GRINGO NA PRÓPRIA CASA

Nessa Copa estou me sentindo como se fosse um turista na minha própria cidade. Ando pelas ruas, vejo americanos, suecos, italianos, argentinos, chilenos… Coisa mais rara hoje em dia no Rio é encontrar um carioca.  Outra dificuldade é ser atendido na língua nativa. O garçom de um restaurante que costumo frequentar se dirigiu a mim em inglês.

— Speak portuguese? — perguntei.

— Yes, of course!

Para viver na íntegra a experiência de ser estrangeiro, fui ao Maraca assistir a França x Equador. Peguei o metrô lotado de gringos do mundo inteiro. Tinha gente até do Acre!

A primeira coisa que notei é que todos vestiam as cores da sua terra. Enrolado em bandeiras, com a camisa da sua seleção, caracterizado por personagem típico, o torcedor assume o papel de representante do seu país. Em Copa do Mundo, cada cidadão é sede da embaixada do seu país.

Reparei também que o povo brasileiro é o que mais gosta de reclamar da organização. Os outros povos não estão nem aí, não esperavam encontrar tudo certinho e se surpreendem ao ver as coisas funcionarem. Sabe quando você vai na casa de uma pessoa humilde e ela fica se desculpando: “não repara a bagunça…” ? Assim somos nós. Melhor relaxar e curtir.

O Maracanã é minha casa. Vou ali desde garoto. Costumava penetrar pelos bastidores, entrar pelo setor de Hidráulica (portão 19, porta D, não esqueço), passar por baixo de uma roleta e chegar nas arquibancadas. Neste jogo, o estádio estava irreconhecível, vestido com roupa de domingo, todo decorado, sinalizado e com guichês de informação a cada 20 metros. Nem sempre os voluntários sabiam informar, mas estavam sempre sorrindo pra gente. O suficiente pra conquistar a paciência dos turistas.

No balcão, o vendedor tenta se comunicar com um indiano, falando em português pausadamente:

— O fo-lhe-a-do de quei-jo e pre-sun-to a-ca-bou. Quer co-xi-nha?

— What?

— Co-xi-nha! — repete. — Acho que esse cara é surdo…

As torcidas assistiam ao jogo misturadas, interagindo na maior paz. Assim como a nossa, também não tinham gritos de guerra muito criativos.

— Allez les Bleus! [alê le blê] — gritavam repetidamente os franceses. De vez em quando cantavam seu hino.

Os equatorianos eram minoria, mas contavam com o apoio dos brasileiros, cansados de serem fregueses da França.

— Si se puede! — tentavam empurrar seu time.

Comentei com um deles que esse grito de guerra era muito conformado pra quem precisava da vitória contra a invicta campeã mundial. Era quase como: “De repente dá!”

Torci por eles, mas não deu. Zero a zero. A França carimbou o passaporte pras oitavas e o Equador voltou pra Quito. Saí do estádio gritando: “Si, se fuede!”

Foi uma pelada digna de série B do Brasileirão. Mas não importa. O jogo era um mero e insignificante detalhe.

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