Vida de quadrúpede – #02

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Como assim? Ainda não ficou bom? Não é possível, já tá tirando onda. Meu vizinho, Nuzman, já deixou a cadeia, agora está em casa escondido embaixo da cama. O ex-vizinho, atual morador de Benfica, Sérgio Cabreiro, está de mudança para Rondônia. Temer disse que trabalho escravo é mimimi de trabalhador nutella, depois voltou atrás, Cristiano Ronaldo foi eleito o melhor Neymar do mundo, a novela “A Forçx do Querer ser Gay, Lésbicx e Trans” acabou. Pois é, tanta coisa aconteceu enquanto continuo aqui na minha prisão domiciliar.

No início, sentindo dores e muito desconforto, estava revoltado. Não adiantou nada. Hoje estou adaptado a essa vida.

Foram necessárias algumas alterações na minha rotina. Só vou à rua para consultas médicas. Não posso carregar nada além das muletas, o que me obriga a andar com uma mochila dentro de casa, caso queira transportar um livro, um jornal ou uma garrafa d’água. Se o telefone está longe e começa a tocar, esquece, não vou chegar a tempo. Afinal, não ando, me locomovo e mal. Dependo de parentes e amigos pra me poupar de deslocamentos. Se esqueci meus óculos no quarto, tenho que pedir a alguém para pegar.

Apesar de magro, tenho que tomar cuidado com a comida, pois tinha uma vida de atleta amador. Agora descer escada é meu esporte radical – e pratico pouco. O ortopedista manteve a ordem de mexer o mínimo possível com o quadril. Se já não tinha essa malemolência toda – nunca fiz um quadradinho de oito, sairei dessa com a ginga de um alemão da Bavária. Sexo segue proibido. Acho até que já zerei o X-Videos.

Nem tudo é ruim, porém. Uma das vantagens é escapar de roubadas. Não preciso mais dar desculpas esfarrapadas, o farrapo sou eu mesmo e todos sabem disso. Penso, inclusive, em manter a fama de muletado por mais algum tempo depois da alta. Aliás, aguardo ansiosamente o dia em que o doutor Ney Pecegueiro vai me se inspirar no Temer e revogar essa portaria que me impede de ir e vir livremente. Aguardem para breve o lançamento da campanha “Libertem o De La Peña!”

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Vida de quadrúpede

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Faz aproximadamente dez dias que um tombo bobo me deixou prejudicado. Virei um quadrúpede, só me desloco com quatro membros, sendo minhas as duas pernas e alugadas, duas muletas. A vida mudou muito nesses dias. Minha mobilidade é quase zero. Tive que reaprender a andar. Não me lembro se demorei a dar meus primeiros passos na infância, mas agora, a coisa tá complicada.

Sempre achei que as distâncias eram relativas. Nadar 3 quilômetros, por exemplo, é custoso para muitos, impossível para outros. Para mim, era só um pouco cansativo. Atualmente as distâncias são absolutas. Qualquer uma. Tudo ficou muito longe. Da cadeira onde estou agora até meu quarto são uns sete metros, mais ou menos. É praticamente um Caminho de Santiago. Além de demorar séculos para vencer o percurso (não diria vencer, no máximo, empatar), tenho que estar atento aos movimentos. Você pode pensar em diversos assuntos enquanto anda. Eu tenho que pensar no próximo passo. E só. Os neurônios têm que comandar cada célula do corpo para que a operação seja bem sucedida. As muletas acompanham a perna esquerda, a mais afetada com a fratura do quadril; em seguida, ordeno a direita para nos seguir. Nada de mudanças rápidas de direção!

Nem deitado tenho sossego. Tenho que prestar muita atenção em como me mexer na cama. Não se anime, não estou falando de posições sexuais, a única coisa que posso fazer na horizontal é dormir mesmo. E com cuidado até com o que vou sonhar. Não posso ser perseguido por leões na África, certamente vou ser alcançado e destroçado. Levantar-me para ir ao banheiro exige um raciocínio afiado. Que movimentos não afetariam a lesão?

