Cada um procura ganhar o “pão de cada dia” escolhendo uma profissão adequada a sua personalidade. Tem gente pacata e pouco ambiciosa que passa a vida inteira sentando atrás de um volante de Formula 1, vendendo drogas numa boca de fumo, ou pendurado num trapézio de circo.

Certamente este não é o futuro que espera um contador. Essa raça de homens intrépidos, habituados a viver em meio ao clima árido dos Balanços Patrimoniais e Demonstrativos de Resultados.

A começar pela sua formação, a vida de um guarda-livros não é moleza. Antes de começar a trabalhar o indivíduo é obrigado a passar quatro anos de sua vida isolado numa escola de contabilidade, lugar inóspito e deserto, onde é praticamente impossível o desenvolvimento de qualquer tipo de vida inteligente.

Ayrton Senna, na realidade, queria ser contador, mas reprovado no psicotécnico da Arthur Andersen, viu-se obrigado e dedicar-se ao automobilismo para o alivio de sua mãe.

Para ser um bom contador é necessário, antes de mais nada, o desapego às facilidades modernas. O contador tem que gostar da vida rústica e sem confortos.

Acampado num escritório, acompanhado de uma velha máquina de calcular, rolinhos de papel, clips, um Kardex, lápis vermelho – para indicar os prejuízos – e lápis azul – para sublinhar os lucros -, um canivete para apontar os lápis e borrachinhas. São estes artefatos que compõem o kit de sobrevivência de um contador. E é só com isso que o destemido se embrenha por dentro dos Balanços, cheios de armadilhas contábeis. Prevenido, ele toma o cuidado de levar consigo uma Provisão para Devedores Duvidosos.

Um bom contador é um homem de têmpera, quase alucinado. Coração de aço, nas suas veias não corre sangue e muito menos Liquid Paper pois, como todo mundo sabe, uma boa contabilidade não admite rasuras. Ousado e inquieto ele só teme o tédio e a mesmice cotidiana.

O contador desconhece o medo, e passa noites e mais noites chafurdando no meio de balancetes pantanosos, rasteja esgueirando-se pelas despesas financeiras, quase se afoga num mar de Duplicatas Descontadas e Contas a Receber. E uma vida muito interessante onde a depreciação é acelerada.

Um contador experiente tem coração de pedra, pois no exercício de sua profissão já viu coisas horríveis que aterrariam qualquer pessoal normal. Concordatas Preventivas, Falências Fraudulentas, Insolvências, Caixas Dois e Passivos Descobertos. Tem que ter muito estômago para aguentar este Vietnã.

Quando chega a noite, exausto, o contador monta seu acampamento no meio das Contas de Ativo entre Terrenos e Instalações Industriais e o Estoque de Produtos Acabados. Aí acende um cigarro e posa para uma propaganda do Camel. É uma vida diferida, cheia de percalços, subcontas, planilhas e orçamentos de última hora. Nunca o Previsto coincide com o Realizado.

O contador é um homem frio e calculista. Afinal não pode se apegar a nada que não esteja com a plaquinha de Ativo Permanente.

Mulher e filhos são coisas incompatíveis com a sua vida, uma família o deixaria Imobilizado Permanente, além do mais é muito difícil para uma esposa conviver com um homem que não tem hora para sair, nem para chegar. Sempre metido em aventuras perigosas onde ele, o contador, pode acabar seus dias boiando afogado num tonel cheio de Patrimônio Líquido.

Um contador quando, eventualmente, escolhe uma companheira, esta deve ser obrigatoriamente uma mulher especial, mesmo porque para uma mulher normal é difícil entender as práticas contábeis geralmente aceitas.

Conta-se que a Bruna Lombardi se separou do Ricelli e deixou a carreira para morar com um contador. Juntos os dois abandonaram a civilização e foram viver isolados numa grande empresa, num departamento esquecido de O&M. Tempos depois o contador, de saco cheio da Bruna, trocou-a pela Nastássja Kinski.

Aliás, em matéria de sexo os contadores transam todas. São Ativos e Passivos, pois vividos e experientes, sabem que a todo crédito corresponde um débito e vice-versa. Admitem inclusive, num Balanço, engolir o Líquido, mesmo depois de receber o Bruto. (Tava todo mundo esperando essa, hein?!)

Existem muitas lendas sobre a vida glamourosa de um contador. Dizem que ele vive cercado de belas mulheres, carros esporte, aviões à jato e maquinas de calcular último tipo.

Até Hollywood, cansada de James Bond, Rambo e filmes catástrofe, resolveu investir pesado em filmes de contabilidade mesmo sabendo que são produções caríssimas com enormes gastos em formulários, carimbos, arquivos e carbonos.

O Spielberg inclusive já criou um novo Indiana Jones Contador que, depois de derrotar uma quadrilha de fiscais do ICM em busca de propinas, enfrenta e vence em luta singular um Leão do Imposto de Renda. No final da fita, o herói, dá um discreto abano para a mocinha e sai em direção ao poente montado no seu fiel IOB.

O mundo do contador é estranho e maniqueísta. A luta do bem contra o mal é substituída pela luta da Receita contra a Despesa, do Lucro contra o Prejuízo. A odisseia do contador só termina quando ele conseguir fazer alguma coisa importante para a humanidade, para pôr em ordem este mundo injusto e cruel. Ele sonha com o dia em que haverá paz na Terra para os homens de boa vontade, onde finalmente conseguiremos o almejado equilíbrio entre o Passivo e o Ativo. Só assim ele, o contador, poderá viver em paz para sempre se tornando então, finalmente, um Auditor Independente.


Publicado originalmente na Revista Casseta Popular, nº 26. De 1989.

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ao todo.

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