O INVEJADO

Os amigos se encontram na casa do Marcão para um fim de semana na serra. Era uma turma de quatro casais com seus filhos que costumavam estar sempre juntos nos feriados. Três casais chegaram na sexta à noite. No sábado pela manhã, aparece Haroldinho. Sem filhos e sem mulher. Haroldinho não estava com uma cara muito boa. Os amigos se aproximaram pra ajudá-lo a descarregar a mala, mas como estava sozinho, trazia uma pequena mochila. Haroldinho estava meio deprimido e não parecia disposto a trocar de roupas muitas vezes.

– Me separei da Claudinha.
– O quê? – O pessoal ficou chocado. Os dois pareciam tão harmoniosos, ninguém podia imaginar uma coisa dessas.
– Finalmente! Aquela mulher era uma mala! – desabafou Gabriel, sempre mais sincero, depois da terceira caipirinha.
– Não fala assim da mãe dos meus filhos, cara! – reagiu Haroldinho.
– Eu não tô falando da mãe dos teus filhos, tô falando da tua ex-mulher. – explicou.

As mulheres ouviram o papo.

– Explica isso melhor, Haroldinho. Alguma você andou aprontando. – provocou Luiza.
– Nada disso, Luiza. O Haroldinho e um cara sossegado. A Claudinha é que vivia pegando no pé dele, coitado, ninguém aguenta…
– Eu não sei, é uma coisa que não vem de hoje. Já faz tempo que a gente…
– Não dá no couro? – interrompeu o sincero Gabriel.  – Peraí, meu camarada, assim não tem casamento que resista!
– Não é nada disso!
– Então foi chifre? – perguntou Jairo. – Casamento só acaba por dois motivos: ou falta de sexo, ou excesso de uma das partes.
– O que estava acontecendo? Ela não te procurava mais? – Beatriz, compreensiva.
– Procurava, mas só achava ele no bar da esquina. – Nilo meteu sua colher no angu.

A rodinha se desfez. As mulheres foram cuidar das crianças.

– Esse Haroldinho, não sei não. – desconfiou Luiza. – Agora tá aí deprimidinho. Mas daqui a pouco aparece de rabo de cavalo e correndo na Lagoa pra perder a barriga.
– Homem é assim mesmo, só se cuida depois que separa. – filosofou Beatriz.

Enquanto isso, os homens foram preparar a churrasqueira.

– Aí, Haroldinho, pode se abrir com a gente: como é que tá essa vida de solteiro? Passando o rodo geral?
– Que isso, Lauro, tô devagar.
– Para com isso, rapá! tu ficou dez anos casado, agora que tá livre, vai se deprimir? – falou o Jairo. – Tu tem que pegar uma amiga da Claudinha, só pra matar da de raiva!
– É, a Luiza, por exemplo… – comentou Gabriel, que  estava partindo pra quarta caipirinha, essa sem açúcar.
– Porra, a Luiza é a minha mulher, Gabriel! – gritou o Lauro.
– Tá certo. Mas tem a Verinha, tá inteiraça ainda. E desde a faculdade ela dá mole pra você… – disse Jairo.
– Cara, não tô com cabeça pra pensar nisso não…
– Isso mesmo, Haroldinho. Esquece essas mulheres do passado. Parte pra carne nova. Já mudou o seu status no facebook? Já tá anunciando que tá solteiro, continua empregado e que ainda não começou a pagar pensão? Vai chover mulé, cara!

Anoiteceu. Haroldinho apareceu na sala de banho tomado.

– Vai um pokerzinho? – perguntou o Nilo.
– Não. Eu tô pensando em dar uma volta na cidade. Acho que vou até o shopping.
– Posso ir contigo? – Lauro se adiantou.
– Nem pensar! – gritou Luiza. Você fica. Se quiser pode gastar todo o salário na jogatina, mas aqui em casa, debaixo do meu nariz!
– Que isso, Luiza? Não confia mais em mim?
– E eu tenho cara de confiar em homem separado? – rebateu Luiza.
– Você também fica, Nilo. – emendou Beatriz.

Mariana não precisou falar nada. Seu marido, Gabriel, estava fora de combate, nocauteado pelas quinze caipirinhas. Ela mesmo teria que completar a mesa do pôker no seu lugar.
Haroldinho saiu, rodou, não comeu ninguém e voltou. Ainda assim, todos invejaram o amigo, só pelo fato de poder dar umas voltas e olhar uma bundinhas sem levar beliscão no braço.
Domingo à tarde, todos se preparavam pra voltar ao Rio. Haroldinho se despediu de todos, as esposas ficaram aliviadas: a má companhia, o desintegrador de lares, estava de partida. O separado ia ligar o carro quando o Lauro apareceu com um papel na mão.

– Que é isso, Lauro?
– É que ontem a gente se reuniu e fez uma lista das mulheres que a gente queria comer. Agora que você tá solteiro, você podia realizar o sonho dos seus amigos. Mesmo que você não queira, faz esse sacrifício pela gente.

Haroldinho desceu a serra com a folha de papel no banco do carona. Uma lista de encomendas, como aquelas que a gente recebe quando vai viajar pra Miami. Aproveita, Haroldinho!

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