SAMBA E POESIA NA VEIA

cavaco

Outro dia, batendo papo com amigos num bar, perguntei: conhecem algum poeta brasileiro? O pessoal logo lembrou das aulas de português e citou vários. Drummond, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Oswald de Andrade…

– E poeta negro? – perguntei. Silêncio na mesa. No segundo chope, alguém lembrou:- Mário de Andrade!

Em seguida, um outro falou: “Vem cá, o Machado de Assis era negro, né?” Verdade. Machado era cronista, romancista, poeta…e negro. As fotos em preto e branco, o cabelo liso, o terno alinhado com que sempre o vemos confunde nossa imagem do escritor imortal.

Achei curioso como as pessoas foram longe pra lembrar de nossos poetas.

Foi quando eu falei: “E esse aí?” O pessoal não entendeu nada. Insisti: “Esse que nós tamos ouvindo agora?” Um desavisado se espantou: “Ué, tem alguém recitando poesia?”

Respondi: Não. Tem alguém cantando poesia.

O rádio tocava “As Rosas Não Falam”, do Cartola, o poeta imortal da Estação Primeira.

Um carinha ficou bolado: “Pô, peraí! Tu falou poeta, agora tá valendo compositor?”

Era justamente onde eu queria chegar. Por que essa distância entre poesia falada e a cantada?

Nossos maiores poetas não estão na Academia tomando chá. Estão nos bares tomando cerveja, às vezes cachaça. Estão chegando tarde em casa, pedindo perdão pra sua amada. Estão lamentando um amor perdido, estão chorando por um amor traído. Estão reunidos num estúdio da MPB FM fazendo o programa Música na Veia!

Chega a ser engraçado ver alguém dizer que detesta poesia, pra logo depois cantarolar uma música. O negro trouxe da África a tradição da palavra falada e cantada para aliviar as dores, para exaltar os amores, para orar pra seus deuses, santos e orixás. Até pra botar a boca no trombone e reclamar da situação.

Cartola, Pixinguinha, Lupicínio, Nelson Cavaquinho, Nei Lopes, Martinho, Luiz Melodia, Criolo, Mano Brown, Emicida, Luiz Carlos da Vila. Paulinho da Viola, Jorge Aragão, Arlindo Cruz… Mas a poesia brasileira também vem da Europa, da América, do Japão, do mundo inteiro.

Poesia não tem cor, tem sentimento, tem beleza, tem lirismo. E a música popular brasileira é poesia na veia!

(Texto do programa Música na Veia, com Arlindo Cruz e Rogê, na MPB FM – 15/3/2015)

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