A CONSULTORIA

Alex é um fotógrafo de vinte e poucos anos. Foi trabalhar num jornal e conheceu Ataíde, um repórter cinquentão. Alex é solteiro, nas horas vagas, vai pras baladas da Lapa pra tentar arrumar uma mulher que dê condição e outras coisitas mais. Ataíde é um sujeito casado e fiel à sua patroa. Defende ardorosamente sua monogamia, não tanto por convicção mas, segundo ele, por falta de circunstâncias perfeitas em que não corresse o menor risco de esmerdalhar sua vidinha tão acertada.

Alex não entende Ataíde. Não entra na cabeça dele o sujeito ficar amarrado a uma única mulher quando a vida oferece uma grande variedade de opções.

– É sério isso mesmo? – pergunta Alex, intrigado.

– Já te disse que sim, mas acho que você não acreditou. – respondeu Ataíde.

– Não acreditei mesmo. Por que isso? É promessa?

– É amor, rapaz. Sabe o que é isso?

– Menor ideia.

– Amor à vida tranquila, só nós dois, sem amantes ou advogados pra tumultuar a relação.

– Há quanto tempo você só transa com a sua mulher?

– Desde que a gente casou, há 28 anos.

– Toda a minha existência mais três anos de franquia! É muito tempo! Já lhe ocorreu uma coisa?

– O quê?

– E se vocês estiverem fazendo errado?

– Como assim?

– Se vocês estiverem transando de forma errada?

– Que isso, rapaz? Não tem como errar, tá no instinto.

– Sei, mas vocês estão isolados, não trocam experiências, vivem como os cubanos no bloqueio comercial, sem saber o que se passa no resto do planeta.

– Também não é assim. Tem internet lá em casa, posso acompanhar tudinho.

– E você acha que alguém faz daquele jeito deles? Alguém aguenta tanto tempo naquele ritmo frenético? Aquilo é pura ficção, Ataíde. E eles usam dublês contorcionistas pra certas posições.

– Olha, Alex, tá funcionando muito bem, tamos muito bem entrosados. Em time que tá ganhando não se mexe.

– Mas vocês não tão ganhando, tão, no máximo, empatando.

– Afinal, Alex, o que você quer propor?

– Minha ideia é uma consultoria. Você faz um video e me mostra. Aí eu dou umas dicas pra incrementar a parada, passo as novidades do mercado, novas táticas e coisa e tal…Tudo no maior sigilo, tua mulher nem precisa saber, fica entre nós.

– Consultoria? Bom, lá em casa nós não temos segredos. Vou conversar com a Gracinha, depois te falo. Mas ó, nada desse papo de fio-terra, entendeu?

– Fechado.

*    *   *

Em casa, Ataíde apresentou a proposta.

– Então, Gracinha, o que você acha?

– Tá maluco, Ataíde? Não vê que esse sujeito quer se aproveitar da gente?

– Como assim? O que um sujeito que cada dia tem uma mulher diferente na cama ia sair ganhando assistindo dois velhos fazendo sexo?

– Por isso não, que tem tarado pra tudo. Mas eu acho que o caso não é esse.

– É o quê, então?

– O seu amigo vive trocando de parceira. Nunca repete mulher, sabe por quê? Ele é ruim de jogo, Ataíde! Por isso as mulheres não voltam, aí ele tem que arrumar outra. Esse cara tá querendo saber qual é o nosso segredo. O que a gente faz que dá tão certo. E eu não vou dar esse gostinho pra ele.

– Sabe que não tinha pensado nisso?

– Pois é, mas eu pensei. Agora vamos lá pra dentro que amanhã eu tenho que acordar cedo.

– Tô indo, Gracinha, tô indo.

2 Comentários

  1. Ricardo Costa   •  

    “eles usam dublês contorcionistas pra certas posições” HAHAHAHAHAHA Gosto muito de ler os teus textos e os do Beto. Vocês são fodas!

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