela primeira vez em muitos anos os humoristas faziam piadas de costumes, sobre a própria sociedade. Hoje é fácil perceber como foi uma época rica. Era o início da abertura e tinha muita coisa represada. Parece que veio uma grande explosão e nós também estávamos lá.

  • A censura não pegava no pé?

Reinaldo: Não. Talvez os caras achassem que a gente era tão maluco que não valia a pena se meter. E também porque o Brasil estava virando um país democrático mesmo, com liberdade de imprensa, esses luxos… O Planeta, com suas manchetes desvairadas, era a prova disso. Quanto às pessoas que eram sacaneadas, acho que elas sacaram que era mais sensato não reclamar de notícias tão malucas porque chiar significaria levantar ainda mais poeira.

Hubert: Na verdade, às vezes a gente se impunha um pouco de autocensura. Lembro de umas histórias barra-pesada, envolvendo o Tancredo Neves [então presidente eleito, que ficou doente e nem assumiu o cargo]. Mas o fato é que a liberdade era muito grande. A gente escrevia qualquer coisa, o que é diferente da realidade de hoje, na televisão. O jornal, por natureza, era mais elitizado. Agora, a gente fala para um número muito maior de pessoas. É preciso encontrar o tom certo para que todos entendam. No Planeta a gente fazia qualquer coisa que vinha à cabeça.


Até a semana com mais, acompanhe os outros números que virão pela tag A História do Planeta Diário.

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