Outros Dezembros virão

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Dezembro é sempre época de balanço, de pensar num ano que finda e em outros diversos clichês tão abundantes no mês natalino. Mas não vou falar desse dezembro e sim de um outro, que aconteceu há exatos 25 anos.

Era uma quarta-feira, sei disso não por contar com uma excelente memória (já foi boa, mas hoje, assim como os cabelos e joelhos, não é mais como outrora), mas pela certeza que era dia de pelada. Jogávamos um “salãozinho”(atualmente conhecido pelo nome meio afrescalhado de “futsal”) nas noites deste dia da semana, durante décadas.
Eu estava subindo as escadarias do clube onde travávamos nossas aguerridas batalhas contra a bola, quando meu parceiro Beto Silva, já acompanhado do também parceiro Bussunda, veio contar a notícia bomba que ia mudar nossas vidas.
Claudio Paiva, que era um dos fundadores do “Planeta Diário” (junto com o Hubert e o Reinaldo), tinha ligado. Ele já havia largado o mundo 100% desmonetarizado do “humorismo alternativo” das publicações udigrudis e estava trabalhando na Globo. Melhor ainda: o Jô Soares tinha ido pro SBT, uma vaga (das grandes) havia surgido na “grade” da programação e ele (Claudio Paiva) junto com o Guel Arraes, estavam precisando de redatores para um novo humorístico (que veio a ser o TV Pirata).
Claro que ainda tínhamos que ser aprovados. Precisávamos mostrar que o escracho e a irresponsabilidade total que imperava na nossa revista (o Almanaque Casseta Popular) possuía uma “versão televisiva”.
Nos trancamos (eu, Beto, Bussunda e Hélio de laPeña) pra produzir dezenas de páginas de roteiros pra esquetes, paródias(de músicas, comerciais, filmes, programas de TV, etc), seriados originais, personagens… tudo !
Passamos no “vestibular” (e melhor ainda, quase 100% do que escrevemos para esse teste foi produzido e exibido) e fomos, finalmente, contratados.
Durante 3 anos fomos os quase famosos roteiristas-criadores do famosíssimo programa que estava “revolucionando” o humor na TV quando… veio o “Pantanal” (sucessaço da extinta TV Manchete) e afundou toda a programação da emissora líder.
A ordem veio de cima. Era necessário mudar, apresentar novos projetos. Fizemos (7 caras: eu, Beto, Bussunda, Hélio, Marcelo Madureira, Hubert e Reinaldo) um piloto de um programa que misturava jornalismo com humor onde nós mesmos éramos os repórteres. Chamava “Casseta& Planeta Urgente” e só não foi aprovado porque nós não éramos conhecidos.
O ano era 1991, a solução encontrada foi colocar um rosto famoso para nos dar suporte (a lindíssima DorisGiesse) e passamos a integrar o elenco de “Doris para Maiores”, programa mensal que durou só uma temporada.
Em 92, finalmente, “deixaram” a gente entrar com “marca” e tudo e nasceu o primeiro de uma série de quase 600 “C&P Urgente”.
Paramos em 2010, depois de 18 anos no ar (e liderando), pra dar um tempo, refrescar, repensar, recompor. Afinal, estávamos há um tempão na batida, direto, sem tirar, “superando” até a perda donosso bandleader, nosso irmão.
Voltamos esse ano com o “Casseta& Planeta Vai Fundo”, foram 20 episódios. Foi divertido pacas fazer. Mas não voltaremos mais.
Foram tantas histórias. Fizemos história também. Sem nenhuma modéstia, sem nenhuma arrogância.
Soubemos, ou tentamos sempre, cutucar, sacudir, fazer sempre rir. Conseguimos inúmeras vezes, outras tantas, não. Mas nunca paramos de estar atentos, querendo, brincando de ousar.
A vida mudou, o tempo passou, a TV e o Brasil são outros. Vamos continuar na lida, claro. Mas de maneiras diversas, participando e produzindo de outras formas.
O importante é manter sempre teso (tomara!) o arco da promessa. Volveremos ! Quando ? Não sabemos. Juntos ? Quem sabe ? O futuro a Deus pertence, até para nós que somos ateus.
Vinte e cinco dezembros depois vai ao ar nosso último programa. Vai ser dia 21, data prevista para o “apocalipse”, mas não vai ser nenhum fim do mundo.
É só o fim de um ciclo, o início de novas coisas (avisei que esse era o mês dos clichês).
É vida que segue. E segue boa.

