Semana passada publicamos aqui a primeira parte da entrevista que a jornalista Leila Magalhães da Revista Mundo Estranho fez com os Cassetas Hubert e Reinaldo, a respeito da história do Planeta Diário. Pra publicação não ficar MUITO longa, resolvemos dividi-la em duas partes. A primeira você pode ler AQUI, a segunda (e última) está aqui embaixo. Aproveite!


Falar com os humoristas Hubert e Reinaldo sobre a história do Planeta Diário é como fazer uma grande viagem no tempo – de volta aos anos 1980.

Por Leila Magalhães, do Rio de Janeiro

  • Mas houve alguns problemas com a Justiça?

Reinaldo: Sim. Nessa coisa de pegar material velho e recortar para republicar, uma vez pisamos na bola e pusemos uma foto mais recente. Um cidadão nos processou por uso indevido de imagem. Tivemos de pagar uma boa grana. Além disso, a DC Comics, que é detentora dos direitos autorais do Superman, ameaçou nos processar. Nos quadrinhos o Clark Kent trabalha no Planeta Diário, cujo editor é o Perry White. Mas nós havíamos criado um personagem muito maior. Ele escrevia os editoriais e aparecia em fotos ao longo de todo o jornal. Era tão divertido que a Folha de São Paulo nos convidou para fazer uma coluna semanal na Ilustrada, assinada pelo Perry White. Demos uma nova vida a ele, muito mais interessante. Na coluna, era como se ele fosse uma espécie de Roberto Marinho, um grande homem de imprensa. Depois até compilamos os melhores textos num livro, Apelo à Razão, que trazia também um perfil fictício dele. Pois bem, o pessoal da DC disse que entraria na Justiça se não parássemos de usar Perry White e O Planeta Diário. Fechamos um acordo e tiramos o Perry White do jornal. Mas eles não tinham os direitos sobre O Planeta Diário, só sobre Daily Planet. E o Planeta continuou nosso!

  • Como vocês viviam na época?

Hubert: No início do Planeta eu tinha 25 anos. Um ano depois já estava casado. Minha família me deu muito apoio sempre. Estudei arquitetura e cheguei a trabalhar como arquiteto, no final da faculdade, fazendo bicos em escritórios. Mas já era cartunista – e curtia muito mais, é claro. Quando terminei a faculdade fiquei naquele dilema. E optei pelo humor.

Reinaldo: Eu entrei no Pasquim aos 23 anos, em 1974. Morava com meus pais, que sempre deram força para minhas ideias. Se eles podiam, apoiavam minhas maluquices. Compraram cavaquinho, violão, contrabaixo, banjo, pagaram curso de serigrafia… Show. Eu fiquei em casa o tempo que quis, mesmo fazendo essas coisas fora do normal. Os filhos dos amigos deles estudavam direito, medicina, engenharia. Eu fui para a Escola Villa-Lobos [de música]. Totalmente de vanguarda, experimental. No começo dos anos 1970 participei de um conjunto chamado Equipe Mercado e cheguei a trabalhar como compositor de jingles. Depois é que me interessei pelo cartum. E fiz curso para professor de inglês, porque achava que tinha de ter algo para me sustentar enquanto me aventurava como músico e cartunista.

  • E hoje?

Reinaldo: Posso me dar o luxo de continuar desenhando, apesar da falta de tempo. Todo mês colaboro com uma revista de música, a Jazz+. E rabisco durante as reuniões de pauta do Casseta & Planeta. No final da reunião a sala fica cheia de desenhos meus e do Hubert. Enquanto rolam as discussões nós ficamos desenhando, igual criança em sala de aula. Nada a ver com os assuntos em pauta. E também nunca deixei de tocar, embora sem estudar. Hoje toco numa banda de jazz, a Companhia Estadual de Jazz, que se apresenta umas quatro vezes por mês em bares e centros culturais.

Hubert: Nunca pensei claramente que a vida fosse tomar o rumo atual. Mas hoje, olhando em retrospectiva, acho que nós, do Planeta, e o pessoal da Casseta já tínhamos a vontade de entrar para o show business. A gente queria dar esse salto em direção à parte mais artística. No colégio eu fazia teatro. E o pessoal da Casseta gostava de se apresentar em festas para ganhar dinheiro. Acho que desde cedo existia essa vontade de aparecer.

  • Por que o Planeta acabou?

Reinaldo: Porque ele, assim como o Pasquim, teve um ciclo de vida. Chegou a hora em que cansou. Na época do lançamento, Planeta preencheu um espaço que parecia estar esperando por ele. E a gente, desde o começo, quer fazer um jornal de massa, não uma coisa underground, para meia dúzia de iniciados. Com o tempo, o ciclo começou a se encerrar e a gente passou a se interessar por outras linguagens, como a televisão.

Hubert: Aliás, nossa ida para a TV foi um pouco confusa porque a gente continuou fazendo o Planeta – e a comer o próprio rabo. Nosso humor começou a deixar de fazer sentido na banca. O jornal terminou porque a gente percebeu que ele estava esvaziado. Infelizmente acabou meio para baixo. Os últimos números saíram ralos, finos. Mas jornal nunca acaba legal mesmo.

  • A ida para a televisão foi um sucesso ainda maior…

Hubert: Sem dúvida. Até porque acho que a gente nunca parou de fazer o Planeta. Até hoje a gente continua usando humor para falar de atualidade. A coisa foi evoluindo para a televisão, que é rápida e dinâmica e tem outro formato. Antes era três caras fazendo, hoje são sete e mais um monte de gente em volta ajudando na produção.

Reinaldo: Acho que conseguimos fazer essa transição porque nosso estilo (e também o da turma da Casseta Popular) sempre foi baseado na paródia. Primeiro, a paródia da imprensa. Depois, a paródia da televisão. No meio do caminho fizemos o show, que também era nesse mesmo estilo e que também marcou mais um ponto a favor na nossa parceria com os cassetas. Eles já tinham experiência de fazer shows na hora de estruturar o Vou Tirar Você Deste Lugar, no Jazzmania, somamos experiências. Foi o início de um novo ciclo, o multimídia: continuamos a fazer jornalismo com humor em outros canais de comunicação. Logo depois lançamos o LP Preto com Buraco no Meio, seguimos fazendo show, entramos para a Globo para escrever os roteiros do TV Pirata… tivemos a chance de dar um passo de cada vez, sempre nos adaptando às novas linguagens.


Mais pra frente publicaremos também a história da Casseta Popular, portanto fique ligado aqui no Baú do Casseta, falou, mané?

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