Suburbio carioca: lições de geografia

suburbio12

Muita gente pensa que eu sou do bairro da Penha. Nada disso, nasci na Vila da Penha. É perto, mas não é a mesma coisa. Vila da Penha não tem nada a ver com Penha. Nem são tão vizinhas assim: entre uma e outra, ainda tem a Penha Circular , que era aonde os bondes antigamente faziam a volta, um pouco distante do centro nervoso da metrópole, o Largo da Penha, onde fica a subida para a Igreja da Penha, o Corcovado da Leopoldina.

Os bairros no Rio têm fronteiras mais definidas do que muitos países. Por exemplo, o Romário sempre disse que morava na Vila da Penha, mas não era bem assim. Ele era da estrada do Quitungo, muito além do Largo do Bicão, portanto, morador de Brás de Pina. Desculpe ter revelado seu segredo, Peixe! Eu sei que você queria tirar onda de bacana, aí espalhava que era de um bairro muito mais classudo, com um IDH (índice de desenvolvimento humano) equivalente a um bairro da zona sul. Aliás, quem seria esse Bicão, um famoso penetra da área? Mais um mistério dos subúrbios cariocas.

Um confusão geográfica pode gerar sérios conflitos. A região da Tijuca é um exemplo. Até onde o morador pode se considerar um autêntico tijucano? Se o cara mora na praça Saens Peña, não tem dúvida: é tijucano da gema. Mas e o largo da Segunda-Feira, ainda é Tijuca ou já é Rio Comprido? O pessoal do Andaraí também dá uma de Romário: ou espalha que é da Tijuca ou não come ninguém. Assim como os habitantes do bairro da Muda, da Usina e até do Grajaú, um bairro com tantos milicos que é considerado a Urca da ZN.

Alguns bairros se dividem em vários com o passar dos tempos, fenômeno semelhante ao da antiga Iugoslávia, que deu lugar a Eslovênia, Sérvia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Kosovo e algum outro país que surgiu depois que escrevi este texto. Com o advento da Linha Amarela o bairro do Méier passou a ter vista para o mar – em menos de quinze minutos você está na Barra – isso se não tiver trânsito na via e você estiver pegando carona com o Thor Batista.

O Méier se emancipou do Lins, do Engenho de Dentro, de Cachambi, de Todos os Santos e hoje faz parte da região litorânea carioca. Os imóveis valorizaram cerca de 300%. Em compensação a maresia agora estraga a prataria das donas de casa e ninguém quer comprar um carro usado oriundo deste bairro – sabe que vai estar comido pela ferrugem. Nem tudo são flores na vida de um bairro emergente…

252
ao todo.

6 Comentários

  1. Gustavo Barcellos   •  

    Ótimo texto Helio, parabéns! Como morador do Méier, sei exatamente como foi essa mudança. 😉

  2. Willy   •  

    Hahahahaha
    Boa Helião.. Sou da VP também.. E fico bolado qndo confundem VP com penha.. Morava na barlamino de matos atrás da antiga stander elétrica.. Tamo junto

  3. Muito bom… as fronteiras “invisíveis” estão aí recriando-se exponencialmente… tem gente até pesquisando sobre o “estigma de lugar”, material não falta pela cidade.!!!

  4. Aline Fulco   •  

    Todo bom morador da VP temos que gritar para mundo: Vila da Penha não é Penha!!!!

  5. Alex Barros   •  

    Hélio, eu acho que no Quitungo o endereço já é Cordovil. Pq minha escola era ali e tinha como endereço esse bairro.

  6. Zezinho   •  

    Na verdade o baixinho morava do outro lado do Quitungo. Ou seja: em Cordovil (sim, porque a estrada do Quitungo de um lado é Brás de Pina e do outro é Cordovil… rsrsrs)
    No mais, que belo texto.

Deixe uma resposta