EU QUERO UMA CASA NO CAMPO

waldir cantazarro

Foi num belo por do sol que tudo começou. Uma bucólica estradinha de terra no interior do estado, vaquinhas de um lado, eucaliptos de outro, Jorge virou-se para Mariana e disse:

– Vamos comprar um sítio.

Mariana pulou no seu pescoço e beijou-o longamente. Era o sonho do casal. Podiam criar sua filhinha de cinco anos descalça, os pés sujos de barro, banhos de cachoeira, carneirinhos fofos pastando no jardim, o que mais podiam querer?

As economias foram todas para quitar a compra do imóvel. Não era tão grande quanto imaginavam, não tinha a cachoeira, a casa precisava de umas reformas que teriam que esperar no momento. Não tinham bala para tanto. Mas isso não era nenhum problema. Tinham sua casa de campo, era isso o que importava.

Mobiliaram o cafofo com o sofá surrado que estava no depósito, uma cômoda empenada que sua sogra lhe cedeu e uma cama de viúvo da avó. O colchão antigo era de molas e estava um pouco torto. Tudo bem, seriam felizes naquele pedaço de chão só deles nos fins de semana.

E nada de caseiros ou empregados. Faziam questão de botar a mão na terra pra plantar e colher a pimenta, a salsa, as cenouras da horta. Jorge cuidaria da parte hidráulica e elétrica, Mariana regaria a plantação e cozinharia pra eles, enquanto a Giovaninha brincava com os carneirinhos, assim que eles comprassem os tais carneirinhos.

E as roupas? A vida no interior é modesta e sem vaidades. Jorge juntou na mala suas calças velhas, as camisetas furadas, as cuecas desbeiçadas, meias desencontradas de seus pares. Mariana fez o mesmo. Pegou um vestido que Jorge implicava, umas blusas que usava nos anos 80, calcinhas bege e botou tudo na bolsa. Vamos pra roça!

O tempo foi passando. A vida na casinha foi ficando menos empolgante. Jorge não parava de remendar canos e fios. As mãos de Mariana estavam ficando grossas e ásperas feito um ralador de coco. A pequena Giovana não parava de reclamar, queria saber quando iam chegar os carneirinhos.

A noite encontrava o casal morto, cochilando no sofá em frente à tevê, adiando a hora de deitar naquele colchão duro e enrugado. E o pior, ao tirarem as roupas, o espetáculo de cuecas e calcinhas com o prazo de validade vencido derrubava qualquer libido.

Mariana pediu a Jorge uma viagem a dois, uma nova lua de mel. Ele propôs que subissem sozinhos no próximo fim de semana, Giovaninha ficava com a avó. Mas não era esse o plano de Mariana. Pensava em Buenos Aires, Ouro Preto ou mesmo Iguabinha. Não podiam. Ela tinha a poda do jardim, ele ia dar um jeito na calha que estava vazando. Sem Giovana teriam mais tempo para resolver os problemas. Todos os problemas da casa e não os deles que, aliás, só aumentavam. Ainda mais agora com a dor nas costas do Jorge que começava na noite de sexta e só parava de dar sinal lá pra quarta-feira.

Cansaram daquela rotina. Puseram o sítio à venda, mas em dois anos não arrumaram comprador. Jorge e Mariana continuaram subindo a serra, Giovana preferia ficar na casa de uma amiguinha. Jorge descobriu que não foi ele quem tinha comprado uma casa de campo. A casa de campo é que tinha arrumado um dono! E o pior, com a chuva pesada da semana passada, a calha voltou a dar problema.

9 Comentários

  1. Dalia Hewia   •  

    È aquela velha história, idealizamos tudo e nos sonhos não são permitidos problemas ou uma rotina sempre desgastante. Adorei o texto, fui imaginando a cena,senti até compaixão pelo casal que foi se deixando levar por uma vida de tédio. Eu teria doado a casa, abandonado, ia morar até com parentes, mas nada me convenceria a ficar exausta, sem esperanças e morta ainda em vida.

  2. Ricardo   •  

    So quem teve um sítio sabe o valor do divórcio.

  3. Juarez José Borges   •  

    legal blz gostei

  4. Joaudonas   •  

    Sem falar na segurança…tem muito bandido especializado em roubar sítios e fazendas.

  5. Lenita   •  

    Eu até queria uma casinha branca no sítio, ver o pôr do sol, com algumas condições: arrumadeira, cozinheira, caseiro, só chegava lá pra descansar e relaxar, e uma vez ao mês….td de bom, hein?

  6. Muito bom o texto! Não sabia que você escrevia esse tipo de coisa, você escreve muito bem! E eu achando que você só fazia humor!

    Vou acompanhar o blog!

    Abraço e sucesso!

    • Helio de La Peña   •     Author

      obrigado @aleh. só não sei se o comentário se refere a este texto ou ao CHEGA DE CAÔ, que você recomendou no twitter pros seus seguidores.legal saber que você estarápor aqui. seja bem vindo!

    • Helio de La Peña   •     Author

      legal! você vai encontrar textos e outras postagens mais variadas por aí. obrigado pelo prestígio da sua leitura.

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