Billy Brother deixa rolar a fita com mais um sucesso comprado. Aquele jabá tinha-lhe rendido uma boa grana. Não era sua primeira armação e ele já estava bem perto do seu sonho maluco – largar a rádio e passar a concorrer com a De Millus e a Valisère, vivendo de rendas. Isso lhe veio à cabeça, ao tirar da gaveta um sutiã que ganhou de uma fã, sua ouvinte do show dos Bairros.
Billy Brother estava no ar há mais de quinze anos e não aguentava mais ouvir as mesmas músicas, desde seu primeiro programa. “Eu lutei muito para chegar até aqui, garoto. Fui obrigado a encher o dono da emissora de porrada, até ele confiar no meu talento. E no meu cruzado de direita”. E quem vê Billy hoje, desfilando em seu Maverick cor de abóbora, não pode imaginar o passado daquele crioulo gordo, suado e falador.
Ele começou de baixo, como ajudante de pivete e olheiro de boca de fumo. Seu destino estava traçado, mas ele não se conformava com tão pouco. Foi aí que ele resolveu comprar um caderno de caligrafia e exercitar sua letra por longas noites. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, sua chance chegaria e ele poderia finalmente ocupar a vaga de escriturário no ponto do bicho mais nobre da Baixada. Em pouco tempo, porém ele sacou que aquela não era a sua. Gostava de uma vida mais dinâmica e a contravenção tinha um ritmo bastante sedentário, o que levava Billy a tomar quase seis litros de água por dia. Ele queria mais, ele queria ação.
Billy resolveu tentar a vida numa grande empresa. Mas a polícia chegou na hora, levando
Billy na mão grande. O grande Brother teve que dar um tempo, um grande tempo, na Ilha Grande. Ah, ele fez muitos planos e muitos amigos. Chegou até a se oferecer como editor para um rapaz que estava escrevendo um livro sobre o cárcere. Mas o rapaz não quis lhe adiantar um cu. Depois disso, Billy cortou relações com Graciliano Ramos.
Ele saiu da cadeia por baixo, depois de percorrer algumas galerias de esgoto. E teve que enfrentar a dura realidade do mercado de trabalho. Os tempos eram outros e ele, enquanto negro e enquanto marginal, estigmatizado pela sociedade racista e preconceituosa, não tinha vez nas quadrilhas de maior projeção. “Precisamos de uma moçada mais clarinha, negão.”
Era sempre a mesma ladainha. “…queremos vagabundos loiros e de olhos azuis. Tamos de saco cheio de ter problemas com os porteiros paraíbas e com os movimentos negros…” Mais uma vez, ele, um negro, estava reforçando aquela imagem. Mas, logo começou a escurecer e ele se confundiu com o breu.
Billy, porém, não veio ao mundo para fazer gol contra. Ele tinha de se virar, nem que precisasse apelar. E apelou. Toda semana, Billy Brother raspava a cabeça de seu irmão caçula e vendia o cabelo nos sinais, como Bombril caseiro e mais barato.
A vida tem dessas coisas. E Billy Brother, o maior e mais pesado DJ do seu dial, costumava dizer: “Depois de Bonanza, sempre vem o Repórter Esso…” – referindo-se à programação da extinta TV Tupi. E isso era no início dos bailes soul. Billy usava uns sapatos coloridos, de sola tão alta, que ele tinha que subir num guarda-roupas, para calça-los. Ele organizou esses primeiros bailes. E inventou o hip-hop brasileiro, usando vitrolas com defeito e os discos arranhados pelo Gato Barbieri. Hoje, Billy se decepciona, quando alguém desconhece o trabalho de um disc-jóquei. “Muita gente pensa que é mais um serviço da Embratel, de dar as barbadas do páreo pelo telefone”.
Billy Brother. Um dia você vai ouvir esse nome. E vai desligar o seu rádio.


Publicado originalmente na revista Casseta Popular, nº 20.

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ao todo.

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