MANUAL DO NOVO VELHO – um guia introdutório à velhice.

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Ninguém ensina ninguém a envelhecer. Nem a começar a envelhecer, que é uma coisa parecida com usar peruca: todo mundo nota, menos quem acha que está “disfarçando”.

Em todos os tempos, as civilizações/culturas/agrupamentos se ocuparam da “questão”, desde elegendo alguns poucos velhos para ainda mais raros (ou ficcionais) “conselhos de anciões” (os 3 plurais são válidos/aceitos, tá?) até, simplesmente, relegando todos ao abandono e foda-se. Afinal, a natureza (e seus ciclos) só é fofa na Disney, ou para a “esquerda ambiental”.

Em tempos modernos, várias tentativas, desde farmacológicas a previdenciárias, foram desenvolvidas na intenção de proteger/atenuar (em nossas latitudes não conte muito com isso), os impactos daquela que já foi conhecida como “terceira idade”.

No entanto, preparar, treinar, apresentar o “novo” cotidiano, as “novidades” (com aspas e sem ironia) que a velhice traz, isso ninguém faz.
O certo é que divagando se vai ao lounge… por isso, na vizinhança de completar meus 5.8, resolvi iniciar um projeto, um tipo de guia introdutório, mas nunca um manual de “sobrevivência” (seria propaganda enganosa), algo que poderia ajudar ou amenizar o percurso dos novos velhos, os que estão chegando agora, naquele que será, se tudo der certo, o maior período das nossas vidas.

Pra começar, 3 tópicos/fundamentos: um inevitável (até onde der), outro a se evitar (idem) e o terceiro, uma versão do famoso “enxugar gelo” nesse quesito/tema/assunto.

Tópico 1: um dos primeiros sintomas/sinais de envelhecimento é a  progressiva inadequação à “cena musical”. De repente, mesmo você sendo do tipo que arregaça os limites do ecletismo, não aguenta mais, entrega os pontos e desabafa: “essa porra não é música!”.  Você deve adiar isso ao máximo, de preferência capitulando antes de apelar para “procedimentos” cirúrgicos/cosméticos extremos, mas saiba que esse momento é 100% inevitável.

Tópico 2: uma das maiores características do enraizamento irreversível do “ato de envelhecer” é a predominância (e bota dominância nisso) da “temática”: médicos, exames, palavras terminadas em “ite”, “ose”, “oma”, etc. Um fascínio cada vez mais incontrolável de falar da saúde, da falta dela, ou de como a falta de assunto (algo parecido com o que acontece, em todas as faixas etárias, com a meteorologia: “será que vai chover?”, “esse tempo tá muito maluco”, etc) pode ser preenchida por um insistente e recente (cada vez mais o primeiro e menos o segundo) “interesse médico”.

Tópico 3: pelos. São inadministráveis. Ficam brancos onde não esperávamos, raros ou inexistentes onde não queríamos, surgem onde nem imaginávamos (orelhas, narinas, etc) e todas as tentativas de controlá-los beiram o ridículo, o desespero, ou ambos.

Está é uma obra em progresso, também conhecida em nosso idioma como: “uorquinprogres”. Aceito sugestões. Inclusive as que me aconselhem a desistir desse tema, porque isso é assunto de velho.

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O pessoal não liga

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A vida é precária, provisória. Essa é uma condição básica, universal. Mas aqui levamos esse conceito a patama­res raras vezes alcançados em outras latitudes. Vamos combinar que o tal “valor da vida” no Brasil é cada vez mais coisa nenhuma. Aqui, o milagre é sobreviver às tradicionais precariedades, aos históricos descasos e às irresponsabili­dades das nossas escolhas.

Os “Morros do Bumba”, as “boates Kiss”, os “desastres da TAM”, os milhares que morrem e vão continuar mor­rendo soterrados em enchen­tes e a inacreditável multidão que sucumbe e continuará sucumbindo na guerra que é nosso trânsito provam que nossas tragédias evitáveis, nossas omissões criminosas e a tal da impunidade desen­freada estão em toda parte e podem atingir todos – ricos e pobres. A democratização da morte estúpida também pode ser con­siderada como igualdade social?

