NEM MAIS UM PIO!

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Sabiá canta na varanda

No alpiste pus vidro moído…

Os versos são da música “Caldo Verde”, do disco “Para Comer Alguém”, de Casseta & Planeta. Na época, a ideia era fazer barulho com uma canção ecologicamente incorreta. Ninguém podia imaginar que fosse levada a sério. Pois levaram.

Esta semana fui acordado com a gritaria estridente de um numeroso grupo de paulistas contra o canto de um passarinho. Pensei ter me enganado ao ler a notícia, achei que reclamavam por nunca terem ouvido um chilreio. Mas era o contrário. Com a primavera se aproximando, as aves ficam fogosas. Vestidos com as penas mais da hora, o macho vai à luta pra conquistar uma gatinha, digo, uma passarinha. Mas eles não se garantem só na beca, alguns precisam mostrar que sabem dizer no pé – é o caso dos tangarás, que se exibem em sofisticadas coreografias como se estivessem disputando a final da Dança dos Famosos. A jurada é uma só, a fêmea que vai eleger o par da temporada. Outros têm que provar que têm o gogó afiado, já que a parceira não tem I-pod mas gosta de curtir um som.

É o que acontece com o sabiá-laranjeira, ave símbolo do Brasil. Durante o período de acasalamento, o sabiá-laranjeira abre o bico. Como a concorrência é grande, pois trata-se de uma ave muito comum no país, o bichinho não para de cantar de setembro até dezembro. E não só durante o dia, também faz serenatas antes do sol nascer. Vai que a fêmea está disposta a ficar com o primeiro que passar uma cantada…ele não pode vacilar.

Como o governo não investe em escolas para pássaros, o sabiá é quem se encarrega da educação dos filhotes e aproveita a madrugada para dar lições de canto. E isso tem irritado os paulistas.

Habituados com o som de buzinas, sirenes, bate-estacas das obras, o ouvido paulistano desenvolveu uma repulsa aos sons da natureza. Não consegue dormir se, no meio do burburinho dos engarrafamentos o gorjeio de um sabiá-laranjeira se destacar. Manifestações estão sendo convocadas pelo facebook. Alguns condomínios já estão contratando milicianos que saem na calada da noite munidos de atiradeiras, bodoques e estilingues de uso exclusivo das Forças Armadas para exterminar o bicho que anda tirando o sono dos mais sensíveis.

O curioso é que a população nunca se mobilizou para calar as britadeiras, os vendedores de pamonha, os carros de som que anunciam rodízio de pizza ou o pessoal que grita as promoções relâmpago da rua 25 de março.

O problema, dizem, é que o sabiá insiste em cantar por volta das 3 da matina. A essa hora nem o show do Metallica seria capaz de me tirar das profundezas do meu sono. Mas nem todo mundo é assim. Se qualquer pio é capaz de te despertar, talvez seja o caso de consultar um médico. Ou um vidraceiro – sua janela pode estar quebrada.

Aqui vão algumas dicas para quem mora em São Paulo e sofre com a insônia aviária.

–       Ao ouvir o famigerado trinado, ligue o rádio em alto volume no sucesso de Anitta. A melô cola na sua cabeça e você não vai escutar mais nada.

–       Se você tá solteiro, não devia estar dormindo. Vista sua melhor plumagem e vai dar uma volta pela cidade. Quem sabe não encontra uma moça que também não conseguiu dormir? Leve-a para um local sossegado onde vão poder passar o resto da madrugada falando mal do sabiá.

–       Se for casado, acorde a patroa e, já que estamos na primavera, imite os pássaros e dê uma acasalada! Pode mandar ver e gritar sem medo. Os vizinhos não vão ouvir nada, só o canto do sabiá.

Se você não mora em São Paulo e, portanto, ainda não conhece o canto do sabiá-laranjeira, clique aqui.

(*) ilustração roubartilhada do blog do Orlando.

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ao todo.

9 Comentários

  1. inquietar   •  

    Huahauhauha, nao moro em São Paulo, mas em BH tambem tem o tal do sabiá… Particularmente, a unica coisa que me incomoda é que fico com a sensação que vai amanhecer logo (os passaros por aqui começam a cantar as 5h, mas o tal sabia por aqui começa a cantar a partir da 1h), e fico ansiosa para ir dormir.

    Mas minha prima, que mora a alguns metros da minha casa, faz coro com o pessoal de sao paulo que nao aguenta o tal passarrinho. Vou msotrar esse texto para ela p ver se ela se toca do bizarro que é…

  2. Tietta Pivatto   •  

    Excelente! Eu também não entendo como alguém consegue dormir em São Paulo ao som de sirenes e tantos barulhos e se irritar com uma melodia tão singela como o sabiá. Algo está errado, e tenho certeza que não é o passarinho…

    Abraços,

    Tietta Pivatto
    Bonito Birdwatching/Photo in Natura
    Bonito – MS

  3. Adriani Hass   •  

    Nao entendi tanto estardalhaço, eu achava que os paulistas acordavam a essa hora para ir trabalhar! #poser :p

  4. Fabio   •  

    Eu tenho uma dica séria! Usem aqueles travesseiros da nasa (macios e que nao deformam) na cabeça!! Ele isola a freqüência do som do sabiá!! Funciona mesmo!!

  5. Pingback: O sabiá nosso de cada dia… ou noite! | AVES

  6. Margareth Cardoso   •  

    Como apreciadora até do piar dos pardais, deixo aqui meu protesto contra os paulistanos!

  7. Lucas Motta   •  

    Realmente protestar contra o canto do sabiá é uma coisa bem idiota!

    Agora a cidade de SP não é toda barulhenta, com sirenes, britadeiras e etc.

    Assim como no Rio não é só tiroteio em todos os bairros.

    De qualquer forma, viva os Sabiás e seu canto maravilhoso!!!

  8. Tita Terra   •  

    Isso tudo não passou de invenção de jornalista sem pauta, que sem nenhuma pesquisa e amostragem (a mãe e a tia não valem) publicou uma suposição e outros jornais replicaram, afinal seria fácil todos acharem isso um absurdo. Provavelmente ele mesmo não apreciava a vocalização do bicho, tinha insonia e ficava cismando que a culpa era do bichinho. Blogueiros mil escreveram sobre isso, As TVs começaram a procurar e filmar bentevis e a entrevistar pedestres nas praças. Nas redes sociais inventaram até eventos que reproduziram o canto para encher mais do som as madrugadas de SP. Tudo onda: nunca vi ninguém reclamar de passarinho em SP que não fosse por um cagada de pomba na cabeça .

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