Texto originalmente publicado na Revista Alfa.

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“Entrevista” pra “Folha” antes da “Folha”

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A “Falha de São Paulo”, que eu não suporto por motivos 100% não-PTistas, me mandou, através de sua colunista (o nome que usam, atualmente, para “torcedores”, “militantes” ou “milicianos”) de TV, uma “entrevista-questionário”. Eu já tinha mandado todos, tantas vezes, “praquele lugar”, que me rendi à “garra e determinação” da cambada e resolvi responder,  mas “publicar” primeiro.
Tudo começou assim:

“Oi, Claudio, como estão as coisas? Estou fazendo uma materia sobre o fim da Turma do Didi e do Casseta & Planeta em 2013, e preciso de umas palavras suas sobre isso. Bj”
Resp: Sabe o que eu gosto de você(s)? Nada! Mas a insistência e o preparo físico me impressionam. Então, olimpicamente, vamos lá.

1) Como foi essa decisão de parar com o programa no próximo ano?
Fomos comunicados da decisão que não estaríamos na “grade” em 2013, quase um mês antes da (re)estreia dessa “segunda” temporada” . Que, aliás, começou no “Dia de Finados” e vai acabar no “Apocalipse”, ou seja… isso não significa nada.

2) Por que parar?
Porque o alto comando da emissora avaliou que essa era a decisão a ser tomada. Aí na Folha funciona diferente ? Vocês são um ‘soviete”, uma comunidade hippie, um tipo de cracolândia ?

3) Vcs pensam em fazer outro programa juntos no proximo ano, ou cada um tocará o seu projeto?
Não vamos fazer o programa, mas vamos continuar sendo um “coletivo criativo”, elaborando projetos e orgias com figurantes gostosas. Ninguém”tocará” nada sozinho…. tem quem faça isso pra nós.

4) Falando em projetos, qual os seus projetos para 2013 na TV? (que eu sei que são muitos)
Penso em me concentrar na busca das minhas raízes mais profundas e voltar, finalmente, a ser baiano. Alternar um período de recesso, com outros de descanso.

5) Tem projetos no cinema?
Pretendo ser o primeiro ator do cinema pornô de pau normal, pau cidadão, pau republicano. Digno, mas não exagerado, sem arrogâncias ! Quero quebrar o paradigma, que impede pirocas normais, mas competentes, de alcançarem o porno-estrelato. O resto do “setor” brazuco-cinematográfico ainda possui pouca “base moral e ética” para que eu me arrisque.

6) Como vc avalia essa volta dos cassetas em temporadas, como foi neste ano?
Uma delicia. Muita carne nova no pedaço.

7) A audiência influenciou nesta decisão?
De jeito nenhum. Todo mundo está com uma audiência de mierda. A única coisa que influenciou a nós e a todos, nessa latitude, foi e sempre será, o João Gilberto.

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EVERYBODY MACACADA

POST_CLAUDIO_07_11_2012

O muriqui é um macaco gente boa. Também conhecido como mono carvoeiro, é o “maior primata das Américas” e, pelo que andei sabendo, está pela “bola 7”. O pouco que sei dele, soube por gente que sabe muito e que cuida de um projeto pra salvar o bicho, lá no Parque Estadual de Ibitipoca (MG), um lugar que, se eu fosse você, assim que desse, ia correndo conhecer.

Nosso amigo “mono” é tão bacana que, pra início de conversa, entre eles, as fêmeas são “socializadas”, ou seja todas transam com todos, eliminando assim o velho papo de obter poder através da prole, perpetuação de DNA, cornitude, solidão, etc. Além disso, esses macacos são tão bonzinhos, que toda vez que são ameaçados por algum predador, a única “estratégia de defesa” que conhecem é, simplesmente, se abraçarem. Por essas e outras é que o muriqui ganhou o apelido de “macaco hippie” e se tornou a famosa “presa fácil”.

