FIM DE ANO NA FIRMA

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Venâncio não tinha do que reclamar. Ocupava o cargo de gerente de vendas de uma grande empresa. Não era nenhum milionário, mas vivia confortavelmente num amplo apartamento de três quartos em Laranjeiras. Os filhos, um casal de gêmeos, eram duas gracinhas.  Mas se um gênio saísse da lâmpada, ele teria um pedido a fazer: Mercedes, sua mulher. Era uma pessoa amável, dedicada à família e não lhe enchia o saco. Mas precisava perder uns trinta e cinco quilos. E nem passava por sua cabeça fazer uma dieta. Caía de boca nas frituras e nos docinhos sem a menor cerimônia. No fim da noite vestia sua camisola, a mesma desde que se casaram há oito anos. E, antes que ele escovasse os dentes, já estava dormindo profundamente.

Ainda assim, Mercedes era a esposa ideal para Venâncio. Deixava claro que não toleraria saber que o marido tinha uma amante. Mas não se incomodava se Venâncio eventualmente pulasse a cerca. Apenas uma ressalva: a piriguete tinha que ser mais velha, mais gorda ou mais feia que ela.

Venâncio aceitava calado o acordo jamais explicitado. Passava o rodo nas mocreias e nas cheinhas da empresa, dos fornecedores e dos arredores do escritório, na rua da Alfândega. Era discreto e contava com a cumplicidade das agraciadas. Os amigos não acreditavam.

– A Jandira também, Venâncio? Ela é mais feia que a situação econômica da Grécia!

– A Jandira faz coisas. – rebatia lacônico e misterioso.

Venâncio sabia que o argumento não convencia ninguém. Tanto que nenhum de seus amigos foi conferir se Jandira realmente fazia coisas. Jandira, Valquíria, Carminha, Berenice… a lista de Venâncio era longa e nada atraente. Ele, um incansável. Aceitava conformado a missão que lhe foi confiada. Era uma espécie de pacificador, acalmava senhoras à beira de um ataque de nervos. Lançava cantadas pouco lapidadas nos corredores dos supermercados, na saída da hidroginástica da academia, no balcão da Casa da Empada. Sempre funcionavam. Mercedes, quando desconfiava, não acusava o golpe. Não sentia ciúmes, pelo contrário. Sentia-se orgulhosa e, na comparação, mais magra que a concorrente. Ou mais bonita. Ou mais jovem.

Até que Gabrielle foi contratada pela firma. Venâncio, em nome de um casamento sem turbulências, procurava não prestar atenção em mulheres atraentes. Mas era difícil não notar Gabrielle. A nova servente desfilava com a bandeja do cafezinho como se estivesse numa passarela em Milão. Ele não era o único a notar. Os homens ficaram transtornados com a chegada de Gabrielle. Novinha, simpática, um par de coxas  espetacular.

Um domingo, Venâncio convenceu Mercedes de dar uma caminhada na orla de Ipanema. Ela precisava fazer algum exercício e aceitou andar sem pressa. De um quiosque a uma carrocinha de sorvete, de uma barraquinha de cachorro-quente até um tabuleiro de cuscuz com doce de leite. O casal já estava chegando ao Arpoador quando Venâncio viu Gabrielle saindo da praia. Ela não o viu. Mercedes, sapecando uma camada extra de doce de leite no cuscuz, também não viu o que ele estava vendo: o biquíni molhado de Gabrielle marcando o short jeans curto e sem bainha. Aquela imagem se fixou na memória dele como uma tatuagem.

Seu consumo de cafezinho quadriplicou. Até o dia que ele não aguentou. Era a festa de fim de ano, todo mundo bêbado. As gordinhas ajeitavam seus decotes e sorriam maliciosas cada vez que ele passava. Mas Venâncio só tinha olhos pra Gabrielle que, infelizmente, não foi para o escritório de short jeans sobre biquini molhado. Transtornado, entornou duas caipirinhas pra tomar coragem e puxou Gabrielle pra dentro do almoxarifado. Ele perdeu as estribeiras e, naquelas condições, ofereceu-lhe uma promoção e um aumento, enquanto afrouxava o cinto. A menina se assustou. Apavorada, abriu a porta e saiu correndo. Dona Elvira, chefe de Recursos Humanos, divorciada, 58 anos, 85 quilos, filmou tudo. Entrou no almoxarifado e trancou a porta. E atacou:

-Esqueceu de mim, Venâncio?

– Que isso, dona Elvira! Esse tempo todo só pensava na senhora. É que eu tava tão bêbado que acabei confundindo as duas…

– Tadinha, ela não sabe o que está perdendo.

– É, mas eu sei…

Pela primeira vez, Venâncio não conseguiu  satisfazer dona Elvira. Gabrielle nunca mais voltou ao trabalho.

No dia 31 de dezembro, Venâncio levou a família pra ver os fogos na praia de Copacabana. E Mercedes prometeu começar uma dieta na primeira segunda-feira do ano. Como sempre.

58
ao todo.

5 Comentários

  1. Ivan Pedro   •  

    DESEJO A TODOS BOAS FESTA E FELIZ ANO NOVO, QUE DEUS ABENÇOE A MASSA ALVINEGRA EM 2014.

  2. pimentel23   •  

    Nelson Rodrigues também curtiria esse post. Tem um quê de crônica de “a vida como ela é”

  3. humberto pettinelli   •  

    Exelente, dá um belo curta.

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