Duas mortes, duas medidas

Há pouco tempo fomos surpreendidos (fomos mesmo?) com a notícia que o cidadão (???) Edmundo, de sobrenome “Animal”, teve prescrita sua condenação por ter matado três pessoas em um acidente (???!!!) automobilístico. Esse tipo de impunidade, tão comum em nossas latitudes ou até em outras do tal “third world” (também conhecido como “mundinho de terceira”), pode suscitar os mais diversos tipos de análises sociológicas. Mas quero propor outro enfoque: refletir sobre dois tipos de morte, uma de altíssimo e outra de nenhum valor, que acontecem todos os dias, diante de todos os olhos.
A vítima mais desprezada e, portanto, mais desprezível é, justamente, quem morre no trânsito. São dezenas de milhares a cada ano. Provavelmente, não existe um único brasileiro que não conheça alguém que morreu nessa nossa carnificina cotidiana. Em contrapartida, quantos foram punidos por essas mortes?
Morre-se tanto porque não há demanda de punição, não existem culpados quando todos morrem por “acidente”. Não importa se o “responsável” pela perda de uma ou muitas vidas esteja embriagado, doidão de tudo, dirigindo enlouquecido a trocentos quilômetros por hora, infringindo todas as leis e atropelando a civilidade. Aqui ele nunca é um assassino, aqui quem mata é o “acaso”. Se a morte é sempre acidental, não existe criminoso. Nas nossas ruas e estradas, qualquer um pode morrer, porque qualquer um pode matar.
Agora compare com quem “morre” de droga. Quantos são? Quem sabe? Mas todos sabem que a “droga mata”.
Claro que droga é perigoso – para quem consome.
Claro que droga pode matar – quem consome.
Claro que se drogar não é algo saudável, mas é uma escolha.
E o que fazemos para impedir a morte de quem quer correr o risco de se matar? Movemos mundos e fundos.
Para impedir um doidão de “ir dessa para melhor”, criamos leis e mecanismos de combate que matam muitos mais. Você pode nunca chegar perto de um baseado, de uma pedra de crack, de uma carreira de pó, mas dos subprodutos da proibição (balas perdidas, corrupção policial, territórios dominados, etc) é muito mais difícil escapar.  Para cada drogado que morre pelo uso da substância que escolheu, inúmeros outros são aniquilados pela guerra que se deflagra por essa “causa” – e a maioria desses não tiveram escolha nenhuma.
Deveria ser mais simples: um bêbado é só um bêbado, até que mate alguém. Aí, passa a ser um criminoso. Um drogado também deveria ser só um sujeito que decidiu, voluntariamente, experimentar um alterador comportamental (como o álcool, por exemplo). Até delinqüir, aí também passaria a ser um bandido.
Deveria ser óbvio: homicídio é crime, suicídio não! Quem mata devia ser preso, quem se mata deveria ser pranteado e pronto.
A contabilidade é, simplesmente, cruel. Quanto vale quem morre no trânsito? Pelas nossos números, absolutamente nada. Vamos continuar morrendo aos milhões e nada vai acontecer porque não queremos punir nossa própria auto-indulgência. Afinal, o atropelado de hoje (se der sorte) pode ser o atropelador de amanhã.
E quanto vale quem morre de overdose? Tudo! Nada é suficiente para impedir essa “insignificância estatística” de correr o risco de perder a vida por meio de algo que o próprio escolheu. Para impedir que morram, matamos aos borbotões. Em nome da vida, criminalizamos a droga e acabamos disseminando a morte. No trânsito, em nome da nossa ignorância, não punimos quem mata e assim seguimos, sem desculpas, desrespeitando a vida.

Texto publicado na revista Alfa, 08/11/11

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