CASAL AMIGO

O casal voltava do teatro. A peça foi uma merda. Eles detestaram mas estavam satisfeitos, foram vistos por muita gente. E qual a outra razão de ir a uma peça de vanguarda se não ganhar fama de moderno?

Otávio e Clara estão casados há quinze anos. Quando o casamento entrou em crise, procuraram um terapeuta. O especialista diagnosticou o problema. Rotina. O casal não variava de programas, de restaurante, até as posições na hora de dormir e de transar eram as mesmas. A diferença entre uma e outra era o ronco. Na hora da transa, Clara roncava mais baixo.

Era preciso dar uma sacudida na vida. Os dois estavam dispostos a qualquer esforço pra salvar o casamento. A paixão já tinha se esvaído, mas eles se davam bem e seria a maior trabalheira mudar tudo. A solução era dar a impressão de que estavam em movimento. A peça de vanguarda fazia parte do plano.

–          Acho que estamos indo bem. – disse Clara.

–          É, foi difícil, mas consegui. Resisti por uma hora e meia. Quando começou aquela fumaceira e baixaram a luz, aproveitei pra dar uma cochilada. – comentou Otávio.

–          Você dormiu com aquela zoeira de serra e guitarras? Que inveja!

–          Nem aí pro barulho, tava preocupado em não dar bandeira. E nem você notou! O importante é que todo mundo nos viu, não somos mais aquele casal careta que vai dormir depois da novela.

–          Agora vai chover convite pra performances ousadas e criativas.

–          Já fomos nessa, ficamos com crédito. Podemos dar uma sumida.

–          E se a gente desse uma festa? Pode ser um sucesso. A gente contrata um DJ, serve comida japonesa, bota um grafiteiro, um tatuador. Acho que o terapeuta até nos dá alta.

–          Pode ser…

–          Falta uma coisa.

–          O quê?

–          Nossos amigos.

–          O que tem nossos amigos, Clara? Você acha que eles não viriam?

–          Viriam, sim. O negócio é que nosso grupo tá incompleto. Falta um casal gay na lista.

–          Verdade, não temos um casal gay amigo.

–          Pode pegar mal.

–          Ninguém nunca reclamou.

–          Se dermos uma festa, o pessoal vai notar.

–          O seu cabeleireiro não é gay?

–          É, mas não tem namorado, tá solteiro.

–          Solteiro não, pode ser problema. Se der em cima de um amigo, pode criar saia justa.

–          Que nada, imagina se um amigo sai do armário? Nossa festa entra pra historia.

–          Clara, é só uma festa e não um programa de auditório.

–          E se a gente chamasse aqueles dois que moram no prédio da sua mãe? São animados, podem abrir a pista.

–          Vão vir com tarefa? Vão acabar cobrando cachê.

–          Mas se ficarem quietinhos num canto da sala, ninguém nem vai notar. Eles são tão discretos.

–          Você começou falando em ter amigos gays, agora já quer uma exibição. Qual é a sua ideia, afinal?

–          Só quero acabar com a sua fama de homofóbico.

–          Homofóbico, eu?!

–          Todo mundo deve achar que não temos um casal gay amigo porque você não tolera.

–          Então é isso, a gente entrou em crise porque eu tenho fama de homofóbico.

–          Não digo que esse é o motivo, mas não ajuda.

–          Vamos parar por aqui. Tudo é culpa minha. Quer saber, tô de saco cheio! Chega dessa viadagem de ficar tentando salvar casamento.

–          Agora entendi o que você quer encobrir com todo esse machismo.

–          Peraí, um minuto atrás eu era homofóbico, agora você suspeita que sou gay. Você precisa se decidir, Clara.

–          O indeciso aqui é você, Otávio.

–          Não dá mais pra conversar com você. Vamos parar por aqui. Fui!

–          Otávio? Peraí! Tá indo pra onde? Pra casa da mamãe? Não sai assim, não. Olha, sábado tem festa aqui. Pode trazer seu namorado…vocês ficam quietinhos num canto, tá?

 

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