PROIBIDO PARA MENORES

O casal andava meio entediado. A rotina estava instalada e não havia meio de sair. Ele não chegava a se incomodar tanto. Afinal, o mais importante era a estabilidade. E a rotina servia muito bem para esse fim. Sem invencionices, não passavam pela sua cabeça ideias que pudessem pôr o relacionamento a perder. Claro que, como a maioria dos homens, tinha suas fantasias, sonhava em pegar uma funkeira popozuda e esculachar geral. Mas achava arriscado. Não confiava que tudo pudesse dar certo, que não houvesse efeitos colaterais.

Ela, porém, não estava satisfeita com o rumo que as coisas haviam tomado. A acomodação se traduzia em pasmaceira, em falta de imaginação. Era um cineminha aqui e ali – se bem que ele preferia netflix. Restaurante uma vez por mês, quando saía o salário – no último ano nem variou mais de restaurante; nos últimos quatro meses, até o prato dele era o mesmo.

Na cama, ele só se deitava sem meias quando tinha certeza de que ia rolar. Ou seja, às sextas-feiras. Sábado era dia de pôquer com uns casais amigos, ele enchia a cara e voltava inutilizado. Perda total.

Algo precisava ser feito. As crianças já estavam crescidas, nem serviam mais de desculpa para o atraso do casal. Ele tinha sido promovido na firma, agora era gerente administrativo, ganhava razoavelmente bem, não tinha motivo para estresse.

Um dia, ao sair do cinema, resolveram voltar a pé para casa. Sem pressa, apreciavam as vitrines das lojas. Roupas, calçados, celulares, armarinhos…até que… Uma porta discreta, com uma placa “Proibido para Menores”. Ávida por novidades, ela ficou curiosa. Ele estava temeroso, podia ser um lugar barra-pesada. Ela perguntou se ele se considerava de menor. Não se tratava disso, mas não queria arriscar levá-la a um lugar perigoso.

– O que pode acontecer, se a gente entrar? – perguntou ela – Vão nos sedar e roubar um rim?

– Deus me livre! Tá louca?

– Que é que tem? Mesmo que nos roube um rim, tenho dois. Pode ser divertido.

– Não fale uma coisa dessas! Agora mesmo é que não entro.

– Deixa de ser bobo!

Ela tomou a iniciativa, segurou a mão dele e empurrou a porta preta. A iluminação de boate, a música eletrônica criavam uma atmosfera libidinosa. Atravessaram um corredor e, no fundo, o óbvio se revelou: tratava-se de uma loja de objetos eróticos.

Ela nunca tinha entrado numa. Ele, sim, com colegas de trabalho numa viagem da empresa. Não comprou nada e nada falou em casa, temia dar a entender que a tinha traído. Ele não sabe mentir e, em certas circunstâncias, não sabe nem dizer a verdade, soa como mentira mal contada.

Ela estava curiosa e foi se animando ao ver os produtos expostos. Ele relaxou. Risinhos nervosos de cumplicidade. O uso de alguns objetos era evidente, de outros, nem tanto.

– Como funciona isso? – perguntou ela.

– Menor ideia.

– Vamos perguntar ao vendedor.

– Tá maluca! Não quero que a gente passe por um casal careta que não entende nada disso.

– Mas a gente é um casal careta que não entende nada disso.

– E os outros precisam saber?

– Que diferença? Ninguém conhece a gente. E está tão escuro que nem conseguem ver nossa cara direito.

Foram olhando, pegando em algemas, máscaras, se divertindo com as fantasias de colegial, bombeiro, enfermeira, dançarina do ventre, policial…

– Calcinha comestível! – ela se espantou, ingênua.

– É aperitivo. – ele brincou. – O parceiro já vai fazendo uma boquinha.

– Tem vários sabores: morango, caramelo, limão.

– Bacalhau…

– Sério?

– Brincadeira. Mas não duvido que exista.

Depois de examinarem algumas peças, passaram à outra seção de objetos, que de fato chamaram a atenção dela. O enigmático colar tailandês foi o que mais a intrigou.

– Quem daria um colar desses de presente pra namorada?

– Se tá aí é porque deve vender.

– E será que a mulher usa?

– Pelo menos uma vez, pra agradar o amante.

– Mas que coisa de mau gosto, sair por aí com uma bijuteria de plástico dessas no pescoço.

– Querida, isso não é bijuteria. E nem se usa no pescoço.

– Não.?

– É de enfiar lá.

– Lá onde?

– Onde o sol não bate.

– Sério? Todo ele?

– Pois é…depois puxa.

– Nossa! Então é tipo motor de lancha, daquelas que ligam puxando a cordinha?

– Mais ou menos.

– Não, não. Preferia algo mais convencional.

– Você tá pensando em comprar ? – ela o surpreendeu.

– Por que não?

– Já vi que tá animada!

– Nem estava, mas fiquei.

Foram se dirigindo ao balcão onde estavam diversos modelos de vibradores. Ela ficou excitada. Ele gostou.

– A gente podia levar um desses.

– Você quer mesmo, querida?

– Não me chame de querida, me chame de cachorra.

– Quer um desses, cachorra?

– Au, au!

Ele sentiu uma leve ereção.

– Olha só este! – ela pegou um que parecia a réplica de um pênis.

– Parece real.

– Prefiro um menos real, mais fantástico. Este aqui!

– Uau! Tá mal intencionada!

– Pensei que fosse me achar bem intencionada. Se é pra gente experimentar, por que ficar de miserinha? Olha este! Será que existe na vida real?

– Desse tamanho, acho que nem no xvideos…

– O que é isso?

– Em casa eu te mostro. – respondeu como quem fosse revelar a senha da conta numerada na Suíça.

– Vamos levar?

Ele sempre teve vontade de propor isso, mas nunca soube como ela poderia reagir. Agora que ela embarcou, não podia dar chance de desistir.

– Claro!

O vendedor percebeu o interesse do casal e logo se aproximou.

– Pois não?

– Queremos levar. – disse ela, mostrando, um tanto acanhada, um modelo de dildo de proporções nada acanhadas.

– Vou pegar um no estoque.

– São dois. – ela corrigiu.

– Oi? – ele se assustou.

– Um pra mim, outro pra você.

– Um só dá. A gente vai brincar juntos, não é?

– Sim, claro. Mas cada um com o seu.

– Como assim?

– Ué. Você usa em mim, eu uso em você.

– Não… – risinho nervoso – Esse modelo é feminino.

– Desculpe, senhor. É unissex.

– Não lhe perguntei nada. – rebateu ele, ríspido.

– Bom, se você não quer, eu também desisto.

Ele ficou sem saber o que dizer. Não estava pensando em ser atravessado por aquilo. Por outro lado, não queria apagar o fogo dela. Olhava para o objeto estático. Num silêncio reflexivo.

– Então, o que vocês decidiram? – perguntou o vendedor.

– Querida, ou melhor, cachorra, o meu pode ser aquele menorzinho?

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