VíCiOS de LinGuAGeM

O português é muito maltratado no Brasil. Poucos tratam o coitado como merece. Não estou falando do  dono da padaria da esquina.. Me refiro ao português que usamos pra nos comunicar. Nada a ver com as gírias, que acho maneiras, da hora mesmo. O problema está nas expressões que soltamos sem nos darmos conta. Essa conversa me ocorreu ontem quando, tomando um chope, ouvi um sujeito dizer: “Pode procurar o Luisão e pedir o que você quiser. Fala em meu nome, ele vai te atender. Luisão é meu amigo pessoal.”

Fiquei pensando… será que esse cara tem algum amigo que não é pessoal? Como seria um amigo impessoal? Uma pessoa com quem não se tem muita intimidade? Isso não é um amigo. Ou alguém que não seja uma pessoa? Um cachorro, por exemplo. O cachorro é o melhor amigo do homem, mas não chega a ser um amigo pessoal, é um amigo animal. E como pedir favor a um cachorro, mesmo que esse cachorro seja um grande amigo?

Pedi mais um chope e, enquanto aguardava a chegada de um amigo pessoal, duas mulheres trocavam confidências. Não entendo o que levam duas pessoas a trocar confidências num bar lotado, mas tudo bem, não foi isso que me intrigou. Fiquei bolado quando ouvi: “Aí, ele virou pra mim e disse…” Como assim? A moça estava discutindo a relação com um sujeito que estava de costas pra ela? Ela estava falando e o cara nem aí, continuava de olho no futebol? Ou na bunda de uma gostosa? E por que ela não mandou-lhe um pesco-tapa, como faria a minha mulher?

Até que finalmente meu amigo chegou. Meia hora atrasado. Veio com uma desculpa esfarrapada. “Pô, foi mal aí…até tentei te avisar. Liguei pra você, mas o telefone chamou, chamou…” Nem precisou completar. O verbo “chamar chamar” só é usado para telefones e sempre no caso em que a ligação não se completa. Tremenda cascata, já que meu celular estava ligado e cheio de sinal. Fingi que acreditei.

Começamos a conversar sobre a situação do Oriente Médio, até que meu amigo mandou na lata: “Na minha modesta opinião…” Entendi tudo. “Modesta opinião” é aquela que não se discute, você escuta e fecha o bico, porque ninguém muda de modesta opinião. Não levei o papo adiante, pois o bate-boca podia ficar exaltado e não queria queimar meu filme naquele bar. Aliás, nem ali, nem em lugar nenhum. Não se queima mais filme, já que fotos e videos hoje são digitais. Foi quando me caiu a ficha, seria melhor virar o disco. Mas que ficha poderia cair? Será que alguém com menos de quarenta anos faz ideia, sem nunca ter visto uma ficha? Quando se tem um orelhão, o que é raro, usa-se cartão telefônico. E só  vira disco quem for DJ. Fora isso, ouvimos cd pirata ou mp3…

Pra evitar um desentendimento, pedi a saideira e a conta. Paguei e ainda deixei uma gorjetinha. O garçom agradeceu:

– Obrigado, chefia! E desculpe qualquer coisa.

– Como assim?

– Como assim o quê? – perguntou o garçom.

– Por que eu tenho que te desculpar?

– Por nada. Tá tudo certo, doutor!

– Como nada?! Se você tá pedindo desculpas é porque alguma você fez. A conta tava certinha ou você tá de caô?

Achei melhor deixar tudo como estava. Nos dias em que se está levando as palavras ao pé da letra, é melhor voltar pra casa pra não se aborrecer.

4 Comentários

  1. Ricardo Costa   •  

    Todos os garçons cospem em nossos copos, por isso pedem desculpas por qualquer coisa. HAHAHAHA
    Helio, eu lembro quando tu mandou essa do “amigo pessoal”. Deu uma confusão arretada no twitter, passei uma semana vendo a galera discutir. HAHAHA Ótimo o texto, como de costume. Valeu!

  2. iann   •  

    Esse texto saiu um tanto quanto, arrogante, você briga com seus amigos porque tem opinião contraria da sua? Um garçom te responde educadamente e você questiona o mesmo como se ele teve-se te agredido?

  3. Alvaro Hanssen   •  

    Na minha modesta opinião o pior dos vicios e que todos meus amigos pessoais tem é falar “tipo” ou “tipo assim”.

  4. Julio Yoshinobu Kikuti   •  

    Venho por meio desta resposta dar a minha opinião. Sim, dar, porque se fosse vender, vocês perguntariam como fariam para me pagar. Veja bem, seu texto é realmente muito atual para os dias de hoje. Com certeza! Então… para não dizer que não falei das flores, a nível de linguagem assaltam a gramática, assassinaram a lógica, meteram poesia onde devia e não devia. É o cúmulo dos absurdos! E vamos reclamar para quem? Junto ao bispo? Judia de mim! Entendeu? Ou quer que desenhe? Desculpe por tudo.

Deixe uma resposta para Alvaro Hanssen Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *