Superando limites

Um dos conceitos mais difundidos pela humanidade no momento é a tal da superação de limites. Não existe propaganda que não se refira a isso. Estou convencido de que alguém sai ganhando com essa historia. Os bancos, por exemplo. Se você se habitua a superar limites, não vai se importar em pagar uma fortuna de juros.

Algumas pessoas estão sempre em busca do inusitado, do inédito, ultrapassando barreiras, quebrando recordes, provando que é muito mais fodão que qualquer outro, inclusive você. São figuras destemidas que não estão nem aí para os riscos de uma aventura encagaçante. Não é o seu caso, ô bundão. Você foi feito para  assistir ao documentário, ler o livro e comprar o dvd para o aventureiro ter grana para gastar com viagens e mulheres selvagens.

Existem diversas formas de superar limites. Quando um sujeito resolve bater o recorde mundial dos 100 metros rasos, ninguém discute. Usain Bolt é reconhecido como um deus por onde quer que passe. E olha que na velocidade em que ele passa, é difícil reconhecer alguém. Se por acaso ele não atingir seu objetivo numa prova, não tem problema. Ele volta pra Jamaica, treina mais um pouco e tenta de novo.

Mas e quando o objetivo do sujeito é subir o Himalaia pela face mais difícil, no período mais frio, se defrontando com os maiores riscos possíveis, entre eles o de uma avalanche? Fico me perguntando: esse cara não tem mãe, não tem amigos, pessoas razoáveis em volta dele que ponha uma pulga atrás de sua orelha? Ou sua orelha já está coberta por touca, cachecol, protetor de ouvidos e por isso não escuta conselhos de ninguém? Algo tipo: “Olha lá, rapaz! Tem certeza?”

Não tem nada pra fazer lá no alto da montanha mais alta do planeta. A vista é horrível, um nevoeiro insuportável, não se enxerga um palmo à frente do nariz. O ar puro tampouco é uma atração, já que este é rarefeito em oxigênio. Não tem  zona de wi-fi nem pega celular, não tem como postar no facebook, twitter ou instagram uma foto que comprove que você acabou de chegar lá. Mas o pior disso tudo, é muito, muito perigoso.

Por isso, não me espanto quando vejo uma notícia de que uma “forte avalanche soterrou alpinistas que tentavam subir o Himalaia pela face mais difícil, se defrontando com os maiores riscos possíveis, entre eles o de uma avalanche.” Não podemos chamar isso de fatalidade. Se todos sabem que é praticamente impossível chegar lá, qual a surpresa quando o sujeito não consegue? Aliás, não entendo sequer as equipes de resgate. O sujeito entra nessa fria por conta própria, dizendo que se garante, que é isso, que é aquilo. Depois, bombeiros e para-médicos têm que parar de resolver os problemas de quem ficou aqui embaixo pra ir lá em cima tirar o teimoso da enrascada que se meteu?  Antes de se meter nessa roubada, acho que o aventureiro deveria assinar o atestado “Eu Que Me Foda”,  eximindo a sociedade de qualquer responsabilidade

Uma outra solução seria o resgate preventivo. Ao invés de bombeiros e para-médicos, uma equipe formada por halterofilistas e lutadores de UFC ficaria plantada nos pés das montanhas mais perigosas do planeta, enchendo de porrada qualquer idiota que insistir em escalar aquilo. Vai superar limite no playground da mamãe!

4 Comentários

  1. Psicanálise   •  

    Boa questão e vale conferir o que fala o Ehrenberg sobre o “culto è performance” no contempoâneo…

  2. Ricardo Costa   •  

    HHAHAHAHAHAHAHAHAHA Ri muito, muito mesmo! Mas, se bem que é uma grande verdade. Além de acontecer isso tudo e não poder postar nada nas redes sociais, o cara ainda pega um resfriado dos grandes. Pode ver que até a meleca do nariz vira gelo. Já imaginou aquilo no seu uísque? HAHAHA Helio sempre com textos fantásticos. Sou seu super fã, cara!

  3. nerdholic   •  

    O pior é que tem cobertura 3G no Himalaia, ou seja, neguinho faz só para postar a foto mesmo….

  4. Homero Miceli   •  

    Helio vc é amigo do gazpunzinho ?? Isto é ir ao limite !!

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