Fui forçado a uma prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica. Tenho que pedir autorização médica para ir ao quintal. E, claro, preciso arrumar o que fazer dentro de casa. Já vi toda terceira temporada de Narcos, passada em Cali. Espero ansioso o lançamento da quarta e da quinta: Narcos/México e Narcos/Rocinha. Por enquanto, assisto a Disjointed, Masters of None, Larry David na HBO… Tirei o atraso e li “Sapiens”, agora estou encarando o tijolaço “Tancredo Neves”, do Plinio Fraga. Tem outros na fila e não paro de receber sugestões. São livros que amigos acham que eu gostaria de ler e outros que eles mesmos não têm tempo e pedem pra eu ler e depois contar pra eles.

Apesar de passar o dia de bobeira, sou um inútil nas tarefas domésticas, já que não posso carregar nada além das muletas. A vantagem é que sou um imprestável que não leva bronca por isso.

No momento, meu maior medo é da consulta médica. Temo chegar no consultório e o ortopedista dizer que fiz tudo errado, não segurei a muleta corretamente, não fiz o repouso adequado, forcei movimentos bruscos ao escovar os dentes… Com isso o problema se agravou e vou ter que operar a bacia.

De resto, vai tudo bem. Ao menos aprendi uma coisa importante nesse período de imobilidade. Nunca tomar o último gole do chope antes de ir ao banheiro. Pode não dar tempo de chegar lá.

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Prisão domiciliar

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Aquela quinta-feira não começou bem na minha área. Acordei com um insistente despertador: helicópteros zunindo sobre a cabeça. A diferença deles para os mosquitos é que são à prova de raquete elétrica. Levantei e me preparei para ir nadar. Quando pus a bike fora de casa, vi o burburinho. Meu vizinho, Carlos Nuzman, presidente do COB – Comitê Olímpico da Bandidagem, estava aceitando uma carona da Polícia Federal. No ato, pensei em chegar mais perto para acompanhar o noticiário sem precisar da Globo News. Mirei a multidão, subi na bike, forcei a primeira pedalada e em segundos estava no chão, com uma dor lancinante no quadril. Não entendi o que tinha acontecido. Vi apenas um pequeno arranhão na cintura, como aquela feridinha sem vergonha podia estar provocando tamanha dor. Pensei em guardar a bike e chamar um táxi para ir malhar – naquela altura, já tinha perdido o melhor da fofoca. Quando tentei me levantar, notei que a coisa foi pior do que imaginava.

Bem pior. Mais tarde, uma tomografia revelou que o problema tinha um nome impronunciável na frente de crianças, mesmo acompanhada dos pais: fratura da espinha ilíaca ântero-superior. Em português: quebrei a pontinha do osso da bacia e dói pra cacete! É o ponto onde o músculo que sustenta a perna se prende ao osso. Vou ficar ao menos 40 dias de molho, andando de muleta, subindo escadas feito uma múmia, sentando no carro e puxando a perna com as mãos. Ou seja, o melhor é ficar em casa, pensando na morte da bezerra. Ou escrevendo bobagens, como agora.

Quando o analgésico fez efeito, voltei a pensar no meu vizinho. Ele também vai ficar um bom tempo sem poder ir à academia. E a restaurantes, a cinemas, a livrarias, a padarias e a aeroportos. Naquela fatídica manhã, na mesma hora fomos cerceados da nossa liberdade. Enquanto minha dor foi no quadril, a dele foi no bolso. No momento, ele está recolhido numa cela. Eu já estou em prisão domiciliar. Mesmo que ele volte pra casa, vai levar um tempo como eu – sem poder vestir uma bermuda e passear no quarteirão. Eu, porque não posso andar muito, ele por não querer ostentar a tornozeleira eletrônica.

Em termos de esporte, meu ano acabou. Tchau maratonas aquáticas, treinos no mar, passeios de bike, caminhadas na orla. Mas em 2018 retomo tudo. Já ele, vai levar mais um tempo até praticar outro esporte que não o xadrez. Minha situação não é boa, mas não dá pra invejar a dele. Mesmo sabendo que vou ter que cumprir minha pena na íntegra. Não tem delação premiada que me livre dessa chatice.

Ah, sim, outra coisa: consultei um ortopedista e ele garantiu que meu caso não dá direito a um Habeas Corpus.

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Um apreensivo domingo de sol

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Domingo passado fiz o que já faz parte de uma rotina de anos: aproveitei uma brecha para visitar meus pais na Vila da Penha. Dessa vez, porém, foi diferente. A véspera foi marcada por notícias de tiroteio intenso próximo à estação do BRT em Vicente de Carvalho, a uns 500 metros de onde eles moram, casa em que fui criado até meus vinte e poucos anos. Era um domingo de sol, céu azul, e eu nervoso, sem saber se teria uma tarde tranquila com minha família ou se estava indo para uma praça de guerra.

Costumo brincar dizendo que sou do tempo da Vila da Penha Raiz e não dessa Vila da Penha Nutella, com metrô pertinho, BRT na porta, shopping, cinema e outras mordomias. Quando era garoto, pra ir à praia em Ipanema, tinha que pernoitar na casa de um amigo na Tijuca, bairro que eu já considerava de frente pro mar por ter ônibus direto para a zona sul.

Hoje vejo que a situação de outra forma. Na verdade, eu morei na molezinha. Podia brincar na rua a qualquer hora do dia ou da noite, voltava de madrugada das festas sem deixar ninguém assustado em casa. Largava minha bike na porta da padaria sem tranca, podia lavar o carro do meu pai com a chave na ignição. Tudo bem, o cinema não era na esquina, mas ia e voltava sem medo. No sábado, o pessoal que saía de Vicente pra ir ao Rock in Rio teve que se jogar no chão da estação e rezar, mesmo que fosse ateu. A bala comeu solto.

Pensei duas vezes no itinerário a fazer para a visita. Nada de Linha Amarela, ia me jogar na avenida Pastor Martin Luther King, o olho do furacão. Evitei também passar da Vila Kosmos, como gosto de fazer pra rever a vizinhança.

Aquela Vila da Penha em que jogava bola, soltava pipa, brincava de pique-bandeira é que era nutella. A Vila da Penha atual exige nervos de aço. E colete à prova de balas. É triste constatar que, no bairro da minha infância, os moradores de hoje precisam ter o espírito de um Chuck Norris.

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O vendido… e mal pago

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Fui convidado pela revista literária QUATRO CINCO UM pra fazer uma resenha sobre o ousado livro O VENDIDO, do escritor americano Paul Beatty. Confere aí.

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“É um negro de primeira linha.”– diria um certo ministro do nosso STF se fosse convidado a depor como testemunha no julgamento “Eu x O Povo dos Estados Unidos”. A declaração não chamaria a atenção do leitor de O Vendido. Também não ficaria claro se a declaração é a favor ou contra o réu. É preciso ler e reler para tentar captar a intenção do autor. Talvez nem assim se consiga. Paul Beatty escreve em camadas e deixa que se desfrute seu texto como quiser. Você pode ficar irritado e arremessar longe o exemplar por não querer acompanhar nem mais uma linha desse raciocínio reacionário. Pode rolar de rir com as tiradas de humor negro (ou seria humor afro-americano?). Pode refletir sobre a descrição crua e desaforada do racismo. Faça o que quiser, ele não está nem aí. Não se preocupa se o leitor é branco, negro, mexicano ou asiático. Beatty causa repulsa porque te faz rir de algo muito grave. Eu estou rindo disso? Então quer dizer que sou mais racista do que eu mesmo imaginava? Mas eu sou preto. Quer dizer, nem tão preto assim, tenho cabelo bom!

O Vendido tem o espírito de um show de stand-up em que qualquer piada é permitida, por mais escrota que seja. Desde que você seja negro. Ou preto. Ou crioulo. Nossas gradações para definir um afrodescendente param por aí. Não temos uma palavra equivalente ao “nigger”, que ele usa e abusa sem pedir licença. Não se importa se o leitor enrubesce frente a ela. Se for branco, claro. Se for preto, não vamos perceber na pele o incômodo. Por dentro, pode ser que se irrite. Talvez se acalme, ao saber que o autor é um crioulo, como ele. Aí vem a dúvida. Ele está mesmo fazendo troça de um drama por que passam os milhões de negros nos EUA, aqui ou em qualquer lugar? É indiferente ao preconceito, à discriminação? Qualé a desse negão?

Em tempos politicamente corretos, Beatty tem a audácia de inventar uma história em que o protagonista, um negro, filho de um militante da causa negra, aceita escravizar um octogenário também negro. Por isso é preso e vai a julgamento. Ali apresenta os atenuantes. Não houve tráfico. Hominy, um artista de tevê aposentado, não foi negociado, é escravo por livre e espontânea vontade. Também não é obrigado a trabalhar, chega e deixa o serviço a hora que bem entende. Faz questão de ser submisso, a ponto de ficar de quatro para se fazer de banquinho, de modo que o “Vendido” alcance a sela do seu cavalo. Às vezes, leva umas chibatadas. Sem dramas, ele admite merecer por ser indolente e preguiçoso. “A verdadeira liberdade é o direito de ser escravo”– comenta o ex-Batutinha, Hominy.

