A língua portuguesa, talvez por ter sido inventada por portugueses, sempre faz tudo pelo lado mais difícil, nunca faz nada pela lógica da expressão. É tudo muito especifico. Temos um tempo verbal para cada hora do relógio e gerúndio e particípio de sobra. Figuras de linguagem, hipérboles, onomatopeias, etc… A língua portuguesa é foda, nenhuma outra tem cacofonias como ela! Numa só frase em português podemos ter todos os ingredientes para uma orgia: a voz ativa, a voz passiva e o sujeito oculto desenvolvendo uma ação no predicado…

Para compensar a falta de três letras (a saber: o K, o Y e o W), nós temos crase, til, acento agudo, acento grave 8, para evitar que algumas letras “u” acabassem se transformando em duas letras “I”, o trema foi vendido para o uso exclusivo do senhor Orestes Qüercia, que é de Campinas, a terra onde o acento agudo está sempre no .

O português a, decididamente, uma língua inventada por quem não entende de meias palavras. A quantidade de vocábulos inúteis deste idioma é tão incrível, que alguns indivíduos, ainda tentam justificá-lo e até mesmo valorizá-lo, dizendo que a língua portuguesa é mais rica que as outras. É como se nós, brasileiros, tentássemos nos vangloriar de ter muito mais cédulas em circulação do que os Estados Unidos, ou como se o Zico andasse por aí se gabando de ter participado de mais Copa do que o Brito. Não é a quantidade que conta.

A verdade é que a profusão de disparates deste idioma é inominável. E a única vantagem disso é que existe algo para foder com os caras que são bons em química e matemática. A língua portuguesa é, realmente, pródiga em minúcias e caprichos, mas nada nessa merda de idioma é tão sem nexo quanto os seus coletivos. Ou você, por acaso conhece alguém que chame uma penca de chaves, de “molho”? Ou uma caralhada de gafanhotos, de “nuvem”? Pra começar, pra que um coletivo, se os idiotas, pernósticos e viadinhos que utilizam tais coletivos, falam “molho de chaves” e “nuvem de gafanhotos”? Pra que esta redundância? Porque não monte de chaves e monte de gafanhotos? E por que, então, apenas alguns grupos são beneficiados com coletivos específicos? E por que continuar chamando cachorrada de matilha?

É mais do que óbvio que esta parte do idioma necessita de reformas urgentes. Também é óbvia que não há ninguém mais indicado para esta tarefa do que a gente, uma publicação idônea, intelectualizada e que leva o português à sério (afinal o cara disse que não ia mais vender pão fiado para a gente e está cumprindo). Pra início de conversa, vamos oficializar alguns coletivos que já estão em voga, mas que não são reconhecidos em nenhum livro de gramática, nem pela minha professora de português e menos ainda pelo revisor deste texto, que, como vocês já devem ter percebido, não é dos mais rígidos, nem dos mais esforçados.

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Vamos, portanto, tirar estes coletivos da clandestinidade e dar-lhes um outro status.
Agora eles vão ser coletivos regularizados, com carteirinha de sócio do Aurélio e direito a aparecer em provas de vestibular e tudo.

Urge também a criação de alguns coletivos para classes menos favorecidas como as lavadeiras, os torneiros mecânicos e os office-boys. Afinal como estes indivíduos podem ter associação de classe, se pela língua portuguesa eles nem ao menos se reúnem?

E, para encerrar esta reforma com chave de ouro, para que o mundo e todos os seus idiomas nos tomem como exemplo, vamos achar um novo coletivo para lobos, pois “alcatéia” é foda!


Publicado Originalmente na Revista Casseta Popular, nº 25.

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ao todo.