MINHA DITADURA

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Com a recente enxurrada de livros, ensaios e reportagens sobre os 50 aninhos do golpe de 64, resolvi partilhar com vocês as minhas memórias dos anos de chumbo. Pra começar, não lembro de nada do dia 31de março/1 de abril: não ouvi nenhum tiro, não vi nenhum tanque, nenhum protesto na rua e também não lembro de nenhuma conversa dos mais velhos. Tudo bem, eu só tinha 5 anos mas é engraçado: me recordo vivamente da notícia da morte do Kennedy na televisão, que foi quase um ano antes.

Também tenho uma vaga lembrança de ver na televisão algo sobre o sequestro do embaixador americano. Ou será que foi sobre o embarque dos presos políticos que foram trocados pelo diplomata? Alguns daqueles terroristas trabalham hoje no governo, como o Franklin Martins. Outros estão pagando uma etapa na Papuda tipo José Dirceu. Mas na época, eu não sabia quem eram esses caras. Aliás, não sei até hoje.

 Apesar do pessoal da minha família gostar de conversar sobre política, só na minha adolescência comecei a entender que vivíamos num regime fechado. Meu colégio ficava perto do famigerado quartel da Rua Barão de Mesquita na Tijuca e todo dia eu passava pela porta do famoso antro de torturas. No começo não sabia de nada que acontecia ali mas, com o tempo, me toquei que naqueles porões sinistros muita gente estava tendo, na melhor das hipóteses, suas unhas arrancadas. Poderia dizer, para aumentar o efeito dramático, que ouvia os gritos sofridos dos presos quando caminhava de volta pra casa mas isso nunca aconteceu. Um dia houve uma enorme briga entre uns garotos do colégio que juntou uma multidão justamente na frente do quartel interrompendo o  trânsito na Rua Barão de Mesquita. Os PMs não fizeram nada, ficaram lá nas suas guaritas enquanto o pau comia entre a galera.

Um ano antes do vestibular comecei a publicar meus cartuns no Pasquim o que deixou meu avô, que era militar reformado, muito preocupado. Tive vários cartuns censurados. Os desenhos eram enviados pelo correio pra Brasília e impiedosamente riscados com Pilot pela turma da tesoura. Mesmo assim já estávamos numa fase, digamos, mais branda, do regime, a famosa abertura lenta, segura e gradual. Lenta, muito lenta, por sinal. Filmes, peças de teatro, novelas e músicas continuavam sendo censurados mas, de uma forma ou de outra, a gente acabava sabendo. Lembro de sessões piratas do proibido “Último Tango em Paris” e de algum chato tocando no violão uma música censurada do Chico Buarque. Era uma merda, é claro, mas a gente era jovem e tudo parecia uma aventura excitante.

Hoje meus filhos me perguntam sobre 1964 porque precisam fazer seus trabalhos no colégio e na faculdade. E eu me dou conta que passei quase metade da minha vida num regime ditatorial. Por pior que o Brasil esteja hoje em dia, pelo menos, temos liberdade e não somos governados por militares tapados. Já é alguma coisa.

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ao todo.