Se não há problemas em possuir um escravo em pleno século XXI, o narrador vai mais fundo. Demarca Dickens, um gueto pobre nos arredores de Los Angeles, onde possui uma fazenda precária e produtiva, e ali passa a praticar todo tipo de racismo inverso. Ressegrega restaurantes, hospitais, lojas, proibindo brancos de entrarem ali. A Escola de Ensino Fundamental Chaff é uma instituição educacional para negros. Ou para não brancos, já que nativos, asiáticos e latinos povoam a região e ocupam uma zona cinzenta nessa discussão. É como o caso brasileiro do porteiro nordestino (leia-se paraíba) que discrimina o entregador de pizza negro (crioulo). O entregador poderia revidar: “Pra ser racista, meu chapa, precisa ser mais branco que isso daí.”.

Os brancos também terão sua escola exclusiva, a Academia Wheaton. A área está demarcada e os tapumes são ilustrados com o projeto de instalações confortáveis e de alto nível. Detalhe: não há brancos na região. Ainda assim, a ressegregação surte efeito. Os índices de criminalidade baixam e as notas dos alunos da Escola Chaff sobem a ponto de alunas brancas desejarem ingressar na instituição. Barradas, são escoltadas como no triste episódio de 1957 ocorrido com estudantes negros que recorreram à Justiça para assistir às aulas no Little Rock Central High School, em Arkansas. Naquela vez, os alunos brancos xingaram os negros e cuspiram neles. Aqui, a população implora por autógrafos das branquinhas. Os clientes das lojas se sentem privilegiados ao verem a placa de “Proibida a Entrada de Brancos” nas vitrines. O narrador é bem-sucedido na intenção de elevar a autoestima dos moradores.

O autor corta as amarras supostamente impostas por movimentos de emancipação do negro. Beatty não hesitaria em pôr um turbante numa personagem branca, assim como deixaria uma banda tocar a marchinha Nega do Cabelo Duro no carnaval. Passa ao largo da discussão sobre apropriação cultural. Logo no início da história, o narrador relata o que ganhou no seu afro mitzvá, uma cerimônia afrorreligiosa equivalente ao judaico bar mitzvá. Indiferença? As aparências não têm importância, os problemas são mais profundos e tão arraigados que os personagens não se detêm aos detalhes. O pai do “Vendido” era um conselheiro da comunidade, um mediador de conflitos. Para o narrador, era um “encantador de crioulos”. Estão mergulhados no ceticismo. Não se comemora a eleição de um presidente negro. Nada mudou na vida dos pretos. Obama não acabou com o racismo, sequer o aliviou. A certa altura, “Vendido” chega a afirmar que o único lugar da América onde não havia racismo era nas fotos do afropresidente de mãos dadas com a família no gramado da Casa Branca.

Talvez Monteiro Lobato fosse lido livremente. Talvez sua obra passasse por uma revisão, como o clássico O Grande Gatsby, que ganha uma paródia com o título O Grande Blacksby. Nunca sabemos que rumo a conversa com o protagonista pode tomar. Sua franqueza e sinceridade desconsertam o leitor. A menina é miss, apesar de não ser tão bonita, “mas é negra”. Inverte ironicamente situações típicas, como sua desculpa para ter sempre maconha boa: “Eu conheço uns branquelos”. Trata com naturalidade generalizações que a boa educação manda evitar, como o gosto dos afros por melancia e a promiscuidade sexual em famílias pobres. Os mexicanos também não escapam. E o mexicano aqui pode ser oriundo de qualquer região da América Central ou do Sul. Quantas vezes esse equívoco acontece na vida real? A questão que se coloca é: o que se ganha escamoteando o fato? Muito (ou pouco) se fala da discriminação dos negros. E dos nativos, das mulheres, dos latinos, dos japas? Estão liberados para o bullying?

