NÃO, OBRIGADO!

O garçom trabalhava há seis meses naquela churrascaria rodízio. No começo, não reclamava de nada. Começou apenas limpando as mesas. Depois foi promovido e passou a trazer as bebidas. Em seguida, premiado por sua eficiência, deixaram que ele também anotasse os pedidos. Passadas algumas semanas ele pede pra conversar com o gerente.

–       Quero pedir demissão.

–       Por quê? Você tá tão bem aqui. Todo mundo gosta de você.

–       É, mas eu não tô satisfeito com o trabalho.

–       Por quê? Não estão te repassando as gorjetas?

–       Não é isso.

–       Já sei, você não tá servindo as carnes.

–       Mais ou menos.

–       Como mais ou menos? Só serve coração de frango e linguiça?

–       Pior. Só me dão espeto de cupim.

–       E?

–       Você não é o gerente? Já deve saber que todo mundo recusa o cupim.

–       Mas a gente tá querendo mudar isso.

–       Justo na minha vez?

–       Exatamente. Vimos que você é um cara simpático, a clientela gosta de você, a criançada te chama pelo nome.

–       Chamava, quando eu vinha com o carrinho de sobremesa. Hoje viram a cara quando eu passo.

–       Servir cupim é um desafio.

–       Minha impressão é que não faço nada o dia inteiro. A peça volta inteirinha pra cozinha. Nem vai mais na brasa. Guardam na geladeira, daí o Gaúcho põe no microondas e me entrega.

–       É, tamos com problema de estoque. Compramos poucas peças, como não teve saída a gente não renovou. Mas ainda estão na validade.

–       Nem no instagram, onde o pessoal adora publicar foto de comida, eu vi um prato com cupim.

–       Vai ver não ele não é fotogênico.

–       Podiam falar com o pessoal do Friboi pra botar o Roberto Carlos aceitando cupim.

–       Não ia adiantar. Todo mundo sabe que ele não come carne.

–       Então parem de oferecer.

–       Tá maluco! Já viu churrascaria rodízio sem cupim?

–       Me deixa servir maminha, picanha, fraldinha, qualquer coisa só pra eu sentir o gostinho de por uma carne no prato do freguês…

–       Você ainda é muito novo na casa. Vamos fazer o seguinte: você fica mais um mês no cupim. Se alguém topar, eu faço um desconto de 50% e ainda te dou um aumento.

–       E se ainda assim eu não conseguir…

–       Tudo bem se a gente te pagar um psicólogo?

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