Após o boom de yuppies e cleans e outras viadagens dos últimos tempos, a última moda em LA, NY, SP e na PQP são os office-men. Indivíduos encarregados de fazer serviços de escritório, como um boy qualquer, só que com muito mais classe e elegância.

O estilo do auxiliar do seu escritório, assim como o bairro onde você mora, o modelo e o ano do seu carro, são símbolos de status, espelhos da sua situação. Não adianta nada você ter uma limusine BMW, passar o fim de semana em Bali e comprar o iate do Trump, se ao levar os papéis para ele assinar, o seu boy entra todo suado na Trump Tower, vestindo um jeans rasgado, uma camiseta do Macaco Tião e, na hora de vir embora, pede um trocado pro Donald, “…é pro transporte, tá sabendo, é que eu ganho mal paca!“. Um episódio destes e pode dizer adeus àquele seu sonho de ser capa da Forbes, da Times, da Newsweek e assunto da coluna do Paulo Francis.

É uma mera questão de marketing, é, isso mesmo, Marketing! Os office-men são basicamente parecidos com os office-boys. Todos se conhecem e comentam entre si tudo o que acontece nas empresas onde trabalham, portanto, sabem mais da vida dos seus concorrentes que qualquer outro indivíduo na face da terra. Assim sendo, são fontes importantíssimas de informações e, como tal, têm de estar satisfeitos com a situação deles dentro da empresa, sob risco de, quando insatisfeitos passarem o dossiê completo e suas atividades para a concorrência, causando o maior rebu, queda das ações, crises internas, escândalos, falência e em última instância, a sua prisão.

Em São Paulo, a moda já pegou e é comum vermos antigas casas de fliperama, paraíso dos office-boys, sendo transformadas em casas de video-poker. As antigas calças jeans, as camisetas com estampas ridículas e o tênis Motoca cederam lugar a Ralph Lauren, Gucci, Lacoste e Calvin Klein. O tradicional cigarro “Simidão” agora pertence ao passado. Qual o office-men que não tem uma cigarreira Cartier cheias de cigarros Dunhill, é óbvio.

Em Nova Iorque a coisa já chegou a níveis extremos. Messer Schmidt, 24, office-man de um grande corretor de wall-street desfruta de regalias invejáveis. Seu patrão paga às companhias de ônibus da cidade para que Schmidt possa trambicar com toda classe, mesmo fora do ponto, enquanto o seu Mercedes descansa na garagem junto à limusine do big boss. Messer ainda conta com outras mordomias como uma banca de jornal na sua cobertura da quinta avenida, só para poder Ier o Notícias Populares local, pendurado do lado de fora sossegado. Este fenômeno vem mudando o dia-a-dia das ruas nas grandes cidades. A indústria de revistinhas de sacanagem tem sofrido grande prejuízos com o aumento do poder aquisitivo da moçada. Já as prostitutas não têm do que se queixar. As fabricas de camisinhas ampliaram o seu mercado, melhorando sensivelmente o seu desempenho, enquanto os médicos dermatologistas vêm perdendo uma grande parte da sua clientela.

Em São Paulo, o Pensilvânia vem produzindo marmitas especiais para os office-man, com os preços variando entre US$30 e US$60, no que já se tornou a maior fonte de renda da casa. Enquanto isso, milhares de vendedores de cachorro-quente trocam de atividade. Na noite, as mudanças ficam ainda mais evidentes. O Gallery, hoje o grande reduto dos office paulistas, só toca hip-hop e o serviço de buffet agora serve quibe, coxinha de galinha, ovo colorido, torresmo, canapés de mortadela e coca-cola de máquina em copos descartáveis.

Tudo nos conforme, como manda a etiqueta. Cassinos clandestinos ganham verdadeiras fortunas, enquanto auxiliares executivos bem-sucedidos apostam sob que concha está a bolinha. A indústria do consuma descobriu uma mina de ouro. Empresas reformulam posicionamentos e objetivos, novos produtos são lançados, outros recebem nova abordagem publicitária, como no caso das colas para sapateiros, que no início deste fenômeno social perderam público de maneira assustadora. Porém, seguindo tendência do mercado e demonstrando agilidade, logo lançaram embalagens de luxo. Através dum pesado esforço de mídia em TV, revistas, radio e cinemas que passam filme de sacanagem, trabalham uma nova imagem para o produto, frisando o status que ele proporciona, além do barato, é claro. As vendas aumentaram muito e a indústria do ramo vende como nunca. Na luta pelo mercado quem ganha é o consumidor. O produto evolui agora, em meses, mais do que em toda a sua história, já tendo sido lançado, inclusive, uma versão do produto em pó, muito mais prático e mais limpeza.

O look de escritório invadiu as ruas do mundo e tomou de assalto as passarelas. Yves Saint Laurent, no seu ultime desfile, mostrou um visual office-descontraído que empolgou o público, com muito jeans Fiorucci falsificado e camisetas de surf, skate e Iron Maiden. A relojoaria Patec-Philippe voltou a faturar alto com o lançamento do seu primeiro modelo digital, que vem equipado com memória especial para linhas de ônibus e de trem, função para pac-man e Fliper eletrônico, além da pulseira feita com borrachinhas de dinheiro. A Maison Cartier lançou a sua nova coleção de joias, com uma linda equipe de modelos desfilando brincos e colares feitos com clips para papel de ouro, enquanto rodavam pastas de arquivo, feitas de couro de crocodilo, nas pontas dos dedos, Paris adorou.

Mas a office-mania não é só futilidade e comércio de modismo. A demanda por conforto nas atividades de escritório nunca foi tão grande e tão poderosa. A Xerox tem obtido rendimentos exorbitantes, mesmo a nível de multinacional, com o lançamento da copiadora portátil que, aliás, pode ser girada na ponta dos dedos como uma pasta de arquivo qualquer. As indústrias de computação desenvolveram programas capazes de reconhecer firmas e autenticar documentos, com segurança, à distância, através de terminais especiais. A Sony em breve estará lançando o grampeador a laser e a Mitsubishi promete para fins do ano que vem o lançamento do guarda-chuva eletrônico supercompacto.

É a ascensão de um estilo de vida. Uma nova classe a ser respeitada. Uma nova força política, como ficou claro na última sexta-feira, quando o congresso instituiu o direito de atraso e o direito ao troco do táxi, para toda a classe dos auxiliares de escritório. Fatos desta natureza tem acontecido em todo o mundo, talvez este seja o caminho para uma nova era, com todas as nações unidas como urna roda de hip-hop, ou numa fila de banco que nunca anda, todos iguais, marcando de cheirar cola depois do expediente.


Publicado originalmente na Revista Casseta Especial, Nº18, de fevereiro de 1989

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