Num país onde muitos desejam ou não se incomodam que o Estado seja o maior protagonista, onde o apa­rato estatal consome recursos assom­brosos e onde os governantes se ven­dem (com e sem duplo sentido) como “paizões” protetores, líderes messiâni­cos ou similares, é natural que a maior responsabilidade recaia mesmo sobre as autoridades. Elas foram eleitas ou descolaram cargos com quem se ele­geu, usam e abusam dos superimpos­tos que pagamos e retribuem com es­tatísticas e serviços de quarto mundo.

Tudo isso é muito ruim, porém ainda não é o pior. Para começar, os políticos, esses vilões imediatos, são todos o que mesmo? Bra-si-lei-ros. E eleitos por quem? Exatamente. Você sabe a resposta. Se o problema fos­sem algumas centenas, ou milhares de bandidos, restritos a uma catego­ria profissional, estava tudo certo. Mas nosso buraco é bem mais embaixo.

Moramos precariamente aos mi­lhões e quando vem a repetitiva tragé­dia, lemos e ouvimos que o nível das águas invadiu moradias, quando foi, justamente, o contrário: inva­sões vistas e toleradas por dé­cadas ocuparam áreas de ris­co. Morremos em números avassaladores em nossas ruas e estradas porque preferimos chamar de acidente a insa­nidade de muitos motoris­tas. Morremos em arapucas superlotadas porque a praxe em matéria de procedimen­tos de segurança é subornar o bombeiro encarregado da fis­calização. Morremos em ae­roportos que não deveriam existir e em epidemias que não existiam mais porque so­mos precários. Quem exige que tudo seja certinho é cri-cri, careta, caxias. Bom é quem dá um jeitinho, quem faz gambiarra.

A gente não precisa fazer as coi­sas direito, a gente não precisa capri­char, a gente pode fazer de qualquer jeito, tolerar o malfeito, fingir que não viu, fazer vista grossa, prometer e não cumprir. Aqui, o pessoal não liga.

 

Publicado na Revista ALFA – abr. 2013
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Perdeu, preiboi

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No iniciozinho de agosto a “casa caiu” e eles começaram a ser presos. Era o fim da “gangue dos playboys”, um grupo composto por dezenas (???!!!) de jovens de “classe média” (hoje em dia quem não é dela?) e que se tornou a mais ativa quadrilha, no ramo do sequestro relâmpago, em São Paulo.

Embora gostando de gastar os ganhos auferidos com o crime em carros, farras e roupas de grife, os meliantes mauricinhos tinham também ocupações menos glamourosas: um era “auxiliar de cozinha”, outro “motoboy” e moravam em bairros como “Jardim Macedônia” e “Capão Redondo”, entre outros endereços “emergentes”.

Ou seja, o “playboy” que sempre foi visto como um bon vivant oriundo das “zélites”, que teve nomes como Jorginho Guinle e Porfirio Rubirosa, na qualidade de representantes máximos do “cargo”, agora apareceu também na “classe C”.

Sinal dos tempos, claro. Afinal, esse tal do brasileiro tá muito mudado. Continuamos na “África” em vários quesitos (saneamento, civilidade, educação, justiça, transporte público, favelização, etc), mas também estamos ficando, de uma certa forma, “melhorzinhos”. Compramos mais, vivemos mais, viajamos e engordamos mais.

Lembra quando Luiz Inácio ficou injuriado dentro das calças, quando o IBGE (bem no início do primeiro mandato), anunciou que o país tinha mais obesos que famintos? Aquela informação além de prejudicar um dos carros-chefes dos programas-propagandas sociais, o Fome Zero (lembra?), desmoralizava o inacreditável (em todos os sentidos) número de 56 milhões de “vítimas da fome” que foi alardeado, durante anos, por todos os especialistas em alardear.

Onde foi parar essa imensa população de famélicos, que era como a esquerda (lembra?) chamava quem não comia? Os gordinhos comeram eles? A verdade é que tanto aqui, quanto nos states, pobre, quando tem mais grana, compra: além de TV de tela fina, muito mais junk food e coca-cola. Quem aplacou a fome do brasileiro foi o Habib’s. Igualzinho a “lá fora”, o problema agora não é mais emplacar o “Fome Zero” e sim, desentupir as coronárias.

Portanto, não é surpresa que até nossa bandidagem esteja mais “primeiro mundo”, mais bem alimentada e mais metrossexual.

Os jogadores de futebol, talvez por ganharem grana há mais tempo, foram os primeiros a trocar o visual rústico-tosco daqueles que, antigamente, vinham das “camadas mais humildes”, pela estética popstar. Hoje, todos (ou muitos) poderiam ser confundidos com rappers americanos. Todos são depilados, fazem sobrancelha, ostentam jóias, bonés, óculos espelhados e penteados complicadíssimos.