A discriminação está entranhada na sociedade e hipocritamente negada. Não percebemos a sua presença, chegamos a acusar desconforto em certas situações, enquanto outras passam despercebidas. É o caso do neurocientista Carl Hart, que veio ao Brasil em 2015 para ministrar uma palestra e foi barrado na portaria de um hotel paulistano. A notícia causou indignação e furor nas redes sociais. Hart, porém, rebateu de forma contundente. Diminuiu o peso do incidente e centrou fogo em algo visto com naturalidade: era o único negro no auditório. “Vocês deviam ter vergonha disso”– disse à plateia.

Nem sabemos do que nos envergonhar. Canso de ser chamado de moreno, de forma respeitosa. Aliviam minha negritude, como forma de elogio. Cheguei a ouvir de um guardinha as desculpas por tratamento desrespeitoso: “O senhor não é negro”. Não? Como assim? “O senhor é da Globo…”. Não sou mais. Será que agora virei (ou voltei a ser) negro? Pertenço a uma raça nova catalogada pelo narrador: as celebridades. A ausência de negros nas propagandas de artigos de luxo não é problema. Diz ele: “A única coisa que jamais vi em comerciais de carro não são judeus homossexuais ou negros: são engarrafamentos”.

E Beatty brinca nessa corda bamba sem uma tela de proteção. Certas passagens não podem ser tiradas do contexto sem prejuízo ao julgamento do autor e do leitor. Não é um livro que se leia tranquilamente num metrô; é preciso manter as páginas quase fechadas para que os vizinhos não acompanhem, como uma revista pornográfica. Não se sabe qual seria a reação do companheiro de vagão se, num relance, pescar o trecho em que o narrador descreve com orgulho uma brincadeira que criou para as crianças negras – o túnel da brancura. Num lava-jato desativado, a molecada podia escolher o tipo de lavagem racial que gostaria de ter: brancura regular, que resultava em maior expectativa de vida; brancura luxo, em que recebia uma advertência em vez de ser levada para a cadeia pela polícia; e brancura superluxo, que dava direito às regalias acima, mais “um barco que você nunca usa e um terapeuta que ouve”. A sensação de ser branco por alguns minutos era uma alegria pros neguinhos.

Não cabe a mim me aprofundar nas considerações sobre o livro. Posso acabar tirando o prazer da leitura e atrapalhando a sua própria avaliação. Também não revelarei se o “Vendido” será ou não condenado. Digo apenas que Beatty rasga as etiquetas do bom comportamento literário.

Existem várias formas de discutir o racismo. O humor abusado, audacioso e malcriado é uma delas. Mas exige sofisticada interpretação. Ainda me pergunto quantos negros brasileiros lerão esse livro. Estará à venda para brancos ou exigirão atestado de afrodescendência?

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Turbinas aquecidas

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Qual a melhor maneira de entrar em campo confiante numa partida decisiva da Libertadores? Vencer um clássico? Quebrar uma sequência negativa? Ver o Roger fazer dois gols e queimar a língua de seus detratores (eu incluído)? Derrotar o arquirrival e encostar no G6 do Brasileirão? Ou todas as respostas acima?

Jair fez bem em entrar com força total no domingo. Estávamos mordidos da eliminação na Copa do Brasil. Uma vitória não faz o relógio voltar atrás, mas ajuda a dar passos mais firmes para a frente.

Jogamos com segurança, tivemos o domínio da partida. Roger fez uma partida impecável e o futebol de Leo Valencia finalmente apareceu. “Eles só ganham quando não vale nada…” – ouvi de alguns despeitados. Esqueceram que vale, sim. Campeonato Brasileiro é por pontos corridos, cada vitória soma. Além do mais, o prazer é maior quando podemos zoar vizinhos e amigos.

Os jornais ressaltaram que o Botafogo interrompeu um jejum que vinha desde 2015. Mas a estatística é relativa. Desde 27/07/2014 o Flamengo não ganha do Botafogo no Brasileirão. Questão de ponto de vista ou de vício da imprensa. Mas já estamos acostumados.

O que não me acostumo é não ter meu amigo Arlindo Cruz na atividade pra dar o tradicional telefonema zoeira pós-jogo. Volta logo, amigo. Venha consolar o D2. Não aguentamos mais sua falta!

