Perdeu, preiboi

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No iniciozinho de agosto a “casa caiu” e eles começaram a ser presos. Era o fim da “gangue dos playboys”, um grupo composto por dezenas (???!!!) de jovens de “classe média” (hoje em dia quem não é dela?) e que se tornou a mais ativa quadrilha, no ramo do sequestro relâmpago, em São Paulo.

Embora gostando de gastar os ganhos auferidos com o crime em carros, farras e roupas de grife, os meliantes mauricinhos tinham também ocupações menos glamourosas: um era “auxiliar de cozinha”, outro “motoboy” e moravam em bairros como “Jardim Macedônia” e “Capão Redondo”, entre outros endereços “emergentes”.

Ou seja, o “playboy” que sempre foi visto como um bon vivant oriundo das “zélites”, que teve nomes como Jorginho Guinle e Porfirio Rubirosa, na qualidade de representantes máximos do “cargo”, agora apareceu também na “classe C”.

Sinal dos tempos, claro. Afinal, esse tal do brasileiro tá muito mudado. Continuamos na “África” em vários quesitos (saneamento, civilidade, educação, justiça, transporte público, favelização, etc), mas também estamos ficando, de uma certa forma, “melhorzinhos”. Compramos mais, vivemos mais, viajamos e engordamos mais.

Lembra quando Luiz Inácio ficou injuriado dentro das calças, quando o IBGE (bem no início do primeiro mandato), anunciou que o país tinha mais obesos que famintos? Aquela informação além de prejudicar um dos carros-chefes dos programas-propagandas sociais, o Fome Zero (lembra?), desmoralizava o inacreditável (em todos os sentidos) número de 56 milhões de “vítimas da fome” que foi alardeado, durante anos, por todos os especialistas em alardear.

Onde foi parar essa imensa população de famélicos, que era como a esquerda (lembra?) chamava quem não comia? Os gordinhos comeram eles? A verdade é que tanto aqui, quanto nos states, pobre, quando tem mais grana, compra: além de TV de tela fina, muito mais junk food e coca-cola. Quem aplacou a fome do brasileiro foi o Habib’s. Igualzinho a “lá fora”, o problema agora não é mais emplacar o “Fome Zero” e sim, desentupir as coronárias.

Portanto, não é surpresa que até nossa bandidagem esteja mais “primeiro mundo”, mais bem alimentada e mais metrossexual.

Os jogadores de futebol, talvez por ganharem grana há mais tempo, foram os primeiros a trocar o visual rústico-tosco daqueles que, antigamente, vinham das “camadas mais humildes”, pela estética popstar. Hoje, todos (ou muitos) poderiam ser confundidos com rappers americanos. Todos são depilados, fazem sobrancelha, ostentam jóias, bonés, óculos espelhados e penteados complicadíssimos.

Se você observar alguma foto (vá na web) dos membros da “gang dos playboys” vai ser incapaz de dizer que atividade profissional eles exerciam. Poderiam jogar no seu time, trabalhar na sua obra, ser uma banda de sertanejo universitário, ou axé-pagode-funk de qualquer (ou nenhuma) escolaridade, ser da turma da sua filha e/ou perigosos criminosos, ou várias dessas opções ao mesmo tempo.

Tempos difíceis para os estereótipos: azar o deles. Legal que peões de obra tenham “cabelinho Cristiano Ronaldo”, mesmo que o preço a pagar por tanta mobilidade social seja o de ter que se conviver com bandidos de figurino bastante duvidoso.

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O que vi da Xuxa

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Não sei se todos sabem, mas como diretor do quadro “O que vi da vida” que é exibido, devezemquandamente, no Fantástico, tive o privilégio de ter sido o primeiro (junto com my team, of course) ouvinte do depoimento, no qual Xuxa decidiu revelar ao público que havia sido abusada sexualmente na infância e adolescência.

A não ser que você estivesse em total isolamento, num mosteiro tibetano (talvez nem lá), ou em coma (talvez nem assim), certamente tomou conhecimento ou participou do tsunâmico bafafá que se seguiu às revelações da famosíssima apresentadora.

Na minha personal estatística e julgamento, a humanidade “passou”. Pelo menos, uns 80 % dos humanos que se pronunciaram a respeito, mostraram dignidade, solidariedade, objetividade e não se perderam em teorias/opiniões, proferidas por uma minoria, que oscilaram entre a imbecilidade e a psicopatia.

O problema é que essa minoria fez barulho. E onde ela foi mais barulhenta e “menos minoritária”? Claro, na Infernet, o lado mais infernal da Web, onde as tais redes sociais, blogs e etcetera serviram como ferramentas rápidas e simples para potencializar a voz da estupidez humana. Com 140 caracteres e anonimato é moleza ser fascista.

Embora não devamos dar eco ao que vem de tão baixo, algumas questões colocadas com mais insistência (e educação), me “obrigam” a não ser tão low profile assim.

Uma das mais frequentes arguições é o por que “disso” ? A resposta deveria ser óbvia, mas a obviedade não existe pra muita gente. Xuxa explica (no depoimento) bem claro seus motivos: ela se engajou, há alguns anos, numa campanha contra a violência doméstica e o abuso infantil, na qual um dos principais fundamentos é lutar para “romper o silêncio”. Não falar sobre casos ocorridos só beneficia o agressor. Mas como ajudar quem está tão assustado e inseguro ? Colocando “luz” na questão pode ser a melhor chance. Ao se expor publicamente, Xuxa não fez um desabafo e sim, tomou um posicionamento político. Assumiu (com custos pessoais), como cidadã e com bravura a frente de uma luta por justiça e civilidade.

Ridicularizar quem sofre tamanho dano não torna ninguém perspicaz. Ao contrário, “zoar” com a vítima é se solidarizar com a pedofilia. Não gostar da Xuxa, não dá a ninguém o direito de ser escroto.

Outra questão recorrente é porque não resolver isso numa terapia ao invés de expor sua “intimidade” num programa de televisão?

Hellooo… não estamos falando aqui de fofocas ou hábitos privados que celebridades (ou as revistas/sites “delas”) cismam em despejar todos os minutos, sobre todos nós. Abuso sexual infantil é um crime covarde. Pedir discrição, silêncio, confinamento ao ambiente doméstico é tudo que o predador quer.

Qualquer um que vem a público se desnudar a esse ponto, passou por um longo e doloroso processo “interno”. Ninguém toma uma decisão como essa intempestivamente, ou porque não tem nada melhor pra fazer.

Muitos também questionaram uma possível hipocrisia. Afinal, Xuxa tinha participado de um filme (“Amor estranho amor” de Walther Hugo Khouri) onde faz sexo com um menino. Ao contrário da maioria, eu assisti a película. Não é um pornô. É só mais um dos inúmeros filmes nacionais horrorosos. E vou revelar uma coisa pra vocês, Xuxa não fez sexo, Xuxa fez um filme. No roteiro, a cena é a de um menino que tem sua iniciação sexual com uma prostituta também novinha num puteiro (iniciação de 99% dos adolescentes na época do filme). O filme é de 1979, ou seja, foi lançado há 33 anos (se ela tivesse matado o menino o “crime” já tinha prescrito), Xuxa tinha 16, portanto também era dimenor. Comparar ficção com terror doméstico real é só burrice ?

Cada um tem o direito a sua opinião, a ser crítico, a questionar. Mas esculachar por simples preconceito, ou por “posições” sub-ideológicassemi-letradas não torna ninguém mais bacana.

Xuxa foi surpreendente, foi madura, corajosa e bem articulada. Quem foi tosco, tolo, vazio ou descerebrado, foi quem saiu atirando sem dó nem piedade.

Azar o deles.

Texto publicado na Revista Alfa, 14 de junho de 2012.

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Duas mortes, duas medidas

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Há pouco tempo fomos surpreendidos (fomos mesmo?) com a notícia que o cidadão (???) Edmundo, de sobrenome “Animal”, teve prescrita sua condenação por ter matado três pessoas em um acidente (???!!!) automobilístico. Esse tipo de impunidade, tão comum em nossas latitudes ou até em outras do tal “third world” (também conhecido como “mundinho de terceira”), pode suscitar os mais diversos tipos de análises sociológicas. Mas quero propor outro enfoque: refletir sobre dois tipos de morte, uma de altíssimo e outra de nenhum valor, que acontecem todos os dias, diante de todos os olhos.
A vítima mais desprezada e, portanto, mais desprezível é, justamente, quem morre no trânsito. São dezenas de milhares a cada ano. Provavelmente, não existe um único brasileiro que não conheça alguém que morreu nessa nossa carnificina cotidiana. Em contrapartida, quantos foram punidos por essas mortes?
Morre-se tanto porque não há demanda de punição, não existem culpados quando todos morrem por “acidente”. Não importa se o “responsável” pela perda de uma ou muitas vidas esteja embriagado, doidão de tudo, dirigindo enlouquecido a trocentos quilômetros por hora, infringindo todas as leis e atropelando a civilidade. Aqui ele nunca é um assassino, aqui quem mata é o “acaso”. Se a morte é sempre acidental, não existe criminoso. Nas nossas ruas e estradas, qualquer um pode morrer, porque qualquer um pode matar.
Agora compare com quem “morre” de droga. Quantos são? Quem sabe? Mas todos sabem que a “droga mata”.
Claro que droga é perigoso – para quem consome.
Claro que droga pode matar – quem consome.
Claro que se drogar não é algo saudável, mas é uma escolha.
E o que fazemos para impedir a morte de quem quer correr o risco de se matar? Movemos mundos e fundos.
Para impedir um doidão de “ir dessa para melhor”, criamos leis e mecanismos de combate que matam muitos mais. Você pode nunca chegar perto de um baseado, de uma pedra de crack, de uma carreira de pó, mas dos subprodutos da proibição (balas perdidas, corrupção policial, territórios dominados, etc) é muito mais difícil escapar.  Para cada drogado que morre pelo uso da substância que escolheu, inúmeros outros são aniquilados pela guerra que se deflagra por essa “causa” – e a maioria desses não tiveram escolha nenhuma.
Deveria ser mais simples: um bêbado é só um bêbado, até que mate alguém. Aí, passa a ser um criminoso. Um drogado também deveria ser só um sujeito que decidiu, voluntariamente, experimentar um alterador comportamental (como o álcool, por exemplo). Até delinqüir, aí também passaria a ser um bandido.
Deveria ser óbvio: homicídio é crime, suicídio não! Quem mata devia ser preso, quem se mata deveria ser pranteado e pronto.
A contabilidade é, simplesmente, cruel. Quanto vale quem morre no trânsito? Pelas nossos números, absolutamente nada. Vamos continuar morrendo aos milhões e nada vai acontecer porque não queremos punir nossa própria auto-indulgência. Afinal, o atropelado de hoje (se der sorte) pode ser o atropelador de amanhã.
E quanto vale quem morre de overdose? Tudo! Nada é suficiente para impedir essa “insignificância estatística” de correr o risco de perder a vida por meio de algo que o próprio escolheu. Para impedir que morram, matamos aos borbotões. Em nome da vida, criminalizamos a droga e acabamos disseminando a morte. No trânsito, em nome da nossa ignorância, não punimos quem mata e assim seguimos, sem desculpas, desrespeitando a vida.

Texto publicado na revista Alfa, 08/11/11

Tem culpa eu?

Povo Bunda SITE

Era 1986 (portanto faz, precisamente, o tal “um quarto de século”), não tínhamos nem começado a sonhar em ter um programa na TV, não tínhamos sequer nos fundido (eu disse “fundido”), éramos dois grupos (ou bandos) distintos: uma parte fazia o jornaleco “Planeta Diário” e os outros (eu entre eles) a revisteca “Almanaque Casseta Popular”.

Para reforçar o caixa, ambas as publicações entraram (na verdade, fomos pioneiros) no ramo da venda de camisetas (no nosso idioma atual chama-se t-shirt) engraçadinhas. Lançamos dezenas de modelos, mas uma foi a campeoníssima disparada, vendendo mais de 20 mil unidades (por reembolso postal, ou seja, embalando uma a uma). Era branca e trazia estampada uma bolona azul com estrelinhas, igual aquela da bandeira brazuca, só que em vez de “Ordem e Progresso”, vinha com a inscrição “Ê povinho bunda!”.

Eram os tempos do “governo” Sarney (toc, toc, toc) e para nós, naquela época e naquela idade, talvez a principal inspiração tenha sido o incômodo com nossa conformidade em sermos tão pouco. Você ser governado (logo após anos de ditadura) por um sujeito de bigode pintado, com pinta e alma de algo que veio do nosso eterno passado e não do nosso sonhado e sempre irrealizado futuro era, para dizer o mínimo, broxante. A morte do Tancredo (conhecido também como o “presidente-peru”, aquele que morre de véspera), a hiperinflação, o jaquetão, tudo isso e mais um tanto, cristalizavam a sensação da nossa inviabilidade, estávamos eternamente condenados a sermos precários, provisórios, apenas um rascunho. Uma espécie de obra que jamais é entregue, um projeto que fica sempre no meio do caminho.

E de quem era o culpado ? Só podia ser do tal “povinho bunda”. Afinal, colocar a culpa numa entidade difusa, torna-a distante e, portanto, faz você não se sentir mais parte dela. Você passa a ser o camarada que critica a multidão, que reverbera o atraso da plebe ignara. Aí você se distingue, se diferencia, passa a ser especial. E tudo isso sem nem precisar suar a camiseta.

Além disso, aquela “mensagem” estampada numa simples peça de vestuário flertava com a iconoclastia ao “acusar” o povo (que sempre era vítima), quando o culpado de sempre é o “governo”. Para nós, brasileiros, nossa “classe” política é abjeta, medíocre, patética, bizarra, canalha e muito mais. Mas o que quase ninguém repara é que ela é também 100% brasileira e escolhida por… brasileiros ! Se nosso problema fosse só nossos políticos, estava tudo resolvido: era só passar o rodo na cambada e, substituir todos por, quem sabe, parlamentares escandinavos. Quem quer apostar que em 6 meses os suecos iam se envolver em um monte de maracutaias e, inclusive, vários iam estar de bigodão pintado de preto?

Faça você mesmo o seguinte teste: escolha um local de lazer público, pode ser um mirante, uma praia carioca, um parque, um estádio de futebol, uma beira de rio… tente escolher um lugar (não vai ser difícil) onde o nível de sujeira seja digno de nota. Aí, você puxa assunto com os demais freqüentadores até chegar na questão que interessa: “por que você acha que esse lugar está tão sujo?”.

Você vai ver que, praticamente, a totalidade das respostas se encontrarão entre duas “correntes de pensamento”: 1) “O povo não tem educação”. 2) “O governo não faz nada”. Ou seja, aqueles que freqüentam e que sujam não fazem parte de nenhuma dessas “categorias”, não são o povo “inguinorante” nem são governo, portanto são inocentes. Provando que é aqui que o inferno são, invariavelmente, os outros e o buraco é sempre mais embaixo.

Na nossa latitude, o famoso “problema da educação” atinge também uma grande parte dos “educados”. De quantas janelas de carrões bacanas você já flagrou alguém jogando lixo? Quantos jovens bem criados, saudáveis e que, provavelmente, “estudaram”, você já viu de pinto de fora, em plena rua, socializando seu xixizão ? Quantos bons cidadãos não dirigem totalmente embriagados ou acham que sinal vermelho é coisa pra otário?  Sem falar do Doutor, que passa a consulta toda falando mal do país, mas não dá recibo, ou do pai “participativo” que suborna o guarda pra salvar o pimpolho que fez merda.

Quantos “torcedores canarinhos” desejam, de coração, uma polícia, realmente totalmente 100% incorruptível? Por falar em corrupção: quem no Brasil inteiro é a favor dela ? Se temos uma totalidade absoluta da população que se declara contra os corruptos, deveríamos ser uma das sociedades mais legalistas do mundo. Somos ?

Violência, corrupção, a precariedade de ser brasileiro, são problemas imensos e antiqüíssimos, mas com algumas exceções, tipo filhote de baleia e de elefante, nada nasce grande. Se os desafios são gigantes foi porque tratamos que ficassem desse tamanho. Foi deixando pra lá, botando a culpa em qualquer direção, desde que fosse longe, que, criamos multidões penduradas em penhascos que, se escaparam da tragédia de ontem, não vão sobreviver a de amanhã. Foi “agindo” assim também que achamos que podemos dirigir bêbados, em velocidade homicida, exercitando, plenamente, nossa incivilidade. Quando, um dia, der errado (e vai dar), não tem problema, terá sido “acidente”, “uma lamentável tragédia” e por aí vai. Vai ?

É por essas, por outras e por todas que, de vez em sempre, estamos nos repetindo, caindo nas mesmas ciladas, numa interminável reprise de filmes que já cansamos de ver. Cansamos ?

Não é o que parece. O tempo passa, o tempo voa e se não vamos mais de jaquetão (embora o dono dele continue, inacreditavelmente, na área, não é mesmo?), vamos de mensalão, se não temos PC Farias, temos Erenice e de tiririca em tiririca, o que a gente faz mesmo é quase nada fazer, caminhando “com passos de formiga e sem vontade”, o que também é conhecido como “brasilidade”.

Como diria o grande Nelson Rodrigues: “Subdesenvolvimento não se improvisa. É trabalho de séculos”. Taí, talvez isso dê uma boa camiseta.

(Texto originalmente publicado na Revista Alfa, 09/2011)

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