Pulando de continente, em paisagens africanas, temos os também ameaçados bonobos, os chamados chimpanzés pigmeus. Enfim, esses chimpanzézinhos são marromeno do mesmo porte dos nossos macacões acima citados e também compartilham dos mesmos hábitos.

Os bonobos são os únicos dos grandes primatas (Além dele, nessa categoria estão os chipanzés, gorilas e orangotangos. O nosso “muriqui” não conseguiu “classificação”), que não praticam violência extrema. É famosa a frase de um especialista no tema, que diz: “os grandes primatas resolvem sua questão de sexo com guerra. Os bonobos resolvem suas questões de guerra com sexo”. O problema é que na hora que o pau come (no mau sentido), a “galera do prazer” é muito ruim de briga.

Sobreviver no dia a dia de qualquer selva, mesmo as metafóricas, ce n’est pas mole non. A luta diária é árdua, sanguinolenta, ininterrupta. Pra qualquer um, seja macaco ou não. Mesmo para nossa espécie de primata, que, em sua maioria (ou a maioria dos que leem revistas), está acostumada a ver tudo mais “domesticado”, “civilizado”, “higienizado” e “seguro”.  Nos sentimos mais “confortáveis” e cheios de aspas, porque não estamos em tempos de escassez. Ao contrário, sobra tudo: de consumo a lixo.

Mas na hora que o bicho pega, todo mundo vira bicho. Nesse caso, nos tais momentos críticos, duas coisas meio malditas fazem uma falta danada: excesso de testosterona e saber lidar com estresse. Os bonobos e muriquis (não) sabem a falta que isso faz.

Na natureza e na vida, ser bonzinho só é bom quando está tudo bem. Ninguém sobrevive à luta sem “gostar” de lutar. Ninguém ganha guerra nenhuma sem botar “muita hora nessa calma”.

Ninguém vai a lugar nenhum ficando parado no mesmo lugar.

Texto originalmente publicado na Revista Alfa.

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Perdeu, preiboi

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No iniciozinho de agosto a “casa caiu” e eles começaram a ser presos. Era o fim da “gangue dos playboys”, um grupo composto por dezenas (???!!!) de jovens de “classe média” (hoje em dia quem não é dela?) e que se tornou a mais ativa quadrilha, no ramo do sequestro relâmpago, em São Paulo.

Embora gostando de gastar os ganhos auferidos com o crime em carros, farras e roupas de grife, os meliantes mauricinhos tinham também ocupações menos glamourosas: um era “auxiliar de cozinha”, outro “motoboy” e moravam em bairros como “Jardim Macedônia” e “Capão Redondo”, entre outros endereços “emergentes”.

Ou seja, o “playboy” que sempre foi visto como um bon vivant oriundo das “zélites”, que teve nomes como Jorginho Guinle e Porfirio Rubirosa, na qualidade de representantes máximos do “cargo”, agora apareceu também na “classe C”.

Sinal dos tempos, claro. Afinal, esse tal do brasileiro tá muito mudado. Continuamos na “África” em vários quesitos (saneamento, civilidade, educação, justiça, transporte público, favelização, etc), mas também estamos ficando, de uma certa forma, “melhorzinhos”. Compramos mais, vivemos mais, viajamos e engordamos mais.

Lembra quando Luiz Inácio ficou injuriado dentro das calças, quando o IBGE (bem no início do primeiro mandato), anunciou que o país tinha mais obesos que famintos? Aquela informação além de prejudicar um dos carros-chefes dos programas-propagandas sociais, o Fome Zero (lembra?), desmoralizava o inacreditável (em todos os sentidos) número de 56 milhões de “vítimas da fome” que foi alardeado, durante anos, por todos os especialistas em alardear.

Onde foi parar essa imensa população de famélicos, que era como a esquerda (lembra?) chamava quem não comia? Os gordinhos comeram eles? A verdade é que tanto aqui, quanto nos states, pobre, quando tem mais grana, compra: além de TV de tela fina, muito mais junk food e coca-cola. Quem aplacou a fome do brasileiro foi o Habib’s. Igualzinho a “lá fora”, o problema agora não é mais emplacar o “Fome Zero” e sim, desentupir as coronárias.

Portanto, não é surpresa que até nossa bandidagem esteja mais “primeiro mundo”, mais bem alimentada e mais metrossexual.

Os jogadores de futebol, talvez por ganharem grana há mais tempo, foram os primeiros a trocar o visual rústico-tosco daqueles que, antigamente, vinham das “camadas mais humildes”, pela estética popstar. Hoje, todos (ou muitos) poderiam ser confundidos com rappers americanos. Todos são depilados, fazem sobrancelha, ostentam jóias, bonés, óculos espelhados e penteados complicadíssimos.

Se você observar alguma foto (vá na web) dos membros da “gang dos playboys” vai ser incapaz de dizer que atividade profissional eles exerciam. Poderiam jogar no seu time, trabalhar na sua obra, ser uma banda de sertanejo universitário, ou axé-pagode-funk de qualquer (ou nenhuma) escolaridade, ser da turma da sua filha e/ou perigosos criminosos, ou várias dessas opções ao mesmo tempo.

Tempos difíceis para os estereótipos: azar o deles. Legal que peões de obra tenham “cabelinho Cristiano Ronaldo”, mesmo que o preço a pagar por tanta mobilidade social seja o de ter que se conviver com bandidos de figurino bastante duvidoso.

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O que vi da Xuxa

POST_XUXA

Não sei se todos sabem, mas como diretor do quadro “O que vi da vida” que é exibido, devezemquandamente, no Fantástico, tive o privilégio de ter sido o primeiro (junto com my team, of course) ouvinte do depoimento, no qual Xuxa decidiu revelar ao público que havia sido abusada sexualmente na infância e adolescência.

A não ser que você estivesse em total isolamento, num mosteiro tibetano (talvez nem lá), ou em coma (talvez nem assim), certamente tomou conhecimento ou participou do tsunâmico bafafá que se seguiu às revelações da famosíssima apresentadora.

Na minha personal estatística e julgamento, a humanidade “passou”. Pelo menos, uns 80 % dos humanos que se pronunciaram a respeito, mostraram dignidade, solidariedade, objetividade e não se perderam em teorias/opiniões, proferidas por uma minoria, que oscilaram entre a imbecilidade e a psicopatia.

O problema é que essa minoria fez barulho. E onde ela foi mais barulhenta e “menos minoritária”? Claro, na Infernet, o lado mais infernal da Web, onde as tais redes sociais, blogs e etcetera serviram como ferramentas rápidas e simples para potencializar a voz da estupidez humana. Com 140 caracteres e anonimato é moleza ser fascista.

Embora não devamos dar eco ao que vem de tão baixo, algumas questões colocadas com mais insistência (e educação), me “obrigam” a não ser tão low profile assim.

Uma das mais frequentes arguições é o por que “disso” ? A resposta deveria ser óbvia, mas a obviedade não existe pra muita gente. Xuxa explica (no depoimento) bem claro seus motivos: ela se engajou, há alguns anos, numa campanha contra a violência doméstica e o abuso infantil, na qual um dos principais fundamentos é lutar para “romper o silêncio”. Não falar sobre casos ocorridos só beneficia o agressor. Mas como ajudar quem está tão assustado e inseguro ? Colocando “luz” na questão pode ser a melhor chance. Ao se expor publicamente, Xuxa não fez um desabafo e sim, tomou um posicionamento político. Assumiu (com custos pessoais), como cidadã e com bravura a frente de uma luta por justiça e civilidade.

Ridicularizar quem sofre tamanho dano não torna ninguém perspicaz. Ao contrário, “zoar” com a vítima é se solidarizar com a pedofilia. Não gostar da Xuxa, não dá a ninguém o direito de ser escroto.

Outra questão recorrente é porque não resolver isso numa terapia ao invés de expor sua “intimidade” num programa de televisão?

Hellooo… não estamos falando aqui de fofocas ou hábitos privados que celebridades (ou as revistas/sites “delas”) cismam em despejar todos os minutos, sobre todos nós. Abuso sexual infantil é um crime covarde. Pedir discrição, silêncio, confinamento ao ambiente doméstico é tudo que o predador quer.

Qualquer um que vem a público se desnudar a esse ponto, passou por um longo e doloroso processo “interno”. Ninguém toma uma decisão como essa intempestivamente, ou porque não tem nada melhor pra fazer.

Muitos também questionaram uma possível hipocrisia. Afinal, Xuxa tinha participado de um filme (“Amor estranho amor” de Walther Hugo Khouri) onde faz sexo com um menino. Ao contrário da maioria, eu assisti a película. Não é um pornô. É só mais um dos inúmeros filmes nacionais horrorosos. E vou revelar uma coisa pra vocês, Xuxa não fez sexo, Xuxa fez um filme. No roteiro, a cena é a de um menino que tem sua iniciação sexual com uma prostituta também novinha num puteiro (iniciação de 99% dos adolescentes na época do filme). O filme é de 1979, ou seja, foi lançado há 33 anos (se ela tivesse matado o menino o “crime” já tinha prescrito), Xuxa tinha 16, portanto também era dimenor. Comparar ficção com terror doméstico real é só burrice ?

Cada um tem o direito a sua opinião, a ser crítico, a questionar. Mas esculachar por simples preconceito, ou por “posições” sub-ideológicassemi-letradas não torna ninguém mais bacana.

Xuxa foi surpreendente, foi madura, corajosa e bem articulada. Quem foi tosco, tolo, vazio ou descerebrado, foi quem saiu atirando sem dó nem piedade.

Azar o deles.

Texto publicado na Revista Alfa, 14 de junho de 2012.

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2012: O ano em que a Europa vai acabar

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Tem coisa melhor que ser “europeu”? Não tinha. Até a conta pesada da tal vida real chegar. O sonho de uma sociedade linda, rica, chiquérrima, onde até as vacas são subsidiadas, numa espécie de show room da humanidade, se mostrou o que, obviamente, sempre foi: uma fantasia caríssima e insustentável.
Ser “europeu” sempre foi viver acima das próprias posses. Lá atrás, a coisa toda foi financiada pelos eldorados coloniais, pelo fluxo contínuo das riquezas que vinham de latitudes mais selvagens, em direção (na maior proporção, numa via de mão única) às matrizes civilizadas e grã-finas.
Quando a coisa toda começou a desandar (e lá se vão quase 100 anos) a rapaziada perdeu a compostura geral e deflagrou o primeiro conflito planetário. Não contentes com a estreia mundial daquilo que ganhou a alcunha de “Grande Guerra”, um tempinho depois o pessoal resolveu partir para o bis.
Depois de duas auto-destruições de responsa, o que poderia salvar o continente mais bacana do mundo? Papai do céu? Não, muito melhor. O crédito. A crença mais forte de todas. Deus havia morrido, mas o dinheiro era eterno.
A grana choveu porque era importante reerguer a parte do continente que não havia caído na mão dos comunas. Pra ganhar a guerra fria só com dinheiro quente. Que pode não trazer felicidade, mas traz wellfare state.
Como a vida foi ficando boa, bacana e fortemente subsidiada, todo mundo foi gostando da festa. A cada dia, a idéia que todos podiam ser bonitos, ricos, cultos, gourmets e trabalharem cada vez menos, desde que nascessem nos países certos, virou verdade religiosa. Tanto que a missão passou ser levar ao maior número possível de irmãos para o “clube”.
E foi aí que, quase do nada, através da varinha mágica da política, abriram-se milhões e milhões de vagas para quem queria ser cidadão dessa nova Shangri-lá. De gregos a portugueses, passando por poloneses, eslovenos, cipriotas, malteses, croatas e até turcos (mesmo contra a vontade de grande parte desses), todo mundo atingiu (ou atingiriam) o paraíso dourado; todos viraram “europeus”.
Uma imensa utopia, formada por dezenas de povos que viveriam em paz, esquecendo séculos de lutas fratricidas, que não teriam mais fronteiras, nem mais pesadelos, tudo isso, simplesmente, porque o alto nível de vida era a garantia.
E qual era a garantia do alto nível de vida? O que seguraria a peteca pra deixar todo mundo de geladeira cheia (mesmo não trabalhando) e esquecerem, de vez, a mania de se matarem uns aos outros ou de votar em pessoas de bigodes esquisitíssimos sempre que a  dor no bolso aumenta? A resposta era simples: dindin, money, l’argent, la plata, bufunfa. For ever, para siempre…
Mas como dizia aquele falecido roqueiro, “pra sempre, sempre acaba”.
E acabou, bebê… o sonho do consumo eterno é só isso: um sonho. O desejo de ter do bom e do melhor, não correndo atrás e sendo menos competitivo é só criancice, ou loucura. As duas opções não alicerçam nenhuma utopia.
A Europa desejava ser, de novo, o farol do mundo. Acabou virando uma espécie de socialaite falida que vive de nariz em pé, fingindo que não vê as goteiras da mansão que não tem mais como manter.
Não é um final feliz… mas pode dar um filme bem europeu. Daqueles bem chatos.

***

Texto publicado na Revista Alfa de janeiro de 2012.

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A ética é para os outros

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Ética é o nome geralmente dado ao ramo da filosofia dedicado aos assuntos morais. A palavra deriva do grego e significa “aquilo que pertence ao caráter”.Diferencia-se da moral, pois, enquanto esta se fundamenta na obediência a normas, tabus e costumes recebidos, a ética busca fundamentar o “bom modo de viver”, portanto seria uma espécie de “ciência da conduta”.

O bom da wikipédia é isso. Em segundos, você adquire “conhecimento” imediato. Nada como um bom cut-paste pra você arrasar em qualquer rodinha e, quem sabe, até conseguir algo nobre e elevado, como uma boa noite de sexo, afinal, sempre tem quem gosta de papo-cabeça.

Além disso, esse é o tipo de assunto que nunca sai de moda, sempre dá pra parecer bacanão pontificando sobre a eterna “crise ética”, a falta de “valores éticos” que nos assola, éticacetera e tal. E um dos aspectos menos abordados e mais presentes nessa persistente discussão é que, ao que parece, para uma certa galera (que, infelizmente, não é pequena) e em determinados ambientes (que também não são poucos), ética é uma coisa que deve ser cobrada por quem é de esquerda e devida, apenas, por quem está no outro lado do “espectro ideológico”.

Vamos começar com o tal “código de conduta”, os famosos “valores morais” e escolher o que seria o maior dos consensos: “não matarás”. Na competição dos tiranos psicopatas de “cada lado”, por exemplo, os de direita sempre parecem mais odiosos e vilanizados que os “de la sinistra”,  mesmo quando os de cá matam dezenas de vezes mais dos que de lá.

Quem usaria uma camiseta de Pinochet (tirando sua vetusta e diminuta tchurminha)? Quantos não acharam (e ainda acham) Mao e Che ídolos pop?

Se matar é feio, torturar também é, mas, para essa mesma rapaziada uma coisa é ser uma “vítima dos porões da ditadura militar”, outra é toda uma população exilada com dezenas de milhares de torturados e fuzilados sumários. Na primeiro caso, temos um bravo companheiro que merece uma justa (e polpuda) indenização. No outro, são só repulsivos traidores da gloriosa revolução cubana, que depois de mais de meio século, conseguiu a fantástica proeza de transformar Cuba de um prostíbulo rico, num prostíbulo pobre.

Mas para a nossa inteligentzia(??!!) o que indigna, eticamente,na Castrolândia, não são décadas de uma tirania patética e homicida e  sim, apenas, Guantánamo. Cuba são duas prisões abjetas: Guantánamo e Cuba (dizem que na primeira as filas para se conseguir comida são menores). Mas como só uma delas é de propriedade dos imperialistas capitalistas então só esta é objeto de repulsa “ética”.

Se matar, torturar e tiranizar é condenável apenas (em certas plagas)se o “protagonista” não for da mesma causa/partido/movimento/milícia e sequestrar também pode (vide a conivência que a quadrilha conhecida como FARC teve em determinados “meios” durante tanto tempo), o que dizer então de atos “menores” como roubar, superfaturar, desviar verbas e outras coisinhas miúdas?

Nota fria, orçamentos descabidos e outras “práticas abusivas” só são fatos totalmente repulsivos, quando praticados por seres idem, como os Barbalhos, Salims, Canalheiros e Ribamares de sempre. Quando são os Dirceus, os “movimentos sociais” (quase todos em direção ao Caixa), a sindicatocracia, as ONGs (Organizações Não Gratuitas), aí é tudo complô da mídia.

Vida boa, né ?

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