A PRAGA DAS CAIXINHAS

Dezembro é um mês infernal. Os engarrafamentos se multiplicam pela cidade, os shoppings ficam entupidos, as ruas ficam coalhadas de presépios e árvores de Natal. Mas nada se compara à praga das caixinhas. Você passa a receber os clássicos envelopinhos do porteiro, do carteiro, do lixeiro, do entregador de gás, de revistas, dos flanelinhas, dos malabaristas que brotam em todas as esquinas por onde você passa.

Não tem como escapar delas. E um complicado dilema se impõe: como calcular o valor justo de cada caixinha? Que valor deve dar para não passar por unha de fome? Um sujeito que você nunca viu antes vem lhe entregar uma encomenda e fica te olhando até você se coçar. Aí começa o drama: se você lhe dá uma caixinha, quanto deve dar para o entregador da sua revista semanal? E para o entregador do jornal, que vai à sua casa todos os dias? E o porteiro que está ali no seu prédio o dia inteiro? Pô, e o lixeiro, que tem aquele serviço pesado e insalubre? E como calcular todas as proporções e não estourar o orçamento?

Devo parar no posto de gasolina e deixar uma gorda caixinha para todos com um único frentista ou dar uma merreca na mão de cada um? Ou seria melhor em dezembro parar em postos que nunca costuma ir pra assim evitar a gorjeta? E se o cara resolve adulterar o combustível só pra te sacanear? É, talvez seja preferível parar no posto de sempre e morrer no livro de ouro.

Por outro lado, a caixinha também pode ser uma arma de vingança. Aquele funcionário da Gatonet que faz questão de ser antipático o ano inteiro e nunca aparece quando é chamado, em dezembro surge todo sorridente para fazer uma inspeção preventiva. Para prevenir que não vai ficar de fora da sua lista. O mecânico que deixa a pé nos finais de semana, te obrigando a ir de ônibus pro motel com a gata, deposita um cartão carinhoso na sua caixa de correio. Pois então é a sua vez de ir à forra e sacanear o natal do mané. O problema é que o ano acaba logo depois das festas e você volta a precisar ser enrolado pelo profissional.

O ideal nessa época é não consumir nada, não requisitar nenhum serviço, não pedir informação em botecos, não deixar que ninguém lhe faça favor nenhum. Se eu fosse você, evitaria até ficar lendo textos em blogs. O que não faltam são pessoas inescrupulosas querendo se valer de seu espírito solidário, que têm certeza de que podem te sensibilizar a deixar uma modesta contribuição na conta 000171-71 do Banco Tabajara Personalité, ag 001. Que Deus lhe dê em dobro o que você depositar aqui.

 

 

 

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