E lá se vão meus humoristas

A bruxa está solta! Só este ano o Brasil perdeu três dos seus maiores humoristas: Chico Anysio, Millôr Fernandes e, agora, Ivan Lessa. Esses três caras (e mais João Gilberto, é claro) me fizeram escolher essa divertida e árdua profissão que exerço há mais de 30 anos e que garante o LC (Leitinho das Crianças) lá em casa.

Curiosamente, o único deles que não conheci pessoalmente foi o Chico Anysio. Quer dizer, uma vez fui apresentado a ele no festival de humor Risadaria onde Chico foi o grande homenageado do evento. Mas o vi tantas vezes na TV e em shows, li tanto os seus livros, colunas e entrevistas que posso dizer que Chico Anysio era de casa.

Millôr Fernandes foi a maior admiração que eu tive na vida: nunca li tanto um autor como Millôr. Adorava seu texto, suas frases magníficas e seu teatro. Amava de tal forma o desenho do Millôr que me especializei em imitar o seu traço. Lembro quando tinha 12 anos e a minha mãe comprou o livro “Trinta Anos de Mim Mesmo” pra mim numa livraria do Centro depois que saímos do dentista. Comecei a ler o livro ainda no ônibus de volta pra casa e, em poucos meses, a capa do “Trinta Anos de Mim Mesmo” ficou toda despedaçada de tanto ser manuseada. Tive que mandar encadernar o livro.

Comecei a trabalhar no Pasquim muito novo e, depois de alguma prática, passei a publicar meus cartuns regularmente no famoso hebdomadário ipanemense onde fiz grandes amizades como o Claudio Paiva, o Reinaldo, o Agner, o Ziraldo, o Jaguar e o Nani. Mas o Millôr já não trabalhava mais lá.

Um dia o telefone tocou lá na casa dos meus pais na Tijuca. Era o Jaguar dizendo que o Millôr estava ali do lado dele e queria falar comigo. Quase caí pra trás. Ao telefone, Millôr me convidou para ilustrar, diagramar e editar as colaborações que ele fazia pra Veja, para uma página semanal de um jornal em Lisboa que eu não me lembro o nome. Fui mais tarde ao seu famoso estúdio na General Osório e combinamos a parada. Millôr perguntou se eu ia imitar o desenho dele nas ilustrações e eu, com a arrogância típica dos jovens, respondi que preferia fazer o meu mesmo (naquela época eu já tinha o meu, digamos, “estilo ”). O Millôr era ainda mais foda pessoalmente que no texto. Falava de tudo, comentava todos os assuntos num fluxo de pensamento incessante que deixava a nós, pobres mortais, humilhados. Fiquei tão nervoso nesse dia que acabei pagando o maior mico na frente do grande humorista: sem querer, derrubei um vidro de nanquim em cima da mesa. Millôr nem ligou, passou um pano em cima rapinho, disse que isso acontece com todo mundo e continuou o seu brilhante monólogo por mais uma hora.

Ivan Lessa escrevia no Pasquim quando eu trabalhava lá mas morava há mais de 20 anos em Londres. Produzia com qualidade espantosa várias colunas, dicas, cartas, fotonovelas, artigos com pseudônimos, enfim, ralava muito. Era politicamente incorreto quando essa expressão não existia e não deixava os humoristas milionários. Exemplo: “O brasileiro é um povo que tem os pés no chão. E as mãos também”. Trabalhava na BBC. Agradeço aos contribuintes britânicos por sustentarem por tantos anos o meu ídolo.

Um dia, me convidaram para ilustrar a sua famosa coluna Gip Gip Nheco Nheco. Adorava receber aquelas frases antológicas em primeira mão e, ainda por cima, colocar piadas minhas ilustrando as frases. De vez em quando, Ivan Lessa me mandava uns bilhetes elogiando e sempre cobrando frases que, de repente, eu não tinha incluído. Guardei os papeizinhos como se fossem troféus mas acabei perdendo numa mudança.

Anos mais tarde, no tempo do nosso jornal, O Planeta Diário, eu e o Reinaldo marcamos um encontro com o Ivan no metrô em Londres. Chegamos lá, no local e horas marcadas, e vimos o Ivan conversando com uma mulher. Ivan nos avistou, despediu-se da criatura e veio falar com a gente, agitado: “Olha, eu já vou logo avisando, essa é uma amiga minha, não tem nada de errado nisso, eu sou casado. É foda, é só ver brasileiro que eu já começo a pensar em sacanagem”. Em seguida, ao ver que carregávamos várias sacolas de compras detonou: “É impressionante: não existe brasileiro sem sacola!”. Demos uma entrevista pra ele na Rádio BBC, pela qual recebemos 40 libras e depois fomos tomar “uns bons drink”. No caminho mais uma frase certeira: “O Brasil só é bom pra putaria e drogas.” Ao sairmos do prédio, na porta da BBC, demos de cara com o famoso ator Donald Sutherland, que entrava no prédio para dar uma entrevista. Ivan emendou: “Ele vai ganhar a mesma coisa que vocês.”

Chico, Millôr e Ivan não estão mais entre nós. E também não devem estar no céu, em cima uma nuvenzinha e tomando cerveja, porque pessoas brilhantes como eles jamais participariam de um lugar comum tão babaca.

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ao todo.