Se você observar alguma foto (vá na web) dos membros da “gang dos playboys” vai ser incapaz de dizer que atividade profissional eles exerciam. Poderiam jogar no seu time, trabalhar na sua obra, ser uma banda de sertanejo universitário, ou axé-pagode-funk de qualquer (ou nenhuma) escolaridade, ser da turma da sua filha e/ou perigosos criminosos, ou várias dessas opções ao mesmo tempo.

Tempos difíceis para os estereótipos: azar o deles. Legal que peões de obra tenham “cabelinho Cristiano Ronaldo”, mesmo que o preço a pagar por tanta mobilidade social seja o de ter que se conviver com bandidos de figurino bastante duvidoso.

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O que vi da Xuxa

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Não sei se todos sabem, mas como diretor do quadro “O que vi da vida” que é exibido, devezemquandamente, no Fantástico, tive o privilégio de ter sido o primeiro (junto com my team, of course) ouvinte do depoimento, no qual Xuxa decidiu revelar ao público que havia sido abusada sexualmente na infância e adolescência.

A não ser que você estivesse em total isolamento, num mosteiro tibetano (talvez nem lá), ou em coma (talvez nem assim), certamente tomou conhecimento ou participou do tsunâmico bafafá que se seguiu às revelações da famosíssima apresentadora.

Na minha personal estatística e julgamento, a humanidade “passou”. Pelo menos, uns 80 % dos humanos que se pronunciaram a respeito, mostraram dignidade, solidariedade, objetividade e não se perderam em teorias/opiniões, proferidas por uma minoria, que oscilaram entre a imbecilidade e a psicopatia.

O problema é que essa minoria fez barulho. E onde ela foi mais barulhenta e “menos minoritária”? Claro, na Infernet, o lado mais infernal da Web, onde as tais redes sociais, blogs e etcetera serviram como ferramentas rápidas e simples para potencializar a voz da estupidez humana. Com 140 caracteres e anonimato é moleza ser fascista.

Embora não devamos dar eco ao que vem de tão baixo, algumas questões colocadas com mais insistência (e educação), me “obrigam” a não ser tão low profile assim.

Uma das mais frequentes arguições é o por que “disso” ? A resposta deveria ser óbvia, mas a obviedade não existe pra muita gente. Xuxa explica (no depoimento) bem claro seus motivos: ela se engajou, há alguns anos, numa campanha contra a violência doméstica e o abuso infantil, na qual um dos principais fundamentos é lutar para “romper o silêncio”. Não falar sobre casos ocorridos só beneficia o agressor. Mas como ajudar quem está tão assustado e inseguro ? Colocando “luz” na questão pode ser a melhor chance. Ao se expor publicamente, Xuxa não fez um desabafo e sim, tomou um posicionamento político. Assumiu (com custos pessoais), como cidadã e com bravura a frente de uma luta por justiça e civilidade.

Ridicularizar quem sofre tamanho dano não torna ninguém perspicaz. Ao contrário, “zoar” com a vítima é se solidarizar com a pedofilia. Não gostar da Xuxa, não dá a ninguém o direito de ser escroto.

Outra questão recorrente é porque não resolver isso numa terapia ao invés de expor sua “intimidade” num programa de televisão?

Hellooo… não estamos falando aqui de fofocas ou hábitos privados que celebridades (ou as revistas/sites “delas”) cismam em despejar todos os minutos, sobre todos nós. Abuso sexual infantil é um crime covarde. Pedir discrição, silêncio, confinamento ao ambiente doméstico é tudo que o predador quer.

Qualquer um que vem a público se desnudar a esse ponto, passou por um longo e doloroso processo “interno”. Ninguém toma uma decisão como essa intempestivamente, ou porque não tem nada melhor pra fazer.

Muitos também questionaram uma possível hipocrisia. Afinal, Xuxa tinha participado de um filme (“Amor estranho amor” de Walther Hugo Khouri) onde faz sexo com um menino. Ao contrário da maioria, eu assisti a película. Não é um pornô. É só mais um dos inúmeros filmes nacionais horrorosos. E vou revelar uma coisa pra vocês, Xuxa não fez sexo, Xuxa fez um filme. No roteiro, a cena é a de um menino que tem sua iniciação sexual com uma prostituta também novinha num puteiro (iniciação de 99% dos adolescentes na época do filme). O filme é de 1979, ou seja, foi lançado há 33 anos (se ela tivesse matado o menino o “crime” já tinha prescrito), Xuxa tinha 16, portanto também era dimenor. Comparar ficção com terror doméstico real é só burrice ?

