DA SÉRIE: BURACO FUNDO É POUCO (2)

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Sabe quem é Caio Rangel? Eu também não sabia. Era um jogador do Flamengo. O tal clube “mais querido”. Ele tem 18 anos. Ele é observado por clubes de fora desde que integrou a seleção sub-15 (sub-15??!!!!). E é (era) uma promessa de craque. Uma “jóia” das tais divisões de base. Ele foi vendido anteontem. Pro Cagliari, por cerca de 900 mil euros. Sei lá se ele joga ou vai jogar bola. E ninguém vai saber provavelmente. Esse até que deu sorte, não foi pra Moldávia, ou pro Kasaquistão… vai desaparecer no Bragantino da Itália.. ou não. Vai estourar por lá. E ser vendido por 50 vezes mais (como o Hulk, David Luiz, Daniel Alves, Luis Gustavo, Diego Costa, Deco, Pepe… e centenas dos “nossos” que NUNCA jogaram no Brasil) para um time maior. Aí, se isso acontecer, daqui alguns anos, vai para a seleção (italiana? do país do clube que o comprar? brasileira?)… ou não. Esse e outras dezenas de milhares pertencem a cotistas, alguns são repartidos entre grupos imensos e anônimos de investimento. Como se impede isso ? Não se impede. Nem o clube “mais querido” consegue competir com o Bragantino da Itália, ou da Moldávia.. (por que? perguntem para a CBF). O fato é que não se pode, nem é justo impedir um menino pobre (ou não) de ganhar dinheiro. A inversão de tudo, começou há muito tempo atrás, quando perceberam que o “negócio” era vender jovens e (talvez) promissores artistas do que preservar, valorizar e comercializar a arte. Esse é o fundo do poço ? Nem perto. Junte tudo isso, mais uma total falta de planejamento estratégico, inteligência, vontade e “condições políticas” e… já era. Quer piorar? Bote o Estado (nosso Estado) dentro, peça mais intervenção estatal. E veremos mais alguns ministérios/estatais, cabides de emprego, escândalos e… nada ! Nada vai mudar pelo desejo e(in)competência da gentalha que dirige nosso (falido) futebol. Nós deixamos que matassem a galinha dos ovos de ouro. Nós éramos o “páis do futebol”, mas como antigas reinos e civilizações, exaurimos nossos recursos e colapsamos Não há luz no fim do túnel, a viagem vai ser longa. Bem vindos à escuridão.

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ao todo.

Chega de patriotada

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Há muitos anos, era comum quando alguém viajava, ou passava um tempo fora do Brasil, ouvir a pergunta: e o choque cultural? Lembro de um caso, contado pelo Fernando Gabeira em um dos seus primeiros livros, sobre um exilado boliviano, nos anos 70, que, ao chegar ao seu destino primeiro-mundista, desmaiou ao ver uma escada rolante. Agora que tanto tempo passou, que já não somos tão isolados ou distantes das novidades do mundo, a pergunta ficou antiga, mas não o impacto. Na verdade, depois de décadas, a melhor palavra para definir o que sentimos longe do patropi não é bem “choque” – é vergonha mesmo.

Saí do Brasil para viver a experiência de ficar ausente, pela primeira vez na vida, uma temporada mais longa (uns seis meses). Há poucas semanas, cheguei a Londres, que já conhecia em rápidas visitas. Parece muito mais tempo. Talvez a distância pareça maior pelas diferenças gritantes, desde a educação dos motoristas, que freiam em 100% dos casos, assim que qualquer pedestre põe o pé na rua para atravessar, até a impressionante eficiência do transporte público, que junta gente de todas as classes e etnias e envia SMS com o momento exato em que cada ônibus, trem ou metrô vai passar no ponto ou na estação. Há também relatos de amigos que contam dos pimpolhos que estudam em escolas públicas com filhos de ministros e motoristas ou o novo sistema de carros compartilhados (como o das bicicletas que existem em várias cidades, inclusive no Rio). Sem contar a ausência da percepção da violência, um tema tão distante da vida cotidiana das pessoas que a gente até estranha.

A melhor palavra para definir o que sentimos quando estamos longe do Brasil é vergonha.

É claro que primeiro vem a tentação irresistível de se autodesculpar, afinal eles são ricos, desenvolvidos, avançados, têm história e muito mais. Não queremos cair no deslumbramento de achar que tudo é bom por aqui e nada presta em nossas latitudes. Mas, sinceramente, a gente tem muito o que aprender.
Se a questão fosse só dinheiro, por que até o aeroporto de Lima, no Peru, é melhor que qualquer um dos nossos?

Em um ranking de qualidade da infraestrutura divulgado recentemente no jornal Financial Times, o Brasil aparece em 104º lugar entre 142 países. A China, por exemplo, está em 26º e a África do Sul, em 50º. E quando o assunto é educação, nossa situação é ainda pior. Em outro ranking global, composto por 40 países e produzido pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), que avalia o desempenho dos alunos e a qualidade dos professores, ficamos em 39º lugar, à frente apenas da Indonésia. Fica difícil gritar Brasil-il-il-il (ainda mais com eco). A verdade é simples, não dá para acreditar em novas classes médias com velhas valas negras. E democracia (e desenvolvimento), galera, só se faz com serviços públicos de qualidade. O resto é patriotada.

Publicado na Revista ALFA – maio/2013
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ao todo.