NADA, NADA…E NADA!

IMG_2650

 

Muita gente vai a Brasília pra nadar em rios de dinheiro ou pra boiar no mar de lama, cujas ondas ora batem no Palácio do Planalto, ora no Congresso Nacional. Meu caso foi diferente. Fui nadar no Lago Paranoá.

Até agora me pergunto o que leva uma pessoa a sair do Rio de Janeiro para disputar uma maratona aquática num lago do Planalto Central. Não faz o menor sentido, até porque não se pode praticar natação em águas abertas num lago, onde águas estão fechadas… Ainda não encontrei uma resposta, principalmente pra minha mulher que finge acreditar nessa historia enquanto contrata um detetive particular pra descobrir quem é a vagabunda que eu tô pegando naquela cidade. Uma coisa é certa: não é ninguém da política, já que o evento foi num domingo e esse pessoal chega na terça e some na quinta.

Tratava-se de uma etapa da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas. Cinco quilômetros na água doce, em que a flutuação é sempre mais penosa. Por ser competição oficial, estava proibido o uso de roupa de neoprene, que daria uma roubadinha esperta – o esforço para sustentar o corpo na linha d’água seria menor. Estar em Brasília e não poder roubar é como ir numa churrascaria rodízio e ficar só na saladinha: não tem a menor graça.

Nunca tinha enfrentado um desafio desse quilate. Muitos me perguntaram pelas condições da água. Naquele trecho do lago me pareceu razoável, ainda mais pra quem está habituado a treinar no mar de Copacabana. A cor é escura, sem garrafas ou objetos boiando. O problema era justamente esse. Como é difícil boiar na água sem sal! O esforço para se manter minimamente na superfície é muito maior. O corpo vai afundando, por mais que vcê se debata. E a impressão é que as braçadas ajudavam pouco no deslocamento. Você nada, nada…e nada!

Uma prova longa esgota o atleta fisica e psicologicamente. Quer dizer, um atleta, não sei como fica, mas um reles mortal, meu caso, fica acabado! No início procurei me poupar, já que, vencidos os primeiros 200 metros, faltavam ainda 4800 pela frente! Só não desanimei porque não teria como explicar o mico pros meus filhos. Teria que inventar uma cãimbra ou contusão, mas mentir em Brasília é não é para amadores. Melhor ir em frente.

Estava completando meus 2500 metros, quando vi um nadador deixando a água. Pensei, ih, alguém passou mal! Nada disso, era o Luiz Lima fechando seus 5000 metros. O cara passou por mim fazendo ondinha feito um jet ski, já mirando o pórtico de chegada. Eu era um retardatário, me sentia o próprio Rubinho Barrichello.

IMG_2652

Apesar do sufoco, estava orgulhoso por ter completado a prova. O tempo de 2:02’35” seria recorde mundial da maratona…terrestre!

Dias depois me arrastava num engarrafamento carioca. Levei uma hora e cinco minutos pra ir da minha casa até a entrada do túnel Rebouças, exatos cinco quilômetros. Luiz Lima, vencedor da etapa do Lago Paranoá, percorreu a mesma distância em 1:04’38”. Teria chegado antes e sem gastar uma gota de gasolina!

IMG_2647

1 comentário

  1. Teresa Damiano   •  

    Sensacional, Hélio! Um dos melhores textos dos últimos tempos! Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *