NÃO EXISTE (OU NÃO DEVIA EXISTIR) HOMICÍDIO MENOR!

criminalização

Se descobrirem que os facínoras que esfaquearam e mataram o cardiologista-ciclista(*) são “dimenor”, quantos que clamam por justiça desaparecerão (um tempinho) do Facebook (ou similares)?
E quantos “justiceiros” facebookianos usarão isso como argumento para pedir a redução da maioridade penal? A questão não é quem mata, é quem morre! Enquanto focarmos mais no agressor, no criminoso, do que nas vítimas, matar vai sair barato.
Nossa vergonha maior (entre inúmeras) é a banalização do homicídio, a vagabundização da morte. Por isso, morrem dezenas de milhares no trânsito e dezenas de milhares por bala ou faca. Discutir onde foi o crime, se foi em cartão-postal ou não, se o assassinato é “carioca”, a(s) idade(s) de quem perpetrou ou qualquer coisa que não seja a vida tirada abruptamente, é mais que perda de tempo, é mais que “errar o foco”: é zombar da dor dos que perdem de forma violenta seus entes queridos, é perpetuar a selva, é viver para sempre afogado em estatísticas aterrorizantes. Somos todos cegos perdidos em tiroteios (ou facadas).
Chega de “remissões de penas”, benefícios para homicidas, de sociologia de botequim, de legislar para assassinos (exemplo: se o cara mata 1 ou 100, não “pode” ser condenado a mais que 30 anos). A VIDA é o que tem que valer!!!
PELA CRIMINALIZAÇÃO DO HOMICÍDIO. O resto é baboseira, o resto é desrespeito e só!

(*) Jaime Gold, esfaqueado e assassinado no dia 20 de maio de 2015, aos 56 anos, enquanto andava de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas – Zona Sul do Rio.

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Outros Dezembros virão

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Dezembro é sempre época de balanço, de pensar num ano que finda e em outros diversos clichês tão abundantes no mês natalino. Mas não vou falar desse dezembro e sim de um outro, que aconteceu há exatos 25 anos.

Era uma quarta-feira, sei disso não por contar com uma excelente memória (já foi boa, mas hoje, assim como os cabelos e joelhos, não é mais como outrora), mas pela certeza que era dia de pelada. Jogávamos um “salãozinho”(atualmente conhecido pelo nome meio afrescalhado de “futsal”) nas noites deste dia da semana, durante décadas.
Eu estava subindo as escadarias do clube onde travávamos nossas aguerridas batalhas contra a bola, quando meu parceiro Beto Silva, já acompanhado do também parceiro Bussunda, veio contar a notícia bomba que ia mudar nossas vidas.
Claudio Paiva, que era um dos fundadores do “Planeta Diário” (junto com o Hubert e o Reinaldo), tinha ligado. Ele já havia largado o mundo 100% desmonetarizado do “humorismo alternativo” das publicações udigrudis e estava trabalhando na Globo. Melhor ainda: o Jô Soares tinha ido pro SBT, uma vaga (das grandes) havia surgido na “grade” da programação e ele (Claudio Paiva) junto com o Guel Arraes, estavam precisando de redatores para um novo humorístico (que veio a ser o TV Pirata).
Claro que ainda tínhamos que ser aprovados. Precisávamos mostrar que o escracho e a irresponsabilidade total que imperava na nossa revista (o Almanaque Casseta Popular) possuía uma “versão televisiva”.
Nos trancamos (eu, Beto, Bussunda e Hélio de laPeña) pra produzir dezenas de páginas de roteiros pra esquetes, paródias(de músicas, comerciais, filmes, programas de TV, etc), seriados originais, personagens… tudo !
Passamos no “vestibular” (e melhor ainda, quase 100% do que escrevemos para esse teste foi produzido e exibido) e fomos, finalmente, contratados.
Durante 3 anos fomos os quase famosos roteiristas-criadores do famosíssimo programa que estava “revolucionando” o humor na TV quando… veio o “Pantanal” (sucessaço da extinta TV Manchete) e afundou toda a programação da emissora líder.
A ordem veio de cima. Era necessário mudar, apresentar novos projetos. Fizemos (7 caras: eu, Beto, Bussunda, Hélio, Marcelo Madureira, Hubert e Reinaldo) um piloto de um programa que misturava jornalismo com humor onde nós mesmos éramos os repórteres. Chamava “Casseta& Planeta Urgente” e só não foi aprovado porque nós não éramos conhecidos.
O ano era 1991, a solução encontrada foi colocar um rosto famoso para nos dar suporte (a lindíssima DorisGiesse) e passamos a integrar o elenco de “Doris para Maiores”, programa mensal que durou só uma temporada.
Em 92, finalmente, “deixaram” a gente entrar com “marca” e tudo e nasceu o primeiro de uma série de quase 600 “C&P Urgente”.
Paramos em 2010, depois de 18 anos no ar (e liderando), pra dar um tempo, refrescar, repensar, recompor. Afinal, estávamos há um tempão na batida, direto, sem tirar, “superando” até a perda donosso bandleader, nosso irmão.
Voltamos esse ano com o “Casseta& Planeta Vai Fundo”, foram 20 episódios. Foi divertido pacas fazer. Mas não voltaremos mais.
Foram tantas histórias. Fizemos história também. Sem nenhuma modéstia, sem nenhuma arrogância.
Soubemos, ou tentamos sempre, cutucar, sacudir, fazer sempre rir. Conseguimos inúmeras vezes, outras tantas, não. Mas nunca paramos de estar atentos, querendo, brincando de ousar.
A vida mudou, o tempo passou, a TV e o Brasil são outros. Vamos continuar na lida, claro. Mas de maneiras diversas, participando e produzindo de outras formas.
O importante é manter sempre teso (tomara!) o arco da promessa. Volveremos ! Quando ? Não sabemos. Juntos ? Quem sabe ? O futuro a Deus pertence, até para nós que somos ateus.
Vinte e cinco dezembros depois vai ao ar nosso último programa. Vai ser dia 21, data prevista para o “apocalipse”, mas não vai ser nenhum fim do mundo.
É só o fim de um ciclo, o início de novas coisas (avisei que esse era o mês dos clichês).
É vida que segue. E segue boa.

Texto originalmente publicado na Revista Alfa.

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