O pessoal não liga

A vida é precária, provisória. Essa é uma condição básica, universal. Mas aqui levamos esse conceito a patama­res raras vezes alcançados em outras latitudes. Vamos combinar que o tal “valor da vida” no Brasil é cada vez mais coisa nenhuma. Aqui, o milagre é sobreviver às tradicionais precariedades, aos históricos descasos e às irresponsabili­dades das nossas escolhas.

Os “Morros do Bumba”, as “boates Kiss”, os “desastres da TAM”, os milhares que morrem e vão continuar mor­rendo soterrados em enchen­tes e a inacreditável multidão que sucumbe e continuará sucumbindo na guerra que é nosso trânsito provam que nossas tragédias evitáveis, nossas omissões criminosas e a tal da impunidade desen­freada estão em toda parte e podem atingir todos – ricos e pobres. A democratização da morte estúpida também pode ser con­siderada como igualdade social?

Num país onde muitos desejam ou não se incomodam que o Estado seja o maior protagonista, onde o apa­rato estatal consome recursos assom­brosos e onde os governantes se ven­dem (com e sem duplo sentido) como “paizões” protetores, líderes messiâni­cos ou similares, é natural que a maior responsabilidade recaia mesmo sobre as autoridades. Elas foram eleitas ou descolaram cargos com quem se ele­geu, usam e abusam dos superimpos­tos que pagamos e retribuem com es­tatísticas e serviços de quarto mundo.

Tudo isso é muito ruim, porém ainda não é o pior. Para começar, os políticos, esses vilões imediatos, são todos o que mesmo? Bra-si-lei-ros. E eleitos por quem? Exatamente. Você sabe a resposta. Se o problema fos­sem algumas centenas, ou milhares de bandidos, restritos a uma catego­ria profissional, estava tudo certo. Mas nosso buraco é bem mais embaixo.

Moramos precariamente aos mi­lhões e quando vem a repetitiva tragé­dia, lemos e ouvimos que o nível das águas invadiu moradias, quando foi, justamente, o contrário: inva­sões vistas e toleradas por dé­cadas ocuparam áreas de ris­co. Morremos em números avassaladores em nossas ruas e estradas porque preferimos chamar de acidente a insa­nidade de muitos motoris­tas. Morremos em arapucas superlotadas porque a praxe em matéria de procedimen­tos de segurança é subornar o bombeiro encarregado da fis­calização. Morremos em ae­roportos que não deveriam existir e em epidemias que não existiam mais porque so­mos precários. Quem exige que tudo seja certinho é cri-cri, careta, caxias. Bom é quem dá um jeitinho, quem faz gambiarra.

A gente não precisa fazer as coi­sas direito, a gente não precisa capri­char, a gente pode fazer de qualquer jeito, tolerar o malfeito, fingir que não viu, fazer vista grossa, prometer e não cumprir. Aqui, o pessoal não liga.

 

Publicado na Revista ALFA – abr. 2013

1 comentário

  1. Mauricio Mattos   •  

    Um povo que não tem cultura e consciência política só pode agir assim.
    Satisfaz-se com os “bolsas-esmolas”, mas se esquece que sendo ignorante e comprado, não entende os desmandos do governo e não reclama de suas sacanagens.
    Pros políticos isso é o paraíso.
    O povo só quer saber de futebol, praia, samba, “não estão nem ai”.
    r

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