QUANDO EU FUI EM CANA

Quando a gente é novo não perde a oportunidade de fazer umas cagadas. E não adiantam conselhos, advertências, esporros. Enquanto a gente não entra numa roubada não sossega. Assim foi comigo nos idos dos anos 80.

Estagiava numa empresa de engenharia, na construção de Itaipu. Nesse fatídico dia minha tarefa era acompanhar no porto do Rio a descarga de alguns equipamentos que vinham da Suécia. Tinha que ficar de olho, caso o container batesse ou caísse, eu anotava hora, local e relatava o ocorrido. Coisas de estagiário. Como ia passsar muitas horas ali, a empresa me forneceu um punhado de fichas telefônicas para falar ao telefone. Pois é, houve uma época em que não existiam aparelhos celulares, acredita?

Mas, como todo garoto, me julgava um cara “isperto“, não precisava usar fichas pra falar em orelhão – uma espécie de celular da época, só que fixo. Como era estudante de engenharia, podia descolar com os colegas da eletrônica um diodo de sinal, dispositivo que anulava a cobrança das fichas. Com ele podia falar o dia inteiro sem gastar nada. Acontece que eu tinha as fichas no bolso. Pra que então usar o aparelho? Pra tirar onda de fodão, claro.

O cais do porto é onde muitas mutretas acontecem, portanto, local vigiado para pegar os picaretas de primeira viagem. Só eu não sabia disso. Quando notei que o trampo ia demorar mais do que o previsto, liguei pra minha namorada. O telefone já estava preparado, ou seja, os fios já tinham sido descascados por alguém que também tinha um diodozinho no bolso. Dei o meu recado e, ao desligar, senti uma mão pesada sobre meu ombro. Era um fiscal da Telerj que estava na área querendo descobrir quem estava burlando a empresa com estes artifícios. O cara me pegou no flagra e, pra facilitar seu expediente, me acusou de descascar os fios de todos os telefones públicos do cais. Eram mais 50, fácil!

O fiscal me segurou e chamou a guarda portuária.

-Encontramos o meliante!

Eu nem sabia o que significava “meliante”, certamente não era “profissional exemplar”. Os estivadores quando viram o movimento estranho se aproximaram.

– O que é que houve, garotão?

– Tava falando no telefone e o carinha me prendeu. – tentando me passar por vítima.

– Ele tava usando isso aqui pra falar de graça! – disse o fiscal, agitando o aparelhinho no ar.

– Um diodo? – replicou um deles – Pô então vai ter que prender muita gente.

– Tá vendo? Não fui sou eu que usei! – pensando em me livrar.

– É, mas só você que eu peguei. Quietinho aí, camarada. – o fiscal estava irredutível.

O guarda portuário chegou e logo me pôs numa viatura. Quando você faz algo errado não anda de carro, é conduzido numa viatura. Estávamos a caminho da Polícia Federal na praça Mauá, onde hoje está o belíssimo Museu de Arte do Rio. Tenho medo de ir lá e não me deixarem sair.

Dentro da viatura estavam o fiscal e o guarda na frente. No banco de trás eu e mais um sujeito com uma pinta suspeita, porém muito tranquilo. Ao me ver arregalado, olhando pros lados e suando frio, puxou papo.

– E aí, irmão, tá nervoso! Qual é a tua bronca?

– É que eu tava… – contei a historia do diodo, quase chorando.

– Ih, rapaz, parada braba. É crime contra o patrimônio público.

– O quê?? – tomei um susto.

– Isso mesmo. É inafiançável.

Inafiançável! A palavra ficou ecoando na minha cabeça até chegar ao destino. “Inafiançável-vel-vel-vel…” Fiquei projetando minha nova morada: Bangu 1? Frei Caneca? Carandiru? Naquela altura do campeonato, pra mim tudo era possível.

Quando recobrei os sentidos, tive força pra perguntar:

– E você, tá aqui por quê?

– Contrabando e receptação… só bobagem, daqui a pouco tô na rua.

O cara não estava mentindo. Nem chegou a esquentar o banco da delegacia. Enquanto isso, eu penei. Sofri uma verdadeira tortura psicológica, os caras se divertiram com meu apavoramento. Tive que ligar pro meu chefe e explicar o ocorrido. Depois do merecido esporro, a empresa jogou uma boia em forma de advogado. Me livrei de Bangu 1! Até hoje não sei por que não fui demitido na hora.

Claro que o episódio não contribuiu para uma promoção. Trabalhava na área que gerenciava o transporte de equipamentos para a construção da maior hidrelétrica do país. No dia seguinte estava controlando a planilha de combustível da frota da diretoria. Aquele foi um dos primeiros indícios de que meu futuro não estava na engenharia.

Ainda me pergunto se não tenho alguma responsa nos apagões que vez por outra rolam no país…

9 Comentários

  1. alefeufei2310   •  

    Eu fiz menos merda na vida kkkk

  2. marcopiratinha   •  

    Rsssss, Historia sinistra essa heim Helio, e corroboro com o Comentário de alefeufei2310
    “quem não fez umas cagadinhas nessa vida?” Rssss

  3. Anderson Couto   •  

    Cara! Ótima história! Aquela hora em que você diz que estava na viatura “arregalado, olhando pros lados e suando frio”, fiquei imaginando a cena e lembrei de alguns personagens seus no C&P.
    O fato mais próximo de um crime em que eu já estive envolvido foi “sacudir” um ponto de ônibus de madrugada e ser acusado por um guarda municipal de “depredação de patrimônio público e vandalismo”. Maior estresse. Por pouco não tomei uns tapas na venta…
    Abraço. Prazer ter recebido você aqui na minha cidade, Volta Redonda.

  4. Saudade das fichas telefônicas! O controle de combustível do Município de Nhandeara era por minha conta, eu criei uma Planilha de Excell que fazia tudo automático. # anos de Engenharia sem reprovar nenhuma cadeira, mas me formei em Letras! XD

  5. Rayan Siqueira   •  

    Hahahahaha
    Essa o pai nunca tinhe me dito! Muito boa, vou contar pro pessoal aqui de casa.

  6. Você foi em cana e eu fiz pior queria ir pro cemitério,coloquei o polegar em um bocal de lampada e fiquei pendurado sem ninguém por perto,foi um milagre eu ter desconectado do bocal da lampada e sair vivo pra contar a história.

  7. Claudio Pfiszter   •  

    O chefe era o Bazzo e o advogado salvador era o Saraiva.

    • Helio de La Peña   •     Author

      isso mesmo, claudio! e você foi testemunha! grande abraço!

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