Na busca incansável da redação do Casseta Online pelas origens do Casseta & Planeta e, após a publicação da fabulosa história do Planeta Diário (leia a PARTE 1 e a PARTE 2 nos links), trazemos pra vocês agora a história do periódico criado por Helio de la Peña, Marcelo Madureira e Beto Silva, a Casseta Popular. Essa entrevista foi dada à Leila Magalhães da Revista Mundo Estranho em Março de 2005.


TUDO POR UMA MULHER

Assim nasceu a Casseta Popular, numa aula de cálculo na faculdade de engenharia, porque os meninos estavam cansados de ver tanto homem.

Por Leila Magalhães, do Rio de Janeiro.

Vasculhar o passado de cada um dos Cassetas e ouvi-los falar horas a fio de suas vidas é rir em tempo integral. E o riso liberta a alma. Hélio de La Peña se apresentou a mim vestido de Chicória Maria e na entrevista, que durou mais de uma hora, contou histórias maravilhosas de muito trabalho para criar um jornal de humor. O olhar maroto dele é permanente e não há uma frase que não tenha tom de piada, mesmo quando fala de fatos reais de sua vida. Marcelo Madureira quase não me deixou entrevistá-lo. Enquanto se maquiava para gravar, pôs o gravador colado à boca, para que o barulho do secador não atrapalhasse, e falou sem parar. Perguntava e respondia ao mesmo tempo, esbanjando inteligência. Claudio Manoel é outro compulsivo. Anda rápido, fala rápido, pensa muito rápido. E está sempre muito ocupado. Engata um assunto no outro e não se separa dos óculos escuros. Beto Silva é educadíssimo. Cumprimenta com dois beijinhos, sempre oferece o lugar para a mulher se sentar primeiro e ouve mais do que fala. Bussunda, que eu já conhecia porque fui caloura da turma dele no curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é o mais tímido, por incrível que pareça. Muito simples e calmo na conversa, é também piadista em tempo integral. E como fala! Sua entrevista rendeu mais de 13 páginas no computador. Juntos, eles compõem um mosaico do que foi a experiência de desafiar limites e reinventar o humor no país. Lembranças do tempo em que Beto Silva trabalhava como engenheiro e deixava Bussunda e Claudio Manoel morarem de favor em seu apartamento.

Os dois, duríssimos, cantavam: “Ganho quinze de salário/pago oito de alugue/vou pra casa do caralho/vou morar e Padre Miguel”.

  • Como foi a criação da Casseta Popular?

Hélio: Em 1977, Beto Silva, Marcelo Madureira e eu fazíamos engenharia e estávamos no movimento estudantil. E a quantidade de partidos clandestinos em busca de um espaço na universidade era uma coisa meio estranha. Principalmente porque os caras falavam em melhoria da qualidade do ensino nenhum deles assistia à aula. Eles eram tão sérios, tão sisudos, que gente achou que devia fazer alguma coisa para sacanear essa turma. Que tal um jornalzinho? Mas não como todos os outros. Nossa ideia era montar um que não fosse “representativo”, que não espelhasse o pensamento da maioria dos estudantes. Tinha de ser uma coisa só nossa – e engraçada. Durante uma aula de cálculo, nós três fizemos um pacto de sangue, sem sangue, de que no semestre seguinte o jornal ia sair. Aí a gente transformou a casa do Marcelo Madureira num verdadeiro aparelho. Minha mãe, professora, tinha um mimeógrafo a álcool – que foi nossa primeira impressora. O Marcelo fez um desenho bem tosco que, junto com uma manchete pessimamente diagramada, virou a capa. As outras páginas foram datilografadas. E foi assim durante várias edições.

Marcelo: Eu já tinha experiência de editor desde o ginásio, quando montei um jornal de humor, no Colégio de Aplicação, e percebi que a melhor coisa do mundo não é escrever para jornal, é ser dono de jornal. Na engenharia segui nesse rumo.

  • E o nome? Veio de onde?

Hélio: Da semelhança sonora de casseta com gazeta [sinônimo de jornal]. E tinha tudo a ver, porque o que mais tinha na engenharia era casseta.

Marcelo: Aliás, a verdadeira razão de ser da Casseta é que não tinha mulher no curso. Esse era o principal assunto do jornal. No fundo, no fundo, o jornal era uma tentativa de comer alguém – e não comemos.

Hélio : É verdade. A gente fazia, um esforço enorme, muita força. No fim, até deu para arrumar umas mocréias. Na Belas Artes, na Arquitetura, em outros centros onde havia mulher nós vendíamos o jornal e ficamos conhecidos. Só que éramos uns nerds, muito feios, sem o menor charme, o menor atrativo…

  • Como foi a reação do público?

Hélio: Fizemos 100 exemplares e vendemos tudo na hora do recreio. As pessoas se surpreenderam porque estavam habituadas a pegar papéis seríssimos falando dos destinos da nação e do mundo. E o jornal falava da falta de mulher… O pessoal se amarrou porque só tinha bobagem. Aí a gente falou: “Pô, esse negócio vai dar certo!”. Logo depois teve um encontro nacional de engenharia em Ouro Preto. Preparamos outra edição e novo sucesso. A Casseta disseminou-se entre as escolas de engenharia. Foi quando fomos apresentados ao Daniel Senise [artista plástico], que fazia ilustrações para o jornal do centro acadêmico e passou a colaborar conosco. Rapidamente começamos a imprimir na máquina off-set do próprio centro.

Aliás, a missão da gente era se aparelhar do aparelho do movimento estudantil.

  • Alguém se incomodou com esse sucesso?

Hélio: Sim, os próprios caras do movimento estudantil. A gente era aliado ao Partidão [o Partido Comunista Brasileiro]. Chegamos a ser filiados, mas não tínhamos carteirinha porque ainda vivíamos a paranoia da clandestinidade. O pessoal do MR-8 se sentiu muito incomodado e entrou numa de querer transformar a Casseta num jornal “dos estudantes”. Tanto que uma vez a gente saiu para o recreio e no mural de avisos havia uma convocação de reunião de pauta da Casseta Popular. Como assim?! Aí os caras disseram: “Se é dos estudantes, é de todo mundo, todo mundo tem direito”. Fomos logo avisando que ninguém tinha direito a nada e os caras foram chamando a gente de autoritário.

Marcelo: Também a universidade começou a se incomodar. Na época, eu era diretor do DCE e representante dos alunos na congregação. Um dia o decano mandou me chamar, mostrou um exemplar da Casseta e perguntou: “Sabe quem faz isso?” Eu respondi na maior seriedade: “Não”.


Pra acompanhar a continuação dessa série, faça pela tag A História da Casseta Popular.

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