Amanhã estaremos todos no Niltão. Vamos lotar o estádio e empurrar o time para a vitória. Já aprendemos que jogo em casa tem que ser ganho. Vamos segurar o ataque tricolor gaúcho e furar a rede deles. Roger, contamos com você! E com Gatito, Bruno Silva, Leo Valencia, Pimpão e…

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Nem de Uber, nem de Táxi

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A crise tá braba. Num domingo ensolarado, mais de 60 pessoas se reuniram na Praia do Leme para enfrentar um problema. Como voltar para o Posto 6, onde estavam seus pertences, sem gastar dinheiro com táxi? Eles podiam voltar caminhando pela areia. Mas podia ser perigoso. Com o estado falido, a polícia vem fazendo corpo mole para vigiar a orla. A turma resolveu atravessar a distância a nado.

O primeiro obstáculo foi furar as ondas, que não estavam dispostas a colaborar, Quebravam na cabeça dos que tentavam alcançar a arrebentação. Ainda assim, eles insistiram. Deviam estar mesmo sem grana. Superada essa etapa, se deram conta da temperatura da água nada caribenha. É bem verdade que naquela semana eles experimentaram um mar mais gelado. Estavam se preparando para um imprevisto, o que acabou ocorrendo no domingo.

Eles estavam dispostos. Alguns mais afoitos apressaram as braçadas, talvez temessem sofrer uma hipotermia. Outros, mais tranquilos, seguiram atrás, sem pressa, sem pressão. Não é a primeira vez que eles fizeram esse percurso, o que facilitou a marcação do progresso. Alguns prédios servem de referência. O primeiro passo é o hotel que define o início, no caso deles, o fim do Leme: o antigo Méridien, que muda de nome a cada sudoeste. Em seguida, o Copacabana Palace, que se destaca na orla pela baixa estatura, no meio dos espigões (termo quase tão antigo quanto o próprio Copabacana Palace. O marco seguinte foi o hotel Merriott, fácil de se identificar pelo rombo na fachada. Em seguida, o Othon praticamente avisa: “bora, galera, vocês tão quase lá!”. A essa altura, o grupo que começou compacto, já estava totalmente disperso no oceano, mas todos estavam ligados nos seus pertences que talvez ainda estivessem numa tenda armada próxima à colônia dos pescadores. Nunca se sabe, afinal, estamos no Rio. Mais adiante, o Museu da Imagem e do Som, projeto arquitetônico arrojado com dois objetivos: ser um ícone da paisagem e um marco para os nadadores de que falta pouco para o Posto 5. O hotel Emiliano, quase na rua Francisco Sá, é o penúltimo destaque. Dali em diante, olho no Sofitel. A certeza de que finalmente chegaram vem com os plásticos e garrafas pets que os recebe à sombra do Forte Copacabana. Nunca a poluição dos banhistas foi tão bem recebida.

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Completou-se o percurso de quase 3,5 quilômetros. Aparentemente, todos os pertences foram recuperados. Ou ninguém se dispôs a prestar queixa na delegacia do bairro. Estavam felizes por economizar os reais do táxi. E por descobrirem pra que servem os hotéis da orla do Rio.

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Quando o bronze vale ouro

Até o livro da Poliana nada melhor que eu!

Tinha acabado de sair de um treino de natação na praia de Copacabana quando soube que a prova olímpica de Maratona Aquática se daria justamente ali. Nossa equipe comemorou: é como se a final da Copa do Mundo fosse marcada para o seu campinho de pelada.

Passei a acompanhar os detalhes até o grande dia, 15 de agosto de 2016, data da prova feminina do esporte. Na época, estava cobrindo a Olimpíada para o canal SporTV. Assisti ao vivo a conquista da Poliana Okimoto, que foi cercada de confusão, com uma das nadadoras desclassificadas. Essa história por si daria um livro. Mas não somos tão preguiçosos assim. Daniel Takata, me propôs trabalharmos juntos numa biografia da Poliana. Não queríamos um livro dos recordes, e sim que o público conhecesse um pouco mais da vida da nadadora. Como começou? Quem a incentivou? Como é a Poliana fora das piscinas e do mar? É casada? Tem filhos? É baladeira? Já namorou o Neymar?

Listamos uma série de perguntas que gostaríamos de ver respondidas e marcamos algumas entrevistas com ela. Esse texto não vai ter spoiler. Se você ficou curioso, compre o livro, está tudo lá!

Domingo, 3 de setembro, estarei na Bienal, no estande da editora Contexto a partir das 17 horas, distribuindo GRATUITAMENTE autógrafos para quem COMPRAR o livro da Poliana Okimoto.

Espero você lá!

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