Cada um tem o direito a sua opinião, a ser crítico, a questionar. Mas esculachar por simples preconceito, ou por “posições” sub-ideológicassemi-letradas não torna ninguém mais bacana.

Xuxa foi surpreendente, foi madura, corajosa e bem articulada. Quem foi tosco, tolo, vazio ou descerebrado, foi quem saiu atirando sem dó nem piedade.

Azar o deles.

Texto publicado na Revista Alfa, 14 de junho de 2012.

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A ética é para os outros

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Ética é o nome geralmente dado ao ramo da filosofia dedicado aos assuntos morais. A palavra deriva do grego e significa “aquilo que pertence ao caráter”.Diferencia-se da moral, pois, enquanto esta se fundamenta na obediência a normas, tabus e costumes recebidos, a ética busca fundamentar o “bom modo de viver”, portanto seria uma espécie de “ciência da conduta”.

O bom da wikipédia é isso. Em segundos, você adquire “conhecimento” imediato. Nada como um bom cut-paste pra você arrasar em qualquer rodinha e, quem sabe, até conseguir algo nobre e elevado, como uma boa noite de sexo, afinal, sempre tem quem gosta de papo-cabeça.

Além disso, esse é o tipo de assunto que nunca sai de moda, sempre dá pra parecer bacanão pontificando sobre a eterna “crise ética”, a falta de “valores éticos” que nos assola, éticacetera e tal. E um dos aspectos menos abordados e mais presentes nessa persistente discussão é que, ao que parece, para uma certa galera (que, infelizmente, não é pequena) e em determinados ambientes (que também não são poucos), ética é uma coisa que deve ser cobrada por quem é de esquerda e devida, apenas, por quem está no outro lado do “espectro ideológico”.

Vamos começar com o tal “código de conduta”, os famosos “valores morais” e escolher o que seria o maior dos consensos: “não matarás”. Na competição dos tiranos psicopatas de “cada lado”, por exemplo, os de direita sempre parecem mais odiosos e vilanizados que os “de la sinistra”,  mesmo quando os de cá matam dezenas de vezes mais dos que de lá.

Quem usaria uma camiseta de Pinochet (tirando sua vetusta e diminuta tchurminha)? Quantos não acharam (e ainda acham) Mao e Che ídolos pop?

Se matar é feio, torturar também é, mas, para essa mesma rapaziada uma coisa é ser uma “vítima dos porões da ditadura militar”, outra é toda uma população exilada com dezenas de milhares de torturados e fuzilados sumários. Na primeiro caso, temos um bravo companheiro que merece uma justa (e polpuda) indenização. No outro, são só repulsivos traidores da gloriosa revolução cubana, que depois de mais de meio século, conseguiu a fantástica proeza de transformar Cuba de um prostíbulo rico, num prostíbulo pobre.

Mas para a nossa inteligentzia(??!!) o que indigna, eticamente,na Castrolândia, não são décadas de uma tirania patética e homicida e  sim, apenas, Guantánamo. Cuba são duas prisões abjetas: Guantánamo e Cuba (dizem que na primeira as filas para se conseguir comida são menores). Mas como só uma delas é de propriedade dos imperialistas capitalistas então só esta é objeto de repulsa “ética”.

Se matar, torturar e tiranizar é condenável apenas (em certas plagas)se o “protagonista” não for da mesma causa/partido/movimento/milícia e sequestrar também pode (vide a conivência que a quadrilha conhecida como FARC teve em determinados “meios” durante tanto tempo), o que dizer então de atos “menores” como roubar, superfaturar, desviar verbas e outras coisinhas miúdas?

Nota fria, orçamentos descabidos e outras “práticas abusivas” só são fatos totalmente repulsivos, quando praticados por seres idem, como os Barbalhos, Salims, Canalheiros e Ribamares de sempre. Quando são os Dirceus, os “movimentos sociais” (quase todos em direção ao Caixa), a sindicatocracia, as ONGs (Organizações Não Gratuitas), aí é tudo complô da mídia.

Vida boa, né ?

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