O Medo da Sobrevivência

o-medo-da-sobrevivencia_cmanoel_casseta

Pedir trabalho. Precisar trabalhar. Usar todos os meios disponíveis para conseguir se reinserir no mercado de trabalho pode ser muito triste, pode doer demais, mas não é nenhuma vergonha, nem nenhuma novidade. Ainda mais num país numa baita crise econômica com (muito) mais de uma dezena de milhões de desempregados.

O desemprego, a falta de perspectiva para seguir adiante, o medo da sobrevivência é uma dor intensa e imensa. Ter que suplicar uma oportunidade é desesperador pra qualquer um que tenha tamanha necessidade, independente da profissão, ou da função que ocupe ou tenha ocupado.

O horror econômico (causado pelo somatório de mentiras + ladroagens + incompetências) trouxe para cada família brasileira (a própria, de parentes e/ou amigos) a proximidade amedrontadora da questão de como conseguir ganhar o pão. Não existem desempregos crônicos piores ou melhores que outros.

A dor e o desespero não são menores para os que ocupam trabalhos menos “glamurosos”. A dor e o desespero atingem por igual desempregados anônimos e famosos.

59
ao todo.

2012: O ano em que a Europa vai acabar

Post_Europa

Tem coisa melhor que ser “europeu”? Não tinha. Até a conta pesada da tal vida real chegar. O sonho de uma sociedade linda, rica, chiquérrima, onde até as vacas são subsidiadas, numa espécie de show room da humanidade, se mostrou o que, obviamente, sempre foi: uma fantasia caríssima e insustentável.
Ser “europeu” sempre foi viver acima das próprias posses. Lá atrás, a coisa toda foi financiada pelos eldorados coloniais, pelo fluxo contínuo das riquezas que vinham de latitudes mais selvagens, em direção (na maior proporção, numa via de mão única) às matrizes civilizadas e grã-finas.
Quando a coisa toda começou a desandar (e lá se vão quase 100 anos) a rapaziada perdeu a compostura geral e deflagrou o primeiro conflito planetário. Não contentes com a estreia mundial daquilo que ganhou a alcunha de “Grande Guerra”, um tempinho depois o pessoal resolveu partir para o bis.
Depois de duas auto-destruições de responsa, o que poderia salvar o continente mais bacana do mundo? Papai do céu? Não, muito melhor. O crédito. A crença mais forte de todas. Deus havia morrido, mas o dinheiro era eterno.
A grana choveu porque era importante reerguer a parte do continente que não havia caído na mão dos comunas. Pra ganhar a guerra fria só com dinheiro quente. Que pode não trazer felicidade, mas traz wellfare state.
Como a vida foi ficando boa, bacana e fortemente subsidiada, todo mundo foi gostando da festa. A cada dia, a idéia que todos podiam ser bonitos, ricos, cultos, gourmets e trabalharem cada vez menos, desde que nascessem nos países certos, virou verdade religiosa. Tanto que a missão passou ser levar ao maior número possível de irmãos para o “clube”.
E foi aí que, quase do nada, através da varinha mágica da política, abriram-se milhões e milhões de vagas para quem queria ser cidadão dessa nova Shangri-lá. De gregos a portugueses, passando por poloneses, eslovenos, cipriotas, malteses, croatas e até turcos (mesmo contra a vontade de grande parte desses), todo mundo atingiu (ou atingiriam) o paraíso dourado; todos viraram “europeus”.
Uma imensa utopia, formada por dezenas de povos que viveriam em paz, esquecendo séculos de lutas fratricidas, que não teriam mais fronteiras, nem mais pesadelos, tudo isso, simplesmente, porque o alto nível de vida era a garantia.
E qual era a garantia do alto nível de vida? O que seguraria a peteca pra deixar todo mundo de geladeira cheia (mesmo não trabalhando) e esquecerem, de vez, a mania de se matarem uns aos outros ou de votar em pessoas de bigodes esquisitíssimos sempre que a  dor no bolso aumenta? A resposta era simples: dindin, money, l’argent, la plata, bufunfa. For ever, para siempre…
Mas como dizia aquele falecido roqueiro, “pra sempre, sempre acaba”.
E acabou, bebê… o sonho do consumo eterno é só isso: um sonho. O desejo de ter do bom e do melhor, não correndo atrás e sendo menos competitivo é só criancice, ou loucura. As duas opções não alicerçam nenhuma utopia.
A Europa desejava ser, de novo, o farol do mundo. Acabou virando uma espécie de socialaite falida que vive de nariz em pé, fingindo que não vê as goteiras da mansão que não tem mais como manter.
Não é um final feliz… mas pode dar um filme bem europeu. Daqueles bem chatos.

***

Texto publicado na Revista Alfa de janeiro de 2012.

1
ao todo.