BALANÇO DA COPA

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Essa foi a minha sétima Copa do Mundo, trabalhando quase que diariamente na cobertura do Mundial. A primeira mesmo foi na década de 80, quando eu era cartunista no Pasquim, mas não se comparava ao que veio depois em termos de trabalho e de diversão. Em 90, eu e o Marcelo Madureira já escrevíamos a coluna do Agamenon e veio o convite para cobrir a Copa na Itália. Combinamos que o Marcelo iria junto com a turma do Globo (na época liderada pelo grande Henrique Caban) e eu ia ficar aqui no Brasil, fechando os artigos diariamente. Era no tempo do fax! Ia todo dia na redação do Globo, recebia os faxes que o Madureira enviava da Itália, fazia uma redação final, arrumava fotos e mandava os artigos pra gráfica sempre com o auxílio da galera do Caderno de Esportes, entre os quais, o mitológico repórter esportivo Arruda, informante do Ruy Castro na sua sensacional biografia do Garrincha, que afirmava que o Anjo das Pernas Tortas tinha um pênis de 25 cm ! Bom, o Garrincha era mesmo de Pau Grande…

 Nas outras Copas, também fizemos o Agamenon diariamente além da cobertura no Casseta e Planeta Urgente e durante a programação normal da Globo (JN, Fantástico, Jornal da Globo, etc). Copas inesquecíveis foram a de 94 nos EUA (que ganhamos) e a da França em 98 (quando perdemos na final para os donos da casa, eu estava lá no Stade de France e vi tudo mesmo sem entender nada que aconteceu). A Copa de 2002 nós ganhamos mas a seleção saiu desacreditada daqui do Brasil e a cobertura na TV se restringiu à Fátima Bernardes na frente do hotel da seleção e ao Galvão Bueno.

E ontem acabou a Copa no Brasil, talvez a melhor de todas. Por que ? Ora, porque foi aqui onde a proximidade física dos jogos, a movimentação de turistas nas ruas, o bom futebol apresentado, fizeram do Mundial no Brasil uma Copa sensacional. E graças a nós, brasileiros que, a despeito do mico das autoridades que deixaram tudo pra cima da hora e da seleção que era uma bosta, fizemos tudo direitinho, esbanjando simpatia, simplicidade e hospitalidade. Sem contar a cobertura do Agamenon na Veja e a participação da gente no SporTV, principalmente nos Extra Ordinários. Foi show de bola !

Ninguém esperava a derrota histórica de 7 a 1 pra Alemanha mas a verdade é que nossa seleção era muito fraca, só não vimos antes porque estávamos no meio de uma intensa publicidade misturada com patriotismo barato e a nossa eterna auto ilusão, que sempre nos persegue quando o assunto é Copa do Mundo. Espero que o mico da seleção dê uma chacoalhada na empoeirada e caquética CBF e que, até 2018, surjam pelo menos alguns craques de verdade além do Neymar. Com essa galera que jogou essa Copa não dava mesmo pra gente principalmente se você comparar Hulk, Fred, Jô com Robben, Muller, Schweinstagger, James Rodriguez, Messi, Di Maria e até mesmo o atacante mordedor Suárez.

Até 2018! Espero que a gente se veja lá na Rússia!

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MINHA DITADURA

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Com a recente enxurrada de livros, ensaios e reportagens sobre os 50 aninhos do golpe de 64, resolvi partilhar com vocês as minhas memórias dos anos de chumbo. Pra começar, não lembro de nada do dia 31de março/1 de abril: não ouvi nenhum tiro, não vi nenhum tanque, nenhum protesto na rua e também não lembro de nenhuma conversa dos mais velhos. Tudo bem, eu só tinha 5 anos mas é engraçado: me recordo vivamente da notícia da morte do Kennedy na televisão, que foi quase um ano antes.

Também tenho uma vaga lembrança de ver na televisão algo sobre o sequestro do embaixador americano. Ou será que foi sobre o embarque dos presos políticos que foram trocados pelo diplomata? Alguns daqueles terroristas trabalham hoje no governo, como o Franklin Martins. Outros estão pagando uma etapa na Papuda tipo José Dirceu. Mas na época, eu não sabia quem eram esses caras. Aliás, não sei até hoje.

 Apesar do pessoal da minha família gostar de conversar sobre política, só na minha adolescência comecei a entender que vivíamos num regime fechado. Meu colégio ficava perto do famigerado quartel da Rua Barão de Mesquita na Tijuca e todo dia eu passava pela porta do famoso antro de torturas. No começo não sabia de nada que acontecia ali mas, com o tempo, me toquei que naqueles porões sinistros muita gente estava tendo, na melhor das hipóteses, suas unhas arrancadas. Poderia dizer, para aumentar o efeito dramático, que ouvia os gritos sofridos dos presos quando caminhava de volta pra casa mas isso nunca aconteceu. Um dia houve uma enorme briga entre uns garotos do colégio que juntou uma multidão justamente na frente do quartel interrompendo o  trânsito na Rua Barão de Mesquita. Os PMs não fizeram nada, ficaram lá nas suas guaritas enquanto o pau comia entre a galera.

Um ano antes do vestibular comecei a publicar meus cartuns no Pasquim o que deixou meu avô, que era militar reformado, muito preocupado. Tive vários cartuns censurados. Os desenhos eram enviados pelo correio pra Brasília e impiedosamente riscados com Pilot pela turma da tesoura. Mesmo assim já estávamos numa fase, digamos, mais branda, do regime, a famosa abertura lenta, segura e gradual. Lenta, muito lenta, por sinal. Filmes, peças de teatro, novelas e músicas continuavam sendo censurados mas, de uma forma ou de outra, a gente acabava sabendo. Lembro de sessões piratas do proibido “Último Tango em Paris” e de algum chato tocando no violão uma música censurada do Chico Buarque. Era uma merda, é claro, mas a gente era jovem e tudo parecia uma aventura excitante.

Hoje meus filhos me perguntam sobre 1964 porque precisam fazer seus trabalhos no colégio e na faculdade. E eu me dou conta que passei quase metade da minha vida num regime ditatorial. Por pior que o Brasil esteja hoje em dia, pelo menos, temos liberdade e não somos governados por militares tapados. Já é alguma coisa